A constituição da História Como Ciência



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página89/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
1   ...   85   86   87   88   89   90   91   92   ...   132
Synthèse Historique (1900), já era um ardoroso defensor da interdisciplinaridade e fundador de um fecundo debate sobre os
usos da metodologia e a importância da história para os estudos sociais
[468]
. Berr também nutria grande interesse e combatia
com vigor o pensamento alemão. Não por acaso, devotou duas obras para analisar a história e o pensamento germânicos
[469]
.
Nas páginas de sua revista publicou inúmeros artigos sobre historiadores e teóricos alemães como Karl Lamprecht, Friedrich
Meinecke (1862-1954) e Heinrich Rickert (1863-1936), dentre outros. Tinha boas relações com Lamprecht que, como ele, era
um crítico do ambiente intelectual germânico em seu tempo. Em 1923 Berr criou o Centro Internacional de Síntese, mas, ao
contrário de Febvre e Bloch, jamais quis criar uma escola ou disciplinar seguidores à moda de Durkheim
[470]
.
É  nesse  ambiente  que  se  amalgama  o  pensamento  e  a  consciência  histórica  de  Marc  Bloch.  Testemunha  desse  debate,  e
imerso  naquela  atmosfera  de  inovação,  inicialmente  ele  se  preocupa  com  a  cientificidade  e  a  objetividade  da  história,  que
poderiam  ser  alcançadas  por  meio  da  crítica  documental,  acompanhando  seus  mestres  Monod,  Langlois  e  Seignobos.  Mas,


embora se servisse da sociologia positivista, percebia que certos fenômenos históricos eram mais complexos e escapavam a
generalizações mais rígidas. Nesse sentido, alertava para uma dimensão psicossocial – que ligavam o objeto investigado e o
historiador  –  que  poderia  receber  infinitas  interpretações.  Precisamente  aqui  expunha  sua  cicatriz  formadora  de  origem:  a
estadia na Alemanha, entre 1908 e 1909, que o fizera aproximar-se da história econômica, dos estudos medievais e do método
compreensivo.  Aluno  em  Berlim  e  depois  em  Leipzig,  Bloch  assistiu  às  aulas  de  Max  Sering  (1857-1939),  que  estudava
sistemas fundiários e de preços na Alemanha; Rudolf Kötzschke (1867-1949), especialista em história econômica medieval,
discípulo de Lamprecht e professor em Leipzig; Adolf von Harnack (1851-1930), teólogo e historiador do cristianismo e da
Igreja  medieval;  Rudolf  Eberstadt  (1856-1922),  com  pesquisas  sobre  o  desenvolvimento  fundiário  e  habitacional  urbano;  e
Karl  Bücher  (1847-1930),  importante  historiador  econômico  e  estudioso  da  imprensa.  Foi  na  Alemanha  que  conheceu  os
louros  obtidos  com  a Monumenta  Germaniae  Historica,  que  acompanhou  o  debate  em  torno  da  Escola  de  Lamprecht,  os
desenvolvimentos dos estudos econômicos com a Escola de Schmoller e a inovação sociológica com a obra de Max Weber
(1864-1920)
[471]
. Ali conheceu a maturidade de uma história científica, autônoma e triunfante, cujos expoentes encontravam-
se articulados em diferentes centros de ensino ligados a importantes universidades e projetos editoriais, que passavam por um
processo de grande renovação.
Em 1919 Marc Bloch foi convidado a lecionar na reinaugurada Universidade de Estrasburgo como professor-assistente de
História  Medieval
[472]
.  Sua  escolha  havia  sido  motivada  por  seu  novo  reitor,  Christian  Pfister.  Criada  em  1538  pelos
protestantes,  ela  acabava  de  ser  novamente  aberta  pelos  franceses,  depois  do  controle  alemão  de  quase  meio  século,  entre
1871 e 1918. Sua biblioteca era o maior acervo acadêmico do mundo, e seria superada por Harvard somente em 1920. Isso dá
a dimensão dos esforços germânicos que, inclusive, tinham-na batizado de Kaiser Wilhelms-Universität Strassburg, para que
fosse um importante centro difusor do pensamento alemão encravado em território anteriormente francês e bem no coração da
Europa.  Todos  os  professores  alemães  foram  demitidos.  Por  lá  haviam  passado  nomes  como  Wilhelm  Windelband  (1848-
1915), entre 1882 e 1912, e Georg Simmel (1858-1918), em 1914. Entre os alunos, mais de 800, muitos não falavam francês,
de  modo  que,  além  de  História  Medieval,  Bloch  ensinou  também  Francês  elementar.  Entre  os  livros,  Bloch  percebeu  a
inexistência de obras de história francesa, bem como nenhum livro de Fustel de Coulanges
[473]
. Em julho de 1919 regressou a
Paris para se casar com Simonne Vidal. Tiveram seis filhos, Alice (1920), Etienne (1921), Louis (1923), Daniel (1926), Jean-
Paul (1929) e Suzanne (1930).
Em  Estrasburgo  Bloch  substituiu  o  antigo  coordenador  do  Seminário  alemão  e  passou  a  dirigir  o  Instituto  de  História  da
Idade  Média.  Lá  encontrou  o  livro  de  Johann  Joachim  Zentgraf  (1643-1707)  sobre  os  ritos  curativos  dos  reis  franceses,  o
Tractatus de foederibus sive pactis, quae cum humano genere Deus iniit et de Testamentis divinis , de 1706. A universidade
criou também um convênio com o Centro de Estudos Germânicos na Universidade de Mainz, onde havia soldados e cidadãos
franceses, e Bloch deu várias aulas e foi examinador convidado para bancas de conclusão de curso. Em Estrasburgo reinava
um clima interdisciplinar e de síntese, no qual todos os professores da faculdade se encontravam aos sábados para apresentar
suas  pesquisas  e  trabalhos,  discutindo  ainda  temas  relacionados  com  literatura,  metodologia  e  teoria.  Participaram  como
convidados desses encontros Gustave Bloch e Henri Pirenne. Eram frequentadores assíduos os estrasburguenses: Febvre, que
havia deixado uma cadeira na Universidade de Dijon, Bloch e o amigo Maurice Halbwachs (1877-1945), dentre outros.
Devido a uma dispensa especial do governo para aqueles que tinham lutado na guerra, Bloch defendeu um trabalho sintético
para  obter  o  doutorado,  cuja  banca  de  seis  membros  foi  presidida  por  Charles  Seignobos,  obtendo  a  nota  máxima, très
honorable. Ele havia entregue o que chamou de uma segunda edição de um trabalho de 1912 já publicado: Les formes de la
rupture de l’hommage dans l’ancien droit féodal, com a inclusão do indicativo de novas fontes e uma discussão abreviada da
metodologia  empregada.  Sua  tese  principal  foi  publicada  em  seguida Rois et serfs,  no  qual  estudou  duas  cartas  de  alforria,
uma  de  Luís  X,  de  1315,  e  outra  de  Filipe  V,  de  1318,  em  torno  das  quais  tinham  sido  produzidas  várias  falsificações
históricas.
O  estilo  e  o  método  de  Bloch  manifestaram-se  em Rois et serfs.  Não  havia  narrativa.  Em  vez  disso,  como  um  investigador  judicial,  Bloch  procedia  a  um
exame dos documentos, propondo rigorosas questões (que invariavelmente conduziam a outras) e inserindo ocasionalmente um comentário sucinto a respeito
da própria prova
[474]
.
Suas virtudes incluíam o recurso a aspectos jurídicos, sociais, políticos, econômicos e psicológicos, a fim de construir uma
imagem mais próxima do passado. Destacavam-se suas preocupações socioeconômicas e o apelo à compreensão (Verstehen)
à  moda  dos  alemães.  Apreciador  da  erudição  e  da  crítica,  era  um  professor  severo,  frio,  elegante,  irônico,  cáustico  e
corrosivo, nos dizeres de alguns ex-alunos
[475]
. Não seria ocioso dizer, ainda, que Bloch havia lido Marx e apreciava a obra
e  a  atuação  política  de  Jean  Jaurès  (1859-1914).  Valorizava  a  síntese,  a  objetividade  e  a  abertura  às  novas  ideias.
“Extremamente  orgulhoso  de  seu  cosmopolitismo,  Bloch  tinha  horror  pelas  compartimentalizações”
[476]
  e  encorajava  seus
alunos  a  aprenderem  alemão,  cuja  historiografia  admirava,  embora  criticasse  o  germe  do  nacionalismo  excessivo  que  se


ocultava sob a superfície científica de muitos trabalhos. Apesar de alsaciano, Bloch nunca estudou assuntos locais. Enquanto o
grupo do reitor Pfister, intitulado jacobino, era mais atuante, Bloch manteve-se ao lado dos non-engagés, afinal, diz:
Nós saímos da última guerra desesperadamente cansados e, após quatro anos não só de combates, mas de preguiça mental, estávamos mais que ansiosos por
voltar aos nossos empregos habituais e por pegar nas ferramentas que estavam enferrujando nas nossas bancadas
[477]
.
De  qualquer  modo,  apesar  do  interesse  crescente  dos  leitores  pela  vida  cotidiana,  sobre  as  condições  de  vida  nas
sociedades  humanas  do  passado  e  do  flagelo  da  guerra  que  deslocou  o  interesse  para  a  história  dos  grupos,  sociedades  e
indivíduos, a história política e nacional não desapareceram.


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   85   86   87   88   89   90   91   92   ...   132


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal