A constituição da História Como Ciência


Cicatrizes formadoras: a originalidade e seus dilemas



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Cicatrizes formadoras: a originalidade e seus dilemas
A  atmosfera  em  que  Bloch  estudou  era  favoravelmente  reformista,  marcada  pelo  clima  de  revanchismo  devido  à  derrota
para os alemães na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), que fez emergir um forte sentimento nacionalista francês. De todo
modo,  as  relações  francesas  e  alemãs  na  dimensão  do  pensamento  continuavam  marcadas  por  um  diálogo  constante  e  uma
intensa atração
[454]
. Peter Schöttler, historiador do CNRS, alude à existência recalcada de uma clara inspiração alemã
[455]
e  analisa  o  modo  como  nos  seus  períodos  formativos  Bloch  e  Febvre  dialogaram  diretamente  com  as  ciências  históricas
alemãs. Febvre chega ao ponto de afirmar que era preciso “desaprender dos alemães”, e visitou aquele país em 1918
[456]
.
No caso dos estudos históricos, havia uma disseminação do modelo de seminário nas universidades, com a adoção de um
enfoque  científico,  inspirado  na  escola  rankeana.  Esse  modelo  foi  adotado  após  um  processo  de  reforma  capitaneada,
sobretudo, por Ernest Lavisse (1842-1922) e Gabriel Monod (1844-1912). Curiosamente, ambos vivenciaram temporadas de
estudos  na  Alemanha;  o  primeiro  em  Berlim  no  ano  de  1875  –  o  que  marcou  sua  produção  acadêmica  com  cinco  obras
dedicadas à história daquele país – e o segundo, após ter sido aluno de Michelet (1798-1874) seguiu para o país vizinho, onde
foi aluno de Georg Waitz (1813-1886) – um dos pupilos de Leopold von Ranke (1795-1886) – em Göttingen em 1866 e, em
seguida, estudou com o próprio Ranke na Universidade de Berlim no ano de 1867. Tais referências demonstram a mudança da
orientação  dos  estudos  históricos,  de  uma  esfera  mais  literária  e  romântica,  para  outra  mais  cientificamente  orientada,  nos
moldes preconizados por Ernest Renan (1823-1892)
[457]
 e por Fustel de Coulanges (1830-1889)
[458]
. É com esse espírito –
ao mesmo tempo influenciado pelo pensamento alemão, mas sob acentuada afirmação nacionalista – que foi oferecido, entre
1896  e  1897,  na  Sorbonne,  o  famoso  Curso  de  Historiografia  de  Charles  Seignobos  (que  entre  1876  e  1877  fez  cursos  em
Göttingen,  Berlim,  Munique  e  Leipzig)  e  Charles-Victor  Langlois.  Em  tal  curso  firmaram-se  princípios  e  técnicas  mais
rigorosos de pesquisa e de crítica documental históricas que ficariam celebrizadas em seu famoso manual
[459]
 cujo modelo
foi  o Lehrbuch  der  historischen  Methode,  publicado  em  1889  por  Ernst  Bernheim  (1850-1942).  Vale  dizer  que  Bloch  foi
aluno de Langlois e Seignobos, assim como de Gabriel Monod. Para Michel de Certeau, aquele período marca um momento de
repolitização da ciência, que não seria um retorno da ideologia à pesquisa, mas de atitude crítica da presença de ideologias no


universo científico
[460]
. Na análise de André Burguière, a geração de 1870 tinha fascínio pelo pensamento social alemão, ao
mesmo tempo em que deplorava, paradoxalmente, seu nacionalismo. Burguière salienta ainda a influência pessoal e intelectual
exercida por Henri Berr sobre aquela geração
[461]
.
A  ênfase  sobre  a  história  política,  muito  disseminada  pelos  alemães,  começava  a  ser  combatida  até  mesmo  por  Gabriel
Monod,  que  em  um  artigo  publicado  na Revue  Historique  defendia  uma  história  que  se  ocupasse  mais  do  lento
desenvolvimento  das  instituições  e  das  condições  econômicas  e  sociais
[462]
. Ao  lado  dele  também  estavam  Henri  Hauser
(1866-1946), que introduziu o estudo da história econômica na Sorbonne; e Ferdinand Lot (1866-1952), um dos criadores de
La  Revue  d’Histoire  des  Doctrines  Economiques  et  Sociales  (1908),  que  depois  de  1914  passou  a  intitular-se La  Revue


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