A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
A hermenêutica rankeana
É importante enfatizar que a existência de um sentido irredutível a regularidades das leis científicas não implica diretamente
uma atitude que, ao fim e ao cabo, leva ao quietismo. O processo histórico em Ranke, como afirma J.D. Braw em excelente
artigo
[25]
, não está baseado em uma teologia negativa. Mas Braw deita fora a criança junto com a água do banho, deixando de
analisar que o luteranismo de Ranke atravessa todo o conceito de subjetividade capaz de produzir o conhecimento histórico.
Ranke afirma
[26]
 que o ponto de vista do historiador deve ser divino (e, portanto, é sempre mais do que um mero “ponto”).
Este “ponto”, na falta de termo melhor, não está submetido ao tempo, e, assim, abarcaria toda a humanidade, único argumento
que daria uma igualdade das épocas perante Deus. O contato com Deus daria às épocas sua substancialidade própria, uma vez
que cada qual não poderia ser comparada com uma outra. Uma solução se apresenta: o contato com Deus garante aos entes
históricos  sua  autonomia.  Mas  o  que  é  esse  contato?  Aqui  nos  separamos  de  Sérgio  Buarque
[27]
,  pois  este  via  no
protestantismo de Ranke uma fórmula que poderia muito bem ser substituída por outra, se assim lhe conviesse. Vemos de outra
maneira: essa fórmula possui uma substância própria.
Seguindo  a  trilha  indicada,  acreditamos  que  a  noção  de  unicidade  da  verdade  pode  ser  pensada  desde  uma  concepção
luterana  de  interpretação.  A  respeito  de  tal  concepção,  Gerald  L.  Bruns  afirma  que,  dada  a  finitude  do  homem  perante  a
palavra  divina,  torna-se  claro  o  seguinte:  “O  que  é  realmente  importante  é  que  Lutero  insista  que  essa  situação  [da
interpretação – N.A.] não é de tipo alegórico; não é do tipo em que o leitor se apropria do texto, mas, pelo contrário, é do tipo
em que o leitor é exposto ao texto”
[28]
. Não é difícil concluir que resulta desse aspecto a apologia da literalidade do texto,
entendida  aqui  como  o  caráter  imediato  da  interpretação.  Novamente  citamos  Bruns:  “[...]  não  há  entendimento  à  distância.
Entendimento significa ter uma conexão interna com o que está sendo entendido”
[29]
.
Só  é  possível  um  contato  com  o  texto,  portanto,  quando  o  intérprete  vê  no  mesmo  uma  materialidade  que  seja  infensa  a
projeções  ou  transposições  de  sentido. A  erudição  no  trato  das  fontes,  aprendida  por  Ranke  com  os  filólogos  clássicos,  é
considerada por ele um instrumento essencial ao trabalho do historiador. De algum modo, com essa ênfase, nega-se um grau de
subjetividade, mas a subjetividade vetada, no caso, é aquela caracterizada pelo simples arbítrio, pela atribuição prévia de um
sentido ao texto. A interpretação luterana não dispensa o sujeito, apenas o coloca em uma posição na qual ele é perpassado
pelo mesmo. Tal situação se revela, portanto, menos como uma plena negação do indivíduo e mais como uma determinação da
situação interpretativa, ou por outra: não se deve ler um texto com preconceitos e significados previamente determinados, do
contrário toda e qualquer investigação torna-se ociosa, mera confirmação do “já sabido”. Indiscutivelmente, sente-se aqui o


veto às autoridades interpretativas das Sagradas Escrituras. Esse veto, na verdade, é uma libertação da história acumulada e
sedimentada.
Esta concepção luterana de interpretação, aqui apenas esboçada, pode ser adequada à obra de Ranke? Para Peter Gay, que
via em Ranke tanto um historiador como um teólogo, a resposta é afirmativa. Sem essa articulação não se compreende o peso
da importância das fontes para o trabalho historiográfico:
Foi  de  tal  perspectiva  –  a  autoridade  exclusiva  do  imediato  –  que  Ranke  se  arrojou,  desde  os  primórdios  de  sua  carreira,  a  uma  crítica  agressiva  àqueles,
dentre  seus  predecessores,  que  haviam  escrito  histórias  a  partir  de  outras  histórias,  creditando  a  cronistas  parciais  e  apaixonados  como  Giuccardini  o
distanciamento próprio de um historiador, e falsamente atribuído a seus textos o estatuto de um documento – na certa Ranke não teria tomado Tácito como
autoridade a ser seguida, mas como testemunha a ser interrogada
[30]
.
