A constituição da História Como Ciência


Legado: renovação em que termos?



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Legado: renovação em que termos?
Poucos professores universitários franceses se sacrificaram pela pátria. Não foi à toa, portanto, que Bloch recebeu várias
homenagens de Febvre, de amigos e de seus compatriotas. Sozinho na revista, Febvre também ocupou cargos destacados que
auxiliaram  na  consolidação  do  grupo Annales:  dirigia  a  Sexta  Seção  da  Escola  de  Altos  Estudos,  a  revista Annales,  era
presidente  da  Comissão  Científica  do  CNRS,  vice-presidente  da  Fundação  Nacional  de  Ciências,  diretor  da Enciclopédia
Francesa,  e  também  da  Coleção  Destinos  do  Mundo
[499]
.  Quando  Braudel  assumiu  a  direção  da  revista,  empenhou-se  em
inserir  Bloch  e  Febvre  numa  aura  de  inovação  do  pensamento  historiográfico  francês,  como  expoentes  do  movimento  de
criação de uma nova história
[500]
. Quando deixou, em 1968, a direção da Maison des Sciences de l’Homme  e  da Annales,
uma  nova  geração  composta  por  Jacques  Le  Goff, André  Burguière  e  Emmanuel  Le  Roy  Ladurie  assumiu  o  periódico;  tais
historiadores  se  destacaram  no  cenário  historiográfico,  agora  mais  multifacetado. As  ambições  dos  fundadores  da  história
total, do recurso ao método comparativo, da abordagem social, em função da aproximação com novos campos do saber como
a linguística, a hermenêutica, a antropologia e as mentalidades, foram abandonadas pela nova geração
[501]
. A consolidação
da  revista  e  a  notabilização  de  Bloch  e  Febvre  coincidiu  com  o  momento  em  que  suas  abordagens  foram  decisivamente
preteridas  pelos  novos annalistes.  Embora  a  obra  de  Bloch  tenha  passado  por  muitas  revisões  críticas,  seu  lugar  de  herói
nacional e de modelo para os aspirantes a historiadores é inconteste.
Conhecer  o  conteúdo  da  correspondência  trocada  entre  Bloch  e  Febvre,  e  entre  estes  e  Pirenne  ou  Berr,  por  exemplo,
permite conhecer o clima intelectual que envolveu o surgimento da revista Annales. Nas cartas, embora a revista não seja o
principal motivo, ela é onipresente
[502]
. Aliás, a correspondência anterior a 1928 entre os fundadores do periódico, ou não
existe ou não foi preservada. Além de divulgar trabalhos em Annales, Bloch publicava também na Revue Historique  e  na Le
Moyen Âge, e Febvre era membro do comitê-diretor da Revue d’Histoire Moderne (1925)
[503]
. A respeito de seu contributo
teórico, Ernst Breisach assinala que, embora expressivos em seus temas e campos e
a  despeito  de  seu  inabalável  revisionismo,  Febvre  e  Bloch  não  foram  particularmente  ativos  no  campo  da  teoria  da  história.  [...]  No  fim  das  contas,  existe
algum ingrediente teórico na historiografia dos Annales, mas poucos livros de teoria
[504]
.
Tal constatação não é isolada
[505]
. François Dosse já duvidava da revolução historiográfica dos Annales desde os anos de
1980.  Para  ele  o  grupo  era  mais  original  pela  afirmação  de  um  programa  do  que  pelo  programa  metodológico  em  si
[506]
.
André  Burguière  acompanha  tal  leitura,  valorizando  mais  a  importância  política  do  grupo  do  que  sua  originalidade
epistemológica (1999). Ele enfatiza a análise daquilo que identifica como sendo um projeto político e um projeto de poder,


que  construiu  uma  imagem  de  grupo  marginal  e  polêmico,  além  de  antidogmático.  E  reconhece  o  quanto  essa  imagem  não
corresponde à realidade. Muito identificados ao seu tempo, Bloch e Febvre estavam enraizados no cenário historiográfico e
mantinham boas relações com a geração que ocupava os espaços mais prestigiosos.
De qualquer modo, forçoso é reconhecer que Marc Bloch contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da erudição nos
estudos históricos franceses, aproximando a história das ciências sociais e insistindo na escrita de histórias mais globais que
pudesse ainda ampliar o leque de possibilidades dos objetos históricos. Ele traz para o primeiro plano uma abordagem mais
sociológica, e que valorizava elementos psicossociais das representações coletivas. Para Bloch, a história é uma ciência da
mudança que elimina, por meio da pesquisa e da crítica documental, os caminhos obscuros da memória, com o fito de melhor
compreender as transformações e os processos de ruptura. Ao contrário de Febvre, Bloch era mais receptivo às teorizações,
ao  pensamento  abstrato,  e  via  com  bons  olhos  o  contato  mais  estreito  com  a  sociologia  de  Durkheim  e  de  Simiand
[507]
.
Emanuel Le Roy Ladurie vê em Marc Bloch um precursor do estruturalismo. Sua ligação com a sociologia é marcante, aliás,
Bloch  e  seus  colegas  historiadores  liam  com  entusiasmo  a Année Sociologique, revista criada por Émile Durkheim
[508]
.  O
conceito de representações e de consciência coletiva, tão usados por Bloch, vieram de seu mestre Durkheim.
Marc Bloch é, portanto, durkheimiano, em todo o processo de pensamento que o conduz, num mesmo movimento, em direção ao social e ao mental (que ele
chama antes de “fatos psicológicos”). Ainda aprecia, além da geografia, a psicologia, a linguística de seu amigo Meillet (ela também comparativa)
[509]
.
Para  Jacques  Le  Goff,  em Os  reis  taumaturgos   Bloch  fundou  a  antropologia  histórica
[510]
,  bem  como  fez  um  estudo
pioneiro  das  mentalidades  medievais  recorrendo  a  fontes  multidisciplinares  e  valendo-se  de  uma  abordagem  e  metodologia
únicas.  Em  seu  livro  há  uma  influência  considerável  de  Fustel  de  Coulanges,  quando  alia  erudição,  crítica  documental  e
imaginação.  Ali  se  dedicou  a  fazer  o  que  mais  gostava:  desconstruir  as  falsas  notícias,  afastando-se  do  positivismo  e
enveredando pelo universo mental dos grupos sociais. A história idealizada por Bloch deveria orientar-se pela integração de
uma história viva e de uma história problema
[511]
.
O uso do conceito de representações coletivas em Os reis taumaturgos  tornou esta obra, para muitos intérpretes, um livro
precursor da história das mentalidades. Mas o uso das ideias e da chamada consciência coletiva não era novo. Ele já tinha
aparecido em estudos de Maurice Halbwachs, Charles Blondel, Lucien Febvre e Georges Lefebvre, por exemplo, ou ainda em
momentos  da  obra  de  Jules  Michelet.  Interessa  o  fato  de  que  Bloch  analisa  o  problema  da  cura  das  escrófulas  por  meio  da
cerimônia  de  imposição  das  mãos  dos  reis  da  França  e  da  Inglaterra  seguindo  o  mesmo modus  operandi  do  livro  sobre As


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