A constituição da História Como Ciência



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Les  Rois  thaumaturges  (1924)  e Les  Caractères  originaux  de  l’histoire  rurale  française   (1931)  são  vistos  como  as
contribuições  de  maior  durabilidade  de  Marc  Bloch  para  a  historiografia  do  início  dos  séculos  XX  e  XXI.  E  isso  porque
rompia  com  as  abordagens  tradicionais  existentes,  realizando  uma  análise  comparativa,  além  de  valer-se  de  fontes  que
remetiam  às  atitudes  mentais,  introduzindo  assim  uma  dimensão  negligenciada  pelos  historiadores:  a  psicologia.  Para  isso
inspirou-se nos trabalhos de dois colegas da Fundação Thiers, Marcel Granet (1884-1940), e Louis Gernet (1882-1962), que
publicaram estudos sobre rituais e mitos chineses e gregos. Mas a obra Os reis taumaturgos sofreu várias críticas, como, por
exemplo, desconsiderar Marcel Mauss e sua análise da teoria mágica e dos ritos religiosos, ou ainda a obra de Arnold van
Gennep (1873-1957) sobre os ritos de passagem. Contudo, para Peter Burke, esse livro antecipa a longa duração e o estudo de
mentalidades e anuncia o que futuramente seria a antropologia histórica
[526]
. O método regressivo, que tem como uma de suas
bases a inspiração na psicologia freudiana, é a principal marca de Les caractères originaux de l’histoire rurale française ,
cuja investigação parte do presente para interpretar o passado. Esse método pode ser percebido numa expressão cunhada pelo
próprio Bloch: explicar o presente pelo passado e explicar o passado pelo presente. Ou ainda fazer uma história ao inverso. O
método  não  se  constituía  em  uma  novidade,  haja  vista  que  já  era  utilizado  há  algum  tempo  por  F.W.  Maitland
[527]
.  Nele
Bloch combina ferramentas fundamentais do historiador, como a erudição e a conceitualização. Também aponta a existência
de  uma  mentalidade  tipicamente  rural  ou  tradicional,  sem  contar  que  se  valeu  de  fontes  diversificadas  como  mapas  e  até
mesmo  fotografias  aéreas.  Ele  admitia  o  caráter  preliminar  desse  trabalho,  embora  seus  esforços  tenham  sido  reconhecidos
por  diversos  historiadores  como Alphons  Dopsch  (1868-1953)
[528]
,  Carl  Brinkmann  (1885-1954)  e  Gino  Luzzatto  (1878-
1964).  Pierre  Toubert  considera  esse  livro  uma  das  contribuições  mais  refinadas  de  Bloch,  com  sua  síntese  inigualável,
embora  reconheça  que  provavelmente  a  melhor  obra  de  Bloch  não  seja  exatamente  um  livro  em  particular,  mas  a  revista
Annales.  Em Caractères  Bloch  rompeu  com  “a  mitologia  conservadora  de  uma  eterna  ruralidade  francesa  ao  mostrar
notadamente a importância das transformações agrárias e sociais do fim da Idade Média e do século XVIII”
[529]
. Esse livro
tem  forte  inspiração  no  estudo  do  inglês  Frederick  Seebohm  (1909-1990) The  English  Village  Community  Examined  in  its
Relations to the Manorial and Tribal Systems and to the Common or Open Field System of Husbandry, de 1883.
No texto intitulado “Que pedir à história”, artigo publicado no Bulletin número 34 de janeiro de 1937, Bloch revela suas
inspirações  mais  diretas:  Lucien  Febvre,  Karl  Marx,  Henri  Pirenne,  Émile  Durkheim,  Jules  Michelet,  e  arremata,  citando
Fustel de Coulanges, para o qual a história não é uma “acumulação dos acontecimentos de toda a natureza que se deram no
passado”
[530]
.  Michelet,  confessou,  era  um  apaixonado  pelas  fontes  originais  que  manuseou,  procurando  recuperar  a
consciência dos homens do passado, mas se deixava contaminar pelas paixões políticas de seu tempo, ao passo que Coulanges
evitava  confundir  patriotismo  e  ciência,  enfatizando  ainda  que  não  era  “romântico  nem  germanista”
[531]
.  De  Coulanges
retirou o modo de redigir suas histórias, com poucos retratos individuais, mas uma história em que o homem, longe de estar


ausente, é revelado pela sensibilidade de suas ideias e de suas instituições.
Em relação à sua obra-prima, A sociedade feudal, novos estudos apontaram objeções a muitos aspectos, como sua definição
confusa de feudalismo, suas incorreções geográficas, o tratamento insuficiente das instituições jurídicas, o recurso a amplos
estratos  sociais  que  oblitera  diferenças  internas,  a  excessiva  esquematização  da  civilização  feudal.  O  próprio  Febvre  o
criticou, sentindo falta da humanidade e do homem medieval. Fazendo coro com François-Louis Ganshof (1895-1980), Paul
Ourliac sublinhou o descompasso entre a definição do feudalismo e a própria natureza jurídica e institucional do feudalismo,

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