A constituição da História Como Ciência



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falsas notícias da guerra, ou seja, perseguindo aquilo que entende como sendo um problema de falsificação histórica. Bloch
sabia  que  as  falsas  notícias  tinham  sempre  origem  em  representações  coletivas.  Nessa  obra  empenhou-se  em  demonstrar  o
brilho enganador dos reis
[512]
 e apresentou uma inovadora abordagem política. Em suas palavras,
se uma instituição destinada a fins particulares definidos por uma vontade individual está destinada a dominar toda uma nação, também deve ser incorporada
nas correntes mais profundas da consciência coletiva. O inverso talvez seja também verdadeiro: para que uma vaga crença se cristalize num rito regular, é de
alguma importância que vontades pessoais claramente expressas contribuam para que tome forma
[513]
.
Embora tivesse conhecimento do respeito sobre suas obras, Bloch tinha consciência de sua efemeridade:
Se um dia, em virtude de investigações mais profundas, meu esboço caducar inteiramente, estarei certo de que ao contrapor à verdade histórica as minhas
propostas equivocadas ainda assim eu terei ajudado a tomar consciência dessa verdade e me considerarei perfeitamente recompensado
[514]
.
Ele via a História como a ciência da mudança e, engrossando as fileiras do historicismo, defende que ela
sabe  e  ensina  que  dois  eventos  nunca  se  repetem  de  modo  absolutamente  igual,  pois  as  condições  nunca  coincidem  exatamente.  [...]  Em  suas  páginas  de
pesquisa,  as  linhas,  cujo  traçado  é  ditado  pelos  fatos  do  passado,  jamais  serão  retas;  ela  só  encontrará  linhas  curvas  e  também  serão  curvas  as  que,  por
extrapolação, ela tentará prolongar na incerteza do tempo
[515]
.
José  Carlos  Reis  localiza  em  Henri  Berr  a  maior  parte  das  conquistas  atribuídas  aos Annales:  a  invenção  da  história-
problema, a sua vocação interdisciplinar, a sua aproximação especial com a psicologia, a defesa de novos objetos e campos
de investigação, a exigência de uma história total
[516]
. Segundo Reis,
Berr  era  apenas  um  ingênuo  “embaixador  das  ciências  humanas”,  não  tinha  um  projeto  de  poder,  não  visava  a  centralização  institucional  das  ciências
humanas pela história, apenas promovia “controvérsias corteses”
[517]
.
Na verdade, o próprio Bloch revela essa dívida em carta de 11 de fevereiro de 1943, quando reconhece o quanto ele e os
historiadores de seu grupo deviam à profundidade do olhar de Berr
[518]
. A compreensão da centralidade de Henri Berr para
a  renovação  historiográfica  e  sua  importância  no  cenário  intelectual  europeu  sofreu  duro  golpe  com  o  desaparecimento  de
milhares de cartas que o diretor da Revue de Sinthèse preparava para editar
[519]
. As desavenças com Febvre também fizeram
com que os familiares de Berr destruíssem as missivas entre ambos, conforme revelou Braudel
[520]
.


Devo confessar, fazendo coro com Dosse, que “todo projeto científico é inseparável de um projeto de poder”
[521]
 e, nesse
sentido, os Annales se aproveitaram de um momento favorável,
quando  a  economia  está  bloqueada  nas  faculdades  de  Direito,  a  escola  durkheimiana  está  dispersa  e  sempre  dividida  entre  as  faculdades  de  Direito  e  de
Letras. Quanto à escola geográfica, ela parece ofegante: o lugar estava vago, os Annales o tomaram
[522]
.
Do ponto de vista político, era necessário disputar os espaços com os tributários do historicismo alemão, com a geração de
1870,  que  ainda  resistia  nas  estruturas  de  poder  detendo  cargos  e  honras,  com  a  emergência  de  grupos  ligados  a  outros
campos, sobretudo a Economia e a Sociologia. A leitura da obra de juventude de Bloch nos situa diante de um jovem estudante
profundamente  marcado  pela  historiografia  tradicional.  Em  seu  texto Metodologia  histórica,  de  1906,  ele  afirma  que  a
história não tem existência científica e que seu método é descritivo
[523]
. Contudo, já percebia a necessidade do historiador
interpretar os dados recolhidos. Em seu primeiro trabalho, L’Isle de France: les pays autour de Paris, de 1913, Bloch realiza
uma análise comparativa recorrendo a obras da França, Inglaterra e Alemanha sobre as transformações da economia rural de
Paris  e  seus  arredores  na  natureza  e  nas  formas  de  servidão,  evidenciando  sua  erudição  e  atenção  às  novas  abordagens  da
ciência social. Ali já despontava seu interesse pela Idade Média, algo que patentearia logo depois, em Rois et serfs, de 1925,
na  qual  faz  um  rigoroso  estudo  analítico  de  fontes  jurídicas,  políticas  e  fiscais,  servindo-se  do  método  regressivo  e
comparativo.
No começo de 1930 Bloch ofereceu-se para redigir um livro de metodologia para a Editora Gallimard
[524]
,  com  alguns
escritos sobre o método histórico que seria intitulado Historiadores em seu ofício
[525]
. Durante o ano de 1940 ele retomou
esse projeto, redigindo um trabalho inacabado, Apologia da história ou o ofício do historiador, publicado postumamente, em
1949,  por  Lucien  Febvre.  Apesar  das  imperfeições,  notadas  por  Duby  e  Le  Goff,  o  livro  tornou-se  uma  das  obras  mais
conhecidas de Bloch.


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