A escrita da história do egito antigo



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a escrita da hsitria do egito antigo
irmão, busca-o sem fadiga, percorre em luto este país, não repousa enquanto não o 
encontrar” (ARAÚJO, 2000, 342). Ao recuperar o corpo de Osíris, as divindades 
relacionadas ao ciclo do deus prantearam-no e Anúbis encarregou-se de conservá-lo, 
transformando Osíris na primeira múmia. Tal episódio fortaleceu a crença dos egípcios 
na imortalidade, pois, após ser embalsamado, Osíris ressuscitou pela magia de Ísis e 
ambos conceberam Hórus, tal como nos informa o texto do Grande Hino a Osíris
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Uma versão completa disponível em língua portuguesa é: PLUTARCO. Ísis e Osíris. Os mistérios da 
iniciação. Lisboa: Fim de Século, 2001. 
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Escrito na estela de Amenemes, datada da XVIII Dinastia, Louvre C286. 


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O filho póstumo, Hórus, teve como principais metas a vingança da morte de seu 
pai e a destituição do usurpador do trono do Egito. Outros textos completaram a 
sequência neste ponto do mito, de modo que a história tivesse um fim. Um exemplo é 
a narrativa das Contendas de Hórus e Set, que duraram oitenta e oito anos, numa 
disputa acirrada pelo trono do Egito. A derrota de Set aparece descrita no Hino a Osíris 
de forma resumida, mas com um resultado positivo: “Deu-se ao filho de Ísis seu 
inimigo, que sucumbiu a seu vigor, o autor do mal foi ferido, sua força foi aniquilada” 
(ARAÚJO, 2000, 344). Ao final, o poder foi conferido a Hórus, embora outras fontes 
apontem para uma divisão entre Hórus e Set. 
A noção que fortalecia o mito da realeza divina era justamente o fato de Hórus 
ter herdado o trono do Egito, que lhe é transmitido por um acordo no tribunal 
presidido por Geb. Os paramentos da realeza lhe são entregues e ele obtém, por meio 
destes símbolos, o domínio sobre tudo o que existe entre o céu e a terra, junto com a 
noção de que todo o território lhe pertence. Osíris acabou por ocupar um novo lugar 
no oeste onde estava, a principio, sozinho conforme o seu principal epíteto: “primeiro 
dos Ocidentais”. Embora vazio, neste espaço, segundo a promessa do deus Atum, nada 
faltaria para Osíris, uma vez que ele não poderia estar na barca com Ra. O seu lugar na 
terra, contudo, estava destinado ao seu filho, seu herdeiro, que ocuparia o seu trono e 
reinaria no Egito. Assim, fica claro que os destinos do deus dos redivivos e do 
governante da terra do Egito estavam definidos. O faraó vivo era visto como a 
manifestação terrena do deus-falcão, enquanto que o rei morto se convertia em Osíris. 
Sobre a forma como os egípcios seguiam esta concepção mítica de que os 
deuses tinham governado o Egito, uma fonte é de fundamental importância, bem 
como para a própria reconstituição da cronologia egípcia: o Papiro Real de Turim. Esta 
fonte, conservada no museu homônimo, foi escrita em hierático e pode ser datada da 
XIX Dinastia. No seu verso há uma lista com os nomes dos faraós desde tempos 
imemoriais até Ramsés II. Na primeira coluna estão os nomes dos deuses: Ptah, Ra, 
Shu, Geb, Osíris, Set e Hórus. Ainda, mostra a duração de cada reinado em anos, meses 


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e dias, em alguns casos com a data exata do fim do governo. Conforme aponta Sales 
(2001, 511), esta lista real manifesta claras preocupações de reflexão histórica e até de 
periodização, pois apresenta o total de anos de reinado de um mesmo período em 
tinta vermelha, enquanto o restante o texto aparece na cor preta. A divisão em 
períodos, no entanto, é feita conforme a capital que escolheram os faraós ou o local de 
seu nascimento. 
Barry Kemp (2008, 32) informa que havia originalmente cerca de trezentos 
nomes de reis nesta lista, que agora se encontra bastante fragmentada. Segundo ele, 
nenhum rei foi esquecido, por mais efêmero que tenha sido seu reinado. É a mais 
completa das listas reais, trazendo inclusive os governantes hicsos, que não aparecem 
em outros documentos desse tipo (SALES, 2001, 511). 
Estes primeiros dois títulos, que relacionavam o faraó a Hórus, eram recebidos 
no momento de sua ascensão ao trono e os seus componentes algumas vezes estavam 
ligados a uma ideologia ou a intenções do rei em questão (SHAW, 2000, 06). Havia, no 
entanto, um terceiro título, sa ra, cuja tradução é “filho de Ra” (FAULKNER, 1976,
207), que era recebido pelo monarca na ocasião do seu nascimento e relacionava o rei 
diretamente ao demiurgo criador, Ra. No conto do Nascimento dos Príncipes, presente 
no papiro Westcar, temos a confirmação desta ideia, visto que a protagonista da 
história, uma mulher chamada Reddjedet, deu à luz três meninos gerados pelo próprio 
Ra
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. Quando o faraó estava reinando sobre a terra a sua imagem era o reflexo do 
antigo reinado de Ra. O deus-sol, tendo ordenado o mundo e governado por conta 
própria como um primeiro faraó, simplesmente não era questionado, e tal ideia 
passou para o governo vigente. Nas inscrições o reinado do monarca é comparado com 
o do deus-sol, tal como neste fragmento do protocolo real de Tothmés III: “Hórus, o 
touro poderoso que aparece em Tebas, as Duas Senhoras, cuja realeza é durável como 
a de Ra no céu (...)” (SALES, 1997, 198). 
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Uma versão completa do conto esta em: ARAÚJO, 2000, 117-181. 


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Além dos títulos que o relacionavam diretamente aos deuses, os faraós 
ostentavam outros que estavam intimamente ligados à sua função terrestre. O 
primeiro deles é nebty, ou “Duas Senhoras” (FAULKNER, 1976, 129), que refere-se à 
proteção do faraó pelas deusas Uadjti, do Norte, representada como uma serpente, e 
Nekhbet, do Sul, que apresenta a forma de um abutre. Luís Manuel de Araújo (2001,
827) sugere que a terminação em y indica que se trata de um dual, forma de plural 
existente na língua egípcia usada apenas quando nos referimos ao número dois, ou de 
um adjetivo nisbé que, tal como explicado anteriormente, tem o sentido de 
“pertencente a” ou “relacionado com”. Desta maneira, o título poderia ser entendido 
como “O que pertence a Nekhbet e a Uadjti”, o que mostra que o faraó estava sob a 
proteção das duas deusas tutelares e delas herdava as coroas branca e vermelha. 
Por fim, o título nesu-bit, ou Rei do Alto e Baixo Egito (FAULKNER, 1976, 139), 
que literalmente significa “o do junco” (nesu), uma alusão ao Sul, e “o da abelha” (bit), 
referindo-se ao norte, era recebido pelo faraó durante as cerimônias de coroação. Este 
nome surgiu durante o reinado de Den, na I Dinastia (c. 2920-2770 a.C.), mas é apenas 
a partir do governo de Sneferu (c. 2575-2551 a.C.), na IV Dinastia, que ele começa a 
aparecer dentro de um cartucho, um símbolo de proteção (SHAW, 2000, 07). Algumas 
vezes tal título poderia ser substituído por neb tauí, ou “Senhor das Duas Terras”, e 
isto parece confirmar a sua relação com o Norte e o Sul, simbolizada pelo junco e pela 
abelha (ARAÚJO, 2001, 828). Há, no entanto, outra interpretação possível para nesu 
bit, esta muito mais complexa. Alguns egiptólogos consideram que o termo sut, que 
integra a primeira parte do título e se refere à planta heráldica do Norte, representaria 
a natureza divina do monarca, que em certos períodos é visto como um deus, 
enquanto bit diria respeito ao aspecto humano do rei, que era mortal e ocupava o 
trono temporariamente, e consequentemente à natureza efêmera da monarquia 
(SHAW, 2000, 07; ARAÚJO, 2001, 828). 
Com nesu-bit encerra-se a relação dos títulos que formavam a titulatura real 
egípcia, conforme estabelecida e utilizada durante o Reino Médio. Conforme aponta 


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Julio Gralha (2002, 92) todos os títulos apareceram durante o Reino Antigo e o 
Primeiro Período Intermediário, sendo então agrupados no Reino Médio. Além dos 
títulos, muitos epítetos aparecem também associados aos nomes reais, como “Touro 
Poderoso”, que relacionava a força do monarca àquela do touro, e o “Bom Deus”, que 
o identificava aos deuses e o diferenciava de Osíris, que tinha o epíteto de “Grande 
Deus”. Uma titulatura completa de um governante do Reino Médio pode ser vista na 
figura 2, que mostra parte da inscrição presente na parte superior da estela de 
fronteira instalada por Senusert III em Semna, uma fortaleza localizada próximo à 
segunda catarata do Nilo, na Núbia, e que indicava o limite meridional do Egito na 
época de seu reinado, no auge da XII Dinastia. 

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