Podemos, então, observar que essa “autoridade exclusiva do imediato” não corresponde a uma eliminação e neutralização
do  investigador  e  escritor  de  história;  antes,  procura  delimitar  a  forma  de  posicionamento  deste  investigador-escritor  no
próprio  ato  interpretativo,  cuja  principal  característica  é  a  recusa  dos  comentários  autorizados. Ao  intérprete  cabe  somente
pegar o touro à unha, e é desta tauromaquia que fala Ranke, e não de um sujeito distante o suficiente da realidade para poder
descrevê-la fidedignamente. Certa vez, ele foi irônico ao dizer que não havia motivo para lastimar aqueles que passam a vida
em meio a papéis mortos, pois, entre suas linhas, há uma vida que se revela ao espírito
[31]
.
Apesar  da  evidente  crítica  de  Ranke  às  historiografias  que  tirariam  de  seus  temas  qualquer  valor  imanente,  não  poderia
passar  ao  extremo  oposto,  a  saber:  a  passividade  perante  os  documentos.  Esses  não  são  a  residência  fixa  da  verdade,  mas
antes “papéis mortos” cuja vida revela-se pouco a pouco. Seria precipitado concluir pelo inverso, a saber, o predomínio da
subjetividade em Ranke. Será mais fecundo encarar o problema: como se dá esta relação entre sujeito e texto em Ranke, uma
vez que o sujeito não é aquele autorizado pela tradição e o texto é, por sua vez, algo que haverá de se esvair das mãos do
intérprete,  como  quer  a  interpretação  de  matriz  luterana?  O  que  é,  finalmente,  esta  postura  luterana?  Pode-se  perceber  essa
postura em Ranke com relação às fontes em três momentos distintos.
Primeiramente, essa postura se manifesta quando se verifica que Ranke não titubeia em articular esferas da vida histórica
cujos nexos não são dados, naturais e evidentes. A própria estrutura de  A História da Alemanha na Era da Reforma é um bom
exemplo. Tal obra é apresentada em forma de mosaico: ora Ranke dedica várias páginas à política de Carlos V, já em outras
vezes  se  atém  aos  movimentos  camponeses,  aqui  fala  dos  cavaleiros,  acolá  do  próprio  Lutero,  mais  além  da  corrupção  da
Igreja Romana e da defesa de Viena contra os otomanos. Todos esses elementos apresentam-se coordenadamente e convergem
posteriormente na figura de Lutero, figura histórica cujos passos são teimosamente seguidos por Ranke. O significado histórico
do fundador do protestantismo destaca-se na narrativa rankeana na medida em que é inserido nas situações históricas que o
precederam e que o acompanharam, como, por exemplo, o caso das revoltas camponesas lideradas por Thomas Münzer. Como
falar  que  uma  fonte  é  evidente  por  si  mesma?  Como,  por  detrás  de  aparentes  crônicas,  Ranke  descortina  uma  complexa
paisagem histórica, só resta concordar: em meio aos papéis mortos, nasce o espírito.
Há  ainda  o  que  desenvolver  a  partir  do  que  acima  apenas  se  insinua.  Faz-se  necessário  chegar  ao  segundo  modo  como
Ranke lida com o material empírico. A leitura da obra de Ranke indica a presença de uma estrutura teleológica de explicação
histórica, ainda que não seja uma teleologia com telos previsível e determinado, com uma forma acabada. Uma pergunta torna-
se inevitável: É possível conciliar a autonomia das épocas e dos povos com uma estrutura teleológica de sentido? Vejamos um
exemplo  concreto:  a  ideia  rankeana  de  “nação  alemã”  como  objeto  histórico.  Para  Ranke,  a  “nação  alemã”  possui  uma
característica própria, uma “grande missão histórica”, a saber, a de salvaguardar o cristianismo, tarefa que não vinha sendo
cumprida  pela  Igreja  Católica.  Ora,  assim  sendo,  como  Ranke  entenderia  a  escolástica,  por  exemplo?  Como  um  fenômeno
histórico autêntico, ou como algo a ser avaliado a partir de um critério atemporal – a divulgação do Evangelho?
[32]
Abordamos agora o terceiro ponto: Qual o significado do testemunho de uma época para sua subsequente elucidação? Como
lidar  com  a  fonte?  Seria,  neste  caso,  interessante  compreender  o  sentido  da  individualidade  dos  agentes  históricos.  É
comumente aceito que Ranke fala de indivíduos fora de seu contexto. Embora não seja, de fato, um autor de história social, um
exame  mais  acurado  pode  ser  recompensador.  Não  entendemos  por  individualidade  somente  o  autor  de  uma  fonte,  mas,
sobretudo, um tema histórico (Lutero, os papas, os reis etc.), os ditos “grandes nomes”.
