A diplomacia entre Brasil e Venezuela: o histórico que implicou na conjuntura atual e suas consequências


   Estado: soberania, território e povo



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2.   Estado: soberania, território e povo.  

O Estado, a depender do conceito sucitado pela doutrina, pode conter pontos 

controvertidos,  modificações  ou  variações,  entretanto  o  ponto  basilar  de 

todas as interpretações converge na criação de um Estado que tem por intuito 

a realização do bem público, tendo esse autoridade e poder, advindo do povo, 

que o legitima. 

Quanto ao que cabe abordar sobre a temática estado, para o presente se faz 

indispensável  tratar  dos  elementos  constitutivos  de  estado,  quais  sejam,  a 

soberania, o território e, finalmente, o povo.  Insta salientar, que a ausência 

de  qualquer  dos  elementos  mencionados,  descaracteriza  a  formação  de 

estado no conceito moderno. 

Antes de explorarmos o tema, insta salientar sobre o conceito de soberania 

e  sua  implicação  no  direito  internacional  público,  para  assim,  chegar  a 

atualidade na crise da Venezuela, se faz necessária uma retrospectiva sobre 

a origem desse conceito essencial para a ideia de Estado. 

A terminologia “soberania”, tomou forma conforme a ideia atual surgiu em 

meados do século XVI. Com a formação do Estado moderno, a necessidade 

de um  conceito  se fez presente. A primeira figura  importante  para citar  é 

Jean Bodin, que em sua obra, analisa as relações entre o Rei e a forma com 

a qual a soberania é seu fundamento. 

Coube a Jean Bodin, em seus estudos, analisar a figura da Soberania. Ele foi 

o  primeiro  teórico  político  a  se  debruçar  sobre  o  tema.  A  soberania  foi 

utilizada  por  ele  para  fundamentar  o  poder  do  Rei,  uma  vez  que  existia, 

internamente,  um  confronto  com  outras  forças  políticas,  como  a  própria 

Igreja.  Nesse  momento  inicial  de  formação  e  consolidação  do  Estado 

moderno a ideia de uma espécie de poder capaz de impor uma ordem interna 

e  não  se  sujeitar  a  uma  ordem  externa  era  fundamental  para  estruturar  o 

Estado em formação naquele período. A esse poder Jean Bodin chamou de 

Soberania (COSTA, 2016). 

Nesse ínterim, soberania para o mencionado jurista francês, consiste em um 

poder absoluto, perpétuo, que não se sujeita a nehum poder humano, exeto 

às  leis  naturais  e  divinas.  Nota-se  que  aqui,  o  conceito  é  voltado  para  a 

fundamentação da soberania do monarca, para validar a relação.  

Em  outro  diapasão,  não  há  como  falar  em  soberania,  sem  tratar  de  Jean-

Jaques Rousseau e do conceito aplicado pelo mesmo. Com uma perspectiva 

mais  abrangente,  Jean-Jaques  Rousseau  volta-se  o  povo  como  principal. 

Logo,  o foco  deixa  se  estar no  rei em  si,  e a soberania deixa de  ser a sua 

fundamentação, para a ser a vontade geral tornar-se o essencial. 




A diplomacia entre Brasil e Venezuela: 

o histórico que implicou na conjuntura atual e suas consequências 

 

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Nessa  fundamentação  do  estado  legítimo  e  bem  ordenado,  o  conceito  de 

soberania  se  apresenta  como  ponto  fundamental  do  projeto  do  filósofo 

genebrino.  Todo  o  discurso  em  torno  da  origem  convencional  do  contrato 

encontra  seu  ponto  culminante  no  conceito  de  soberania  (cf.  Rousseau, 

1978b, p. 43, nota 88 de lgm). E o que é, segundo rousseau, a soberania? Não 

é  outra  coisa  senão  o  exercício  da  vontade  geral,  sendo  esta  a  vontade  do 

corpo do povo e tendendo sempre ao bem comum. Do contrário, “não passa 

de uma vontade particular ou de um ato de magistratura, quando muito de um 

decreto”.  (rousseau,  1978b,  p.  44).  Desse  modo,  a  soberania  não  pode  ser 

alienada e, tampouco, dividida (ANTUNES, 2006). 

Rousseau  encontra  seu  ponto  basilar  na  vontade  geral.  O  exercicio  da 

vontade  geral,  pelo  povo,  é  a  aplicação  da  vontade  da  sociedade  como 

cidadãos,  fazendo  as  vezes  de  ente  político.  Logo,  os  entes  nada  mais 

seriam  do  que  a  vontade  do  povo  sendo  exercida  e  legitimada  pelo  seu 

titular, o povo, na figura de representantes leagais. Nesse sentido:  

A  soberania,  para  rousseau, é  o  exercício  da  vontade  geral.  Desse  modo, a 

soberania  não  pode  ser  alienada  ou  dividida  e  jamais  está  concentrada  nas 

mãos de um homem ou de um grupo. A vontade geral favorece ou obriga a 

todos  os  cidadãos  de  maneira  eqüitativa,  por  ser  uma  convenção  que  tem 

como  base  o  contrato  social  e  útil  por  não  ter  outro  objeto  que  não  o  bem 

geral. Ela é o fundamento da convenção entre os indivíduos que, vivendo na 

sociedade civil, podem resgatar a liberdade original(ANTUNES, 2006). 

Diante disso, o conceito de soberania atualmente aplicado  e observado em 

todas as sociedades, consiste em afirmar que a vontade geral da população, 

legitima  o  exercício  de  um  governo  representativo  e  que  esse,  tem  por 

função,  mostrar  as  vontades  da  população,  ou  parcela  de  sociedade,  que  o 

escolheu.  

De  forma  abrangente  e  susinta,  território  consiste  no  espaço  físico,  ou 

determinado  espaço  geografico  apropriado  de  um  determinado  Estado, 

marcado  pelas  relações  provenientes  de  soberania  já  mencionada.  Vale 

ressaltar quanto a caracterização do conjunto disposto no solo em questão, 

que  foi  brilhantemente  ilustrada  por  Gustavo  Glodes  Blum,  no  seguinte 

trecho:  

Assim, o Espaço se caracteriza como este conjunto de objetos dispostos na 

superfície, sendo eles naturais ou construídos artificialmente pelo Homem. 

É este conjunto de objetos, que se relacionam entre si, que dá a característica 

a esse Espaço: a relação entre Natureza, trabalho/produção e circulação, onde 

o  Homem  exerce  sobre  seu  espaço  natural,  que  anteriormente  o  continha, 

alterações  que  são  a  reflexão  e  a  materialidade  das  relações  de  poder 

estabelecidas naquela sociedade. Ora, realizar esta afirmação é considerar a 

alteração conceitual de quando debatemos Espaço e Território, uma vez que 

problematizar o segundo envolve necessariamente compreender quais são as 



Bárbara Pimentel Marim 

Marcelo Fernando Quiroga Obregon 

 

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relações  sociais  que  se  dão  no  primeiro,  enquanto  base  material  para  a 

existência (BLUM, 2014).  

Nos distintos formatos que a abordagem de território apresenta, há ainda que 

se falar quanto as fronteiras que esses possuem, sendo algumas delimitadas 

(de  fronteiras  fixas),  e  outras,  ao  contrário  (com  seus  limites  pouco 

expressivos).  Vale  ressaltar  que, 

constitui-se  do  solo,  subsolo,  águas 

territoriais, ilhas, rios, lagos, portos, mar e espaço aéreo (BOF, 2018).

  

Por  conseguinte,  ao  tratar  de  determinado  território  como  “território 



venezuelano”, por exemplo, a abordagem não é feita a cerca da Venezuela, 

propriamente dita, mas das delimitações correspondentes as fronteiras de seu 

país. Nesse sentido, cabe a interpretação de que a Venezuela é soberana no 

que tange o seu território, fazendo com que os interesses de seus habitantes 

prevaleçam naquele espaço (BLUM, 2014). 

Para que a formação de um Estado se realize em sua completude, todos os 

elementos constitutivos devem estar presentes. A soberania, o território e o 

povo. Sendo assim, a análise quanto ao último elemento, se faz essencial.  

A priori insta salientar quanto aos conceitos de povo existentes, quais sejam, 

povo  no  sentido  político,  jurídico  ou  sociológico.  Não  cabe  no  presente 

abordar  quanto  ao  sentido  jurídico  ou  sociológico  do  conceito,  ainda  que 

ambos sejam importantes, iremos nos ater ao conceito político.  

O  conceito  “povo”  não  apareceu  na  política  recentemente.  Desde  a 

antiguidade  romana  ouve-se  falar  sobre  povo  é  a  reunião  da  multidão 

associada  pelo  consenso  do  direito  e  pela  comunhão  da  utilidade”  e  não 

simplesmente  todo  conjunto  de  homens  congregados  de  qualquer  maneira. 

Da mesma forma, na modernidade, o conceito é afirmado por alguns autores, 

a nova teoria do estado que começa com a implantação da sociedade liberal-

burguesa, na segunda metade do século xviii, parte do povo. No absolutismo 

o  povo  fora  objeto,  com  a  democracia  ele  se  transforma  em  sujeito 

(PEREIRA. 2016).  

Nesse cenário,  

Teve  início  esse  princípio  com  o  Estado  liberal,  constitucional  e  re-

presentativo. A história que vai do sufrágio restrito ao sufrágio universal é a 

própria  história  da  implantação  do  princípio  democrático  e  da  formação 

política  do  conceito  de  povo.  Embora  restrito,  o  sufrágio  inaugura  a 

participação dos governados, sua presença oficial no poder mediante o sistema 

representativo, elegendo representantes que intervirão na elaboração das leis e 

que exprimirão pela primeira vez na sociedade moderna uma vontade política 

nova e distinta da vontade dos reis absolutos (PEREIRA, 2016)



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Povo  consiste  então,  no quadro  volante  da  humanidade  que  tomou  pra  si  a 

capacidade decisória, se politizou, formando o corpo eleitoral. O conceito de 

povo tranapassa a formação histórica recente, fazendo com que as realezas, 

burguesias, que eram familiarizadas com súditos e dinastias, se deparam com 

a nova realidade de povos e naçoes. 

Diante disso, finda-se a análise não só de povo em seu conceito aplicado a 

sociedade atual, mas a concepção de estado e a amplitude de conceitos que 

o envolvem.   



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