A constituição da História Como Ciência



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página91/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
1   ...   87   88   89   90   91   92   93   94   ...   132
Cambridge Economic History.
Em 1935 é aberta uma nova cadeira, a de História do Trabalho, de François Simiand, e Bloch se apresenta com mais quatro
candidatos. A  psicologia  acabou  triunfando  sobre  a  sua  proposta  de  história  comparada  das  sociedades  europeias.  Febvre
confessou-lhe que o antissemitismo poderia ser o fator que vinha atrapalhando sua escolha
[485]
. A relação entre ambos vivia
momentos difíceis. Febvre havia, inclusive, se empenhado na candidatura de Émile Dolléans (1878-1954), algo que Bloch não
conseguiu  compreender.  Ele  protesta,  inclusive,  outras  vezes,  quando  vê  Febvre  publicar  resenhas  elogiosas  a  trabalhos  de
seus concorrentes
[486]
.
O  exaustivo  trabalho  de  seleção,  de  produção  de  resenhas  e  textos  para  os Annales  tomou  o  tempo  de  seus  diretores
principais,  que  voltaram  a  publicar  obras  fundamentais  anos  depois: A  sociedade  feudal  (1939-1940),  por  Bloch,  e O
problema da descrença no século XVI: A religião de Rabelais  (1942), por Febvre. A grande questão da revista  Annales era a
difícil captação de assinantes e a redução sensível das vendas. A disputa com a  Revue Historique era desigual: estes podiam
contar com os artigos dos melhores nomes existentes no cenário historiográfico francês
Com a morte de François Simiand, Bloch mais uma vez se anima a candidatar-se ao Collège, mas, com a vaga da cadeira de
Henri Hauser na Sorbonne, a única cátedra de História Econômica que existia, ele resolveu optar pelo caminho mais seguro.
Nesse ano, 1935, havia morrido Pirenne, que também vinha tendo atritos com Febvre. Isso motivou mudanças na revista, cujo
conselho-diretor  raramente  se  reunia.  Ficava  claro  que  Febvre  estava  a  construir  um  caminho  próprio  de  preeminência,
gerando turbulências com seus antigos colegas e parceiros. Eleito, Bloch seguiu para a Sorbonne em 1936, mesmo ano em que
foi criado o Centre Nacional de la Recherche Scientifique (CNRS). Na Sorbonne foi um professor admirado e popular. Seu
primeiro  curso  foi  sobre  “A  paisagem  rural  e  a  instituição  senhorial  na  França  e  na  Inglaterra,  das  origens  até  o  século
XIX”
[487]
. Criou, com Maurice Halbwachs, o Instituto de História Econômica e Social. Sua obra idealizada em 1931, sobre
o  feudalismo,  começou  finalmente  a  ganhar  corpo.  Depois  de  esboços  publicados  esparsamente,  ele  pôde  sintetizá-los  na
esperada A sociedade feudal,  com  o  primeiro  volume  publicado  em  1939,  e  o  segundo  em  1940,  na  prestigiada  coleção  de
Henri Berr. Nela transcendeu os esquematismos jurídicos ou os textos localizados, para realizar uma grande síntese sobre o
feudalismo europeu, inclusive tecendo comparações com outros lugares, como o Japão. De certo modo, sua abordagem de uma
história  global  remete  à História  da  Europa  redigida  por  Pirenne  na  prisão,  entre  1914  e  1918
[488]
.  Essa  obra  coroa  sua
longa e difícil colocação no universo historiográfico de então.
Contudo, A  sociedade  feudal  tem  suas  restrições.  Sua  Europa  era  o  mundo  carolíngio,  ignorava  praticamente  o  clero  e  a
burguesia,  e  sugeria  o  surgimento  do  nacionalismo  no  século  XIII.  Mas  a  crítica  mais  contundente  veio  do  próprio  amigo:
Febvre reputou o livro como muito esquemático, desprovido de pessoas concretas e com um enfoque estreito de civilização.
