A constituição da História Como Ciência



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vassi e vassali nas capitulares de Carlos Magno. No segundo ano passou à orientação de Christian Pfister, um dos diretores da
Revue Historique, ao lado de Monod, quando obteve seu diploma de estudos superiores com uma pesquisa “sobre a história
econômica e social da região sul de Paris”
[440]
.
Naqueles seus anos de formação os dois jovens foram influenciados por uma série de correntes intelectuais e científicas, algumas contraditórias, outras às
quais  se  sentiam  ligados  de  modo  diferente,  mas  que  marcaram  seus  trabalhos  e  suas  orientações  nos Annales.  Resumidas  a  número  de  três:  a  escola
geográfica de Vidal de La Blache, o movimento criado em torno da Revue de Synthèse por Henri Berr, enfim a sociologia durkheimiana
[441]
.
A  essas  eu  acrescentaria  a  influência  dos  historiadores  metódicos.  Em  1905  a  maioria  dos  normalistas  era  protestante,
situação que foi mudando bastante a partir de então com o ingresso de judeus e católicos
[442]
. No Collège de France ocorria
o  inverso:  a  maioria  dos  docentes  era  católica.  Tal  situação  teria  peso  enorme  no  seu  destino  acadêmico  futuro.  Em  1908
Bloch  ganhou  uma  bolsa  da  Fundação  Thiers  e  foi  passar  uma  temporada  de  estudos  na Alemanha.  Foi  lá  que  começou  sua
pesquisa de conclusão de curso, concluída sob a orientação de Christian Pfister, tratando do desaparecimento da servidão nos
arredores  de  Paris  entre  os  séculos  XII  e  XIII.  Bloch  fez  um  exaustivo  estudo  dos  registros  eclesiásticos  disponíveis,
realizando uma análise detalhada dos aspectos socioeconômicos da manumissão. Ou seja, dedicou-se a estudar transformações
da  economia  rural,  sobretudo  nas  relações  senhor-camponês,  tema  que  era  bastante  estudado  na  Alemanha,  mas  pouco  na
França.  Pfister  era  amigo  próximo  de  Langlois  e  ambos  tinham  relações  estreitas  com  Bloch.  As  inspirações  para  a  tese
vieram  dos  estudos  de  Karl  Bücher  (1847-1930),  amigo  de  Jacob  Burckhardt  (1818-1897)  e  professor  em  Leipzig,  um  dos
difusores  da  estatística  e  da  história  econômica  na  Alemanha  e,  também,  do  sociólogo  Émile  Durkheim  (1858-1917).  O
primeiro, em sua obra, Die Entstehung der Volkwirtschaft  (A ascensão da economia nacional) trouxe um novo olhar sobre a
análise  da  economia  pré-capitalista.  O  segundo  generalizou  o  recurso  aos  estudos  comparativos  e  dirigiu  a  revista  de
sociologia  que  era  lida  sistematicamente  por  historiadores:  a Année  Sociologique.  Ali  se  aproximou  de  temas  que  o
acompanhariam por toda a vida:
as formas e práticas de justiça feudal; o fim da antiga escravatura; as primeiras origens do feudalismo; o desenvolvimento dos dízimos; as características da
nobreza; o papel do clero na sociedade e na economia; o desenvolvimento do comércio, da moeda e do crédito; a história da sociedade urbana de Roma à
Idade Média; e os aspectos sociais e políticos da arte, literatura e arquitetura medievais
[443]
.
Esse  primeiro  trabalho  foi  publicado  na Revue  de  Synthèse  Historique  de  Henri  Berr,  em  partes,  de  1903  a  1913,  na
coleção intitulada Les régions de la France. Ao findar a bolsa da Fundação Thiers, em 1912, obteve seu primeiro emprego no
Liceu  de  Montpellier.  Naquele  momento  começou  a  interessar-se  pela  formação  do  povo  e  da  monarquia  francesa.  Outra
leitura  alemã  teria  lhe  motivado  alguma  inspiração  para  essa  pesquisa: Die  rechtlichen  Grundgedanken  der  franzöischen
Königