A diversidade de abóboras no Brasil e sua relação histórica com a cultura Slow Food Brasil



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Alimentação e Cultura

A diversidade de abóboras no Brasil e sua relação histórica com a cultura

Publicado em Quinta, 01 Março 2012 10:38

Escrito por Rosa Lía Barbieri

Acessos: 627

O Brasil, originalmente, era habitado por diversas nações indígenas.

Navegadores portugueses chegaram às terras brasileiras no ano de 1500,

quando este território passou a se constituir em uma das colônias de

Portugal. Os portugueses trouxeram escravos da África, já no século XVI.

No século XIX, o país tornou-se independente de Portugal e, pouco

depois, aboliu a escravatura. Ainda nesse século, chegou ao país um

grande número de imigrantes, especialmente alemães e italianos. Mais

tarde, vieram também imigrantes de outras partes do mundo, com

destaque para japoneses, chineses, poloneses e russos. Cada etnia trouxe consigo sua cultura, valores, culinária e,

muitas vezes, sementes de variedades de cereais, hortaliças, frutas, forrageiras, condimentos e plantas medicinais.

Acompanhando as sementes, vinha também o conhecimento necessário para o plantio, cultivo, colheita,

armazenamento e uso dos produtos. A confluência de diferentes etnias resultou na diversidade do povo brasileiro,

de sua religiosidade e, também, em uma culinária diferenciada, marcada, em cada região do país, por uma forte

correlação com a história de ocupação local e com a origem de seus habitantes.

Desse modo, ainda hoje, são cultivadas no Brasil muitas variedades

crioulas, de um grande número de espécies – sejam espécies nativas,

como a mandioca (Manihot esculenta), ou espécies não nativas, como é o

caso da cebola (Onion cepa), que veio com os portugueses. São

denominadas de variedades crioulas aquelas variedades que foram

desenvolvidas pelos próprios agricultores, resultantes da seleção de

plantas por eles realizada ao longo do tempo, cujas sementes são

passadas de geração a geração e também trocadas entre vizinhos e

parentes. Um caso que merece destaque é o das variedades crioulas de abóboras, por sua diversidade e pelo

manejo realizado pelos agricultores.

 

As abóboras pertencem ao gênero Cucurbita (família Cucurbitaceae), que



compreende várias espécies silvestres e domesticadas nativas das

Américas. Cinco espécies de Cucurbita foram domesticadas há milhares

de anos e compreendem as hortaliças conhecidas como abóboras,

morangas, gilas, mogangos e abóboras ornamentais: Cucurbita maxima,



Cucurbita moschata, Cucurbita ficifolia, Cucurbita argyrosperma e

Cucurbita pepo.

Quando os primeiros navegadores portugueses desembarcaram em

terras brasileiras, há cinco séculos, os indígenas cultivavam suas próprias variedades de abóboras. Naquela

época, elas eram o terceiro produto agrícola em ordem de importância para os indígenas, sendo suplantadas

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apenas pela mandioca e pelo milho. As abóboras cultivadas pelos índios brasileiros foram levadas para a Europa

pelos portugueses, enquanto que os espanhóis, que colonizaram outros países das Américas, levaram para lá as

variedades de abóboras cultivadas pelos astecas, maias e incas. As abóboras fizeram sucesso e circularam

rapidamente entre os diferentes países do Velho Mundo, chegando à Alemanha e à Itália ainda no século XVI.

Quando os imigrantes alemães e italianos vieram ao Brasil, no século XIX, trouxeram consigo sementes de suas

próprias seleções de abóboras, para seguir cultivando no Brasil aquelas que já haviam sido incorporadas à sua

cultura havia três séculos.

Assim, atualmente, existe no Brasil o seguinte cenário: alguns agricultores

ainda mantém suas variedades crioulas de abóboras, realizando seleção

recorrente para os tipos de frutos que mais lhe agradam, de acordo com

suas preferências pessoais, ditadas por sua cultura. Um pequeno número

desses agricultores tem papel de destaque nessa dinâmica de

conservação in situ / on farm, atuando como guardiões dessas sementes,

que são passadas de geração a geração e são objeto de trocas entre

parentes e vizinhos. O maior número de variedades crioulas em cultivo no

país é das espécies Cucurbita maxima e Cucurbita moschata. A primeira apresenta grande variabilidade genética

para características morfológicas externas do fruto, como tamanho, formato, cor e textura da casca, o que resulta

em uma diversidade de nomes atribuídos para cada tipo, como abobrinha, abóbora, abóbora-crioula, abóbora-

cogumelo, abóbora-coração-de-boi, abóbora-gaúcha, moranga e moranga-de-bunda, entre outros. Já os frutos de

Cucurbita moschata, conhecidos popularmente como abóbora-de-pescoço, moranga ou abóbora-menina,

representam uma importante reserva de alimento para animais domésticos (principalmente suínos e bovinos), além

de serem bastante utilizados no preparo de doces – em calda e em pasta – e também de pratos salgados

(quibebe, sopas e cozidos).

A maior diversidade de Cucurbita em cultivo no país é mantida pelos agricultores da Região Sul, onde podem ser

encontradas as cinco espécies domesticadas de Cucurbita, como resultado do processo histórico de colonização.

Nesse contexto, agricultores descendentes de portugueses mantêm variedades crioulas de Cucurbita pepo, cujos

frutos de casca bastante dura e polpa fibrosa, denominados mogangos, são apreciados no preparo de "mogango

caramelado" e também em pratos salgados. Em número bem menor, alguns descendentes de portugueses no Sul

do país também mantêm variedades crioulas de gila (Cucurbita ficifolia), com frutos de casca extremamente dura

e com polpa branca e muito fibrosa, utilizados no preparo de um doce típico português, denominado "doce de gila",

cuja textura é semelhante ao doce de fios-de-ovos, mas com coloração branca e sabor característico.

Os afrodescendentes, particularmente em comunidades negras rurais,

têm suas próprias variedades crioulas, com destaque para os mogangos

(Cucurbita pepo). Eles também mantêm variedades crioulas de Cucurbita

maxima e de Cucurbita moschata. Os descendentes de imigrantes

alemães, além de Cucurbita maxima e de Cucurbita moschata, mantêm

variedades ornamentais de Cucurbita pepo, algumas com frutos

comestíveis e outras não adequadas para o consumo, devido ao amargor

da polpa. Com cores intensas e bastante variadas, além de formas

bastante diversas (periformes, ovais, discóides, redondos, estrelados), os frutos são usados na decoração de

residências. De formato periforme, os chamados poronguinhos ornamentais não são comestíveis, apresentam

grande variabilidade e podem ser utilizados em decoração, com grande durabilidade pós-colheita. Quando

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apresentam formato estrelado, recebem os nomes de abóbora-estrela, abóbora-teta-de-égua ou abóbora-

dez-mandamentos, sendo utilizadas no preparo de doces, com ou sem adição de coco ralado. Por sua vez, os

descendentes de imigrantes italianos no Sul do país dão preferência a variedades crioulas de Cucurbita maxima

com frutos achatados de polpa bastante consistente e coloração alaranjada, os quais são usados para o preparo

do recheio de tortei, prato típico da culinária italiana; e de Cucurbita moschata, com frutos grandes de pescoço,

para fazer doces em cubos e em pasta.

Essas variedades crioulas de abóboras são parte de manifestações culturais: desde o nome a elas atribuído até

seu preparo, como componentes de diferentes pratos tradicionais, ou por meio de outros usos, como ornamental,

por exemplo.

Durante muito tempo, a perpetuação dessas variedades coube

unicamente ao esforço de agricultores familiares em propagar e cultivar

suas sementes, cuja origem está intrinsecamente ligada com a história

das famílias. Porém, as variedades crioulas de abóboras cultivadas no

Brasil vêm sofrendo perdas significativas nas últimas três décadas, devido

à substituição por variedades híbridas e também pelo abandono do

cultivo, causado muitas vezes pelo êxodo rural – particularmente o juvenil

– e pela expansão urbana. Essas variedades crioulas constituem um

importante patrimônio genético e cultural da agricultura familiar – e do Brasil –, que não pode ser perdido,

merecendo maior valorização no cenário nacional.




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