Antes mesmo da publicação do segundo volume, Bloch teve que regressar ao exército, juntando-se a milhares de reservistas
para  combater  a  ameaça  nazista.  Em  relação  à  revista,  Febvre  se  impôs,  mudou  seu  título,  substituiu  membros  do  corpo
editorial. Naquele momento, 1940, Bloch perguntou a Febvre o que achava de sua possível candidatura à direção da Escola
Normal Superior. O amigo respondeu que tinha uma personalidade muito inflexível e que, do ponto de vista profissional, tal
pleito poderia ser compreendido pelos rivais como ambição desmedida. Aponta, por fim, o antissemitismo como um obstáculo
ao  seu  pleito.  Em  1939  Bloch  deu  aulas  em  Bruxelas,  em  Cambridge  e  em  Estrasburgo.  Em  meados  de  agosto  viajou  a
Genebra. Aflito com o futuro dos filhos, que estavam perto de ingressar na faculdade, e com a sorte da família, que era judia,
ele  redigiu A estranha derrota. Obra em três partes, com uma abordagem típica de uma acusação judicial: o depoimento de
um  vencido,  o  exame  de  consciência  de  um  francês  e  uma  avaliação  militar  e  política  da  derrota.  Ali  narra  também  suas


experiências na guerra, redigidas “febrilmente de julho a setembro de 1940”
[489]
. E indicou o despreparo e a inatividade dos
franceses  para  o  conflito.  Havia  falta  de  equipamentos,  problemas  de  avaliação  e  liderança  das  operações,  dificuldades  de
comunicação com os aliados belgas e ingleses.
Em 1939 a revista Annales foi reduzida a quatro números e passou a ser publicada pelos próprios diretores, recebendo o
título  de Annales  d’Histoire  Sociale.  No  editorial  justificaram  a  mudança  do  título,  alteração  principalmente  devida  aos
direitos do antigo editor, Armand Colin. O pomo da discórdia havia sido o número especial sobre a Alemanha, de novembro
de 1937. A partir de então “surgiram desacordos graves acerca de determinados artigos e recensões, e verificaram-se debates
processuais  acerca  do  controle  e  tomada  de  decisões”
[490]
.  Bloch  reclamava  da  falta  de  reuniões  entre  os  editores  e  dos
atrasos  na  publicação.  A  grande  divergência,  contudo,  vinha  do  fato  de  que  Febvre  buscava  novos  talentos  e  desejava
constituir uma revista mais voltada para a história social, assumindo uma atitude mais combativa e política, passando a atacar
diretamente  o  poder  representado  pela  geração  de  historiadores  metódicos  em  Paris
[491]
.  Bloch  queria  uma  revista  mais
econômica,  pedia  mais  “seriedade  e  inteligência”  e  menos  panfletismo.  Com  a  intensificação  da  guerra  e  sua  chegada  ao
território  francês,  Bloch  decide  se  mobilizar  novamente  e  Febvre  ficou  sozinho  na  condução  da  revista Annales.  Naquele
momento a grande ameaça da revista não era somente a indiferença da Sorbonne, mas o afastamento de seus diretores. Detalhe
importante  a  considerar  é  que,  nos  seus  17  anos  de  permanência  em  Estrasburgo,  Bloch  só  concluiu  uma  orientação  de
mestrado,  realizada  pelo  americano  William  Mendel  Newman  (1902-1977),  cujo  diário  revela  uma  relação  turbulenta,
marcada por desentendimentos constantes e várias referências negativas às aulas e à personalidade de seu tutor
[492]
. Naquele
momento definiram-se algumas características que marcaram a imagem da revista Annales: predomínio dos artigos em história
econômica, praticamente nada sobre biografias, história eclesiástica, história política, história diplomática ou militar, ou de
história  das  ideias.  Poucos  artigos  também  sobre  história  social  ou  cultural.  A  revista  era  antimarxista,  valorizava  a
interdisciplinaridade,  rejeitava  o  historicismo  alemão  e  todas  as  formas  de  determinismo.  Segundo  Fink,  “com  recursos  e
ambições limitados não criou séquitos nem escolas, mas fez irradiar um espírito de abertura próprio”
[493]
. Mas isso já existia
na Revue de Synthèse, por exemplo.