É notável como Ranke percebe o quão parciais podem ser as visões dos homens a respeito de sua própria época e povo,
sendo  então  homens  praticamente  incapazes  de  perceber  a  essência  do  fenômeno  histórico  que  presenciam.  As  posições
individuais  expressas  nas  fontes  eram  meras  opiniões,  visíveis  em  todo  o  espectro  de  posições  antagônicas  e  mesmo
neutras
[33]
. Leonard Krieger destacou esse aspecto  fundamental  ao  dizer  que,  para  Ranke,  tais  pontos  de  vista  “não  podem
prever os resultados gerais de suas próprias ações”
[34]
, sendo que mesmo a compreensão orgânica e articulada dos eventos
não é possível no espaço da mesma geração que os vivencia. A totalidade de sentido revela-se posteriormente.


Tudo  estaria  bem-resolvido  se  Ranke,  de  fato,  não  tivesse  olhos  para  as  “grandes  personalidades”.  Todavia,  essa
predileção  de  Ranke  não  prova  suficientemente  que  a  individualidade  seja  a  força  motriz  da  história.  Em  seu  livro  sobre  a
história dos papas, verifica-se que o indivíduo também pode estar sujeito às instituições vigentes, sendo, portanto, reflexo e
representação de algo que lhe é anterior. Concernente a essa ambiguidade do indivíduo como agente histórico, é gritante, por
exemplo, o contraste traçado por Ranke entre Inácio de Loyola e Paulo III em A história dos papas, uma obra escrita em três
volumes entre 1834 e 1836. Enquanto Loyola é retratado como um homem cuja forte disciplina pessoal o transforma em um
criador de uma nova força histórica (o jesuitismo), Paulo III, apesar de suas qualidades pessoais, é alguém cuja carismática
inteligência  não  ultrapassa  a  convenção  determinada  pelos  valores  e  preceitos  de  seu  tempo,  com  o  qual  manifestava  total
concordância. Portanto, para Ranke, o relato biográfico não possui um sentido unívoco, mas múltiplo. E essa multiplicidade se
mede  a  partir  da  capacidade  criadora  de  um  e  de  outro  indivíduo.  Pode-se  dizer  que,  para  Ranke,  Inácio  de  Loyola  é  um
sujeito  histórico,  pois  suas  ações  intencionais  ultrapassam  sua  vida  biológica:  “A  partir  dos  esforços  fantásticos  de  Inácio
desenvolveu-se uma notável orientação prática, e a partir de sua conversão uma instituição que contava com claros propósitos
globais”
[35]
. E, depois, complementa, demonstrando cabalmente que a prática historiográfica deve buscar algo além de uma
reconstrução  fiel  das  intenções  dos  agentes  históricos:  “Ele  (Inácio  de  Loyola)  viu  todas  as  suas  expectativas  serem
largamente ultrapassadas”
[36]
. O mesmo não se aplicaria a Paulo III. Este é descrito por Ranke como um homem que procura
adaptar-se  ao  seu  tempo,  reger  e  domar  seus  conflitos,  não  se  comprometer,  não  gerar  motivos  de  maiores  fricções  e
transformações:  “Tudo  indica  que  este  papa  (Paulo  III)  se  sentia  no  meio  de  milhares  de  tendências  divergentes  [...]  e  sua
intenção era a de considerar o poder de todas elas, minorar seus revezes e aproveitar suas virtudes”
[37]
.
Assim,  pode-se  dizer  que,  para  o  autor  da História  dos  papas,  o  sentido  da  individualidade  não  pode  ser  previamente
estabelecido.  Como  dizer  que  a  verdade  do  documento  estaria,  portanto,  somente  na  reconstituição  de  sua  autenticidade?  O
sentido  do  documento  depende,  portanto,  da  percepção  do  historiador  quanto  ao  valor  do  sujeito  histórico  retratado  no
documento. Com isso, procuramos apontar para um ponto fundamental: a verdade histórica não se apresenta explicitamente nas
fontes. Enfim: nem a teleologia subordina o homem como uma peça dentro de um mecanismo, tampouco o investigador registra
a ação dos indivíduos na história, considerando-os absolutamente livres e autônomos, seres independentes de seu contexto. As
fontes não são ilustrações de verdades atemporais e de uma filosofia mecânica da história, e muito menos podem ser lidas sem
um posicionamento claro do historiador quanto à temporalidade das mesmas. Vislumbra-se que, em Ranke, o historiador há de
se equilibrar entre uma dimensão e outra, demarcando a cada narrativa um território que equilibre a autonomia de cada agente,
época e povo com a sua fluência e repercussão históricas.
É hora de voltar à questão da matriz interpretativa luterana da obra de Ranke. Conforme visto acima, para o luteranismo o
texto é também uma realidade, na medida em que existe para além do desejo prévio e das projeções do pesquisador. Esse é
antes tomado pelo texto. E mais: no caso do texto historiográfico, haverá de ocorrer uma transposição. O seu leitor também
haverá  de  ser  tomado  pela  narrativa.  O  mesmo  ocorria  concretamente  com  o  estilo  de  Ranke,  cujo  objetivo  é  suscitar  a
participação  do  leitor,  sem  mediações,  biombos  e  autoridades  que  guiem  sua  experiência.  Pode  haver  algo  mais  luterano?
Sobre esse ponto, Felix Gilbert é esclarecedor:
Na medida do possível, Ranke evita sentenças sumárias e faz com que o narrador desapareça da história, de modo que o leitor fique já em confronto com
fatos e eventos. Ranke deseja que o leitor tenha uma experiência participativa com a história. O uso de técnicas literárias possibilita a Ranke a diminuição da
distância que separa o presente do passado, dando à história um padrão que se alterna entre descrição de situações e de ações, e, acima de tudo, fazendo
com que a obra cumpra com o primeiro requisito da obra literária: contar uma história repleta de tensão
[38]
.
Segundo Gilbert, a discreta participação do intérprete em relação à redação do texto histórico permite que o evento não se
restrinja  a  um  passado  encerrado,  a  papéis  mortos.  O  evento,  pelo  contrário,  ganha  vida  com  a  participação  do  leitor
encantado e tomado pelo gosto da narrativa. Assim, o papel morto ganha a vida do espírito, ultrapassando a época em que foi
produzido.  Nesse  sentido,  o  historiador  realiza  um  genuíno  papel  hermenêutico,  na  medida  em  que  está  aberto  para  a
alteridade do passado. Essa é sua universalidade, termo aqui empregado não no sentido de uma totalidade cumulativa de fatos,
mas  como  expansão  dos  próprios  horizontes,  como  capacidade  de  se  rever  a  partir  do  reconhecimento  da  existência  do
outro
[39]
.
Está  feito  o  convite:  pode  ser  enriquecedor  repensar  a  famosa  e  propalada  neutralidade  eunuca  de  Ranke,  sobretudo  em
cursos  de  graduação,  e,  pasme  o  leitor,  muitas  vezes  nos  cursos  de  pós-graduação.  Não  se  trata,  todavia,  de  adotá-lo  como
modelo  após  tanto  tempo  de  condenação  sumária  e  irrefletida;  o  que  se  pretende  é  não  perder  uma  oportunidade  de
reconsiderar o lugar da escrita e da pesquisa em história. No caso de Ranke, fica clara a posição necessariamente instável do
intérprete. O elemento necessário é, pois, o de estar aberto para uma obra, o que implica a recusa de modelos que explicam
previamente  a  realidade  histórica.  E  Ranke  demonstrava  perfeita  lucidez  no  que  dizia  respeito  a  essa  necessidade  de  estar
aberto. O prefácio à História da Inglaterra a confirma. Nele Ranke afirma pretender “como que se apagar nos seus escritos,


para só poderem falar aquelas poderosas forças que, ao longo dos séculos, ora se unem, ora se misturam [...]”
[40]
.
Não  é  o  caso  de  ver  em  Ranke  um  defensor  da  “história-problema”,  mas  este  desejo  de  “apagar-se”,  por  sua  vez,  não  é
sinônimo de neutralidade. Tem toda razão Rudolf Vierhaus, um dos maiores estudiosos da obra de Ranke. Para Vierhaus “não
é  a  imparcialidade  que  caracteriza  a  sua  obra,  mas  sim  o  receio  em  tomar  partido”
[41]
.  Isso  seria  uma  demonstração  de
fraqueza  moral  e  política  por  parte  de  Ranke,  ou,  como  diz  ainda  Vierhaus
[42]
,  uma  demonstração  da  necessária  cautela
científica, fundamental para a construção de qualquer objeto do conhecimento? Uma leitura atenta da obra de Ranke deverá ser
capaz de mostrar o quão plausível e fecunda é a segunda hipótese.

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