A constituição da História Como Ciência


particularmente na relação soberania e propriedade



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particularmente na relação soberania e propriedade
[532]
.  Para  o  polonês  Bronislaw  Geremek,  contudo, A  sociedade  feudal
representa o êxito de um projeto de história total – cuja inspiração vem de Lamprecht, mas também da síntese de Berr, que alia
uma  fusão  entre  a  síntese  científica  e  a  erudita  –,  ela  é  uma  contribuição  maior  da  coesão  social  e  das  possibilidades  de
compreensão humana a partir do comportamento social e psicológico. Leo Verriest, Dominique Barthèlemy e Pierre Bonassie
criticam  a  obra  por  sua  larga  definição  para  o  estatuto  da  servidão
[533]
;  e  Élisabeth  Magnou-Nortier,  por  sua  tentativa  de
compreender  a  feudalidade  somente  através  de  mecanismos  institucionais,  dando  pouca  atenção  às  relações  jurídicas
[534]
.
Apesar disso, há outros momentos problemáticos como a caracterização do feudalismo japonês ou o desejo de encontrar um
sistema semelhante na África. De qualquer modo, é preciso sublinhar o impressionante domínio da erudição e atualidade de
Bloch:  ele  conhecia  obras  francesas,  inglesas  e  alemãs,  antigas  e  contemporâneas.  Há  outras  virtudes,  como  sua  análise  do
regime senhorial e de vassalagem, por meio do método comparativo, pelo qual percebeu a existência da vassalagem em níveis
inferiores. Como Bloch relacionava problemas econômicos e sociais, fica a questão se conhecia a obra de Max Weber, pois
são  sensíveis  as  aproximações.  Leitor  de  Marx,  Bloch  não  opunha  o  feudalismo  ao  capitalismo  como  o  filósofo  alemão. A
sociedade  feudal  foi  um  livro  escrito  para  a  Bibliothèque  de  Synthèse,  de  Henri  Berr,  por  indicação  feita  por  Lucien
Febvre
[535]
. Ela permanece, contudo, presa a padrões etnocêntricos:
O  esquema  comparativo  tem  certamente  o  defeito  de  levar  Marc  Bloch  a  tratar  as  instituições  sociais  do  passado  com  ares  de  superioridade:  ele  as  faz
desfilar  sob  os  olhos  do  leitor,  país  após  país,  tema  após  tema,  escolhendo  os  exemplos  e  enfatizando  o  que  quer.  Isso  pode  nos  parecer  hoje  artificial  ou
superficial.  Ele  se  fia,  pela  força  das  circunstâncias,  em  trabalhos  de  segunda  mão,  de  que  desconfia  às  vezes,  mas  nem  sempre:  assim  seus
desenvolvimentos sobre a cavalaria e a nobreza, que ele próprio estudou menos que a servidão devem muito a Paul Gulhiermoz
[536]
.
Síntese ambiciosa que vai de 900 a 1300, com uma grande variedade de tópicos, e com destaque para os modos de sentir e
de  pensar  e  o  estudo  sobre  a  memória  coletiva, A  sociedade  feudal  é  seu  trabalho  mais  durkheimiano  ao  ocupar-se  do
problema da coesão social
[537]
. Não por acaso, o último capítulo intitula-se “O feudalismo como tipo social”. Estima-se que
tenham sido vendidos aproximadamente 80 mil exemplares dessa obra até os meados de 1994
[538]
. Entre os acertos iniciais e
a publicação do primeiro volume, a redação levou 15 anos, indo de 1924 a 1939, sendo que desde 1931 observam-se cartas
de Bloch desculpando-se pela demora. Bloch confessa seu desejo de fazer um livro de síntese
[539]
, tendo insistido para que o
título  não  fosse  aquele  escolhido  por  Berr: O regime feudal.  Outro  ponto  a  destacar  é  o  fato  de  que  Bloch  fazia  cortes  por
amostragens  em  suas  pesquisas  empíricas,  diferentemente  da  segunda  geração  dos Annales,  que  preferia  a  abordagem
exaustiva  e  serial.  Em  todo  caso,  Bloch  se  equivoca  ao  negar  a  existência  da  nobreza  no  que  ele  chama  da  primeira  idade
feudal e a continuidade das grandes famílias. Algo que é duramente criticado por Karl F. Werner
[540]
. E não critica o excesso
de germanidade para a Alta Idade Média – de meados dos anos 900 até o ano 1000, tampouco a influência da senhoria castelã
na sociedade francesa medieval.


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