Durante o início das operações de guerra, Bloch confessa: “A ideia dominante dos alemães na condução desta guerra era a
velocidade.  Nós,  pelo  contrário,  pensávamos  em  termos  de  ontem  e  de  anteontem  [...]  fomos  totalmente  incapazes  de
compreender o ritmo acelerado dos tempos”
[494]
. Se a defesa da França havia sido uma lástima, assim como os pífios contra-
ataques,  a  retirada  foi  exemplar,  embora  os  ingleses  tenham  embarcado  antes  das  tropas  francesas  que  abandonaram
Dunquerque por último, no dia 5 de junho de 1940. Em Rennes, Bloch adotou, em suas próprias palavras, uma “solução de
professor”, vestindo-se de civil, hospedando-se em um hotel e evitando ser capturado pelos alemães.
A  ocupação  alemã  pôs  fim  à  Terceira  República  e  criou,  virtualmente,  três  Franças:  uma  exilada  com  De  Gaulle  em
Londres, outra ocupada e administrada pelos alemães, e uma terceira, a zona livre, administrada a partir da cidade de Vichy,
que se tornou colaboracionista e autoritária. Sobre Bloch pesava o risco de ser judeu. Foi a Vichy obter licença para lecionar,
sendo  deslocado  para  Clemont-Ferrand,  onde  estava  parte  da  sua  antiga  Universidade  de  Estrasburgo,  evacuada. A  política
antissemita  adotou  leis  excluindo  os  judeus  do  serviço  público.  Para  lá  levou  toda  sua  família  e  começou  a  avaliar  as
possibilidades de exílio. Com dificuldades, obteve uma bolsa da Fundação Rockfeller para lecionar nos Estados Unidos, mas
não teria como levar toda a família (mãe, filha e filho de 17 anos não poderiam deixar a França), bem como teria dificuldades
para obter passaportes. Mas, graças ao reitor Jérome Carcopino (1881-1970), pôde se manter empregado, apesar de ser judeu,
bem como teve permissão para levar toda a família para os Estados Unidos. Foi duas vezes a Marselha para obter vistos e
preparar a viagem. Mas seus recursos não seriam suficientes. Aos 54 anos redigiu seu testamento no ano 1941. Pouco depois
sua  mãe  morreu  e  sua  esposa  adoeceu.  Passou  a  ler  e  a  lecionar  e  redigiu  o  esboço  para  projetos  futuros:  uma  história  da
França, outra sobre a moeda francesa, estudos sobre o Império Germânico, sobre os Estados Unidos, um romance policial e
uma obra sobre o ofício do historiador
[495]
.
Para que a revista Annales não fosse encerrada pelos nazistas, Bloch travou uma enorme discussão com seu amigo, pedindo
para que interrompesse a publicação. Mas Febvre insistiu em mantê-la e retirou o nome do colega da direção, que a partir daí
enviou  somente  quatro  colaborações,  sob  o  pseudônimo  de  Fougères.  Antes  disso,  Febvre  havia  sugerido  a  Bloch  que
desistisse da sociedade e lhe concedesse a direção exclusiva da revista. No meio de tantas crises Bloch conseguiu os vistos,
mas  não  viajou.  Continuou  redigindo  seu Apologia  da  história,  teve  que  ir  lecionar  em  Montpellier  e,  apreensivo  com  a
perseguição aos judeus, resolveu proteger sua família e também seus livros, que chegaram a ser confiscados, com o decreto de
liquidação  de  todos  os  bens  judeus  em  Paris.  No  verão  de  1942  sintetizou  suas  notas  e  apontamentos  no  livro Estranha


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   87   88   89   90   91   92   93   94   ...   132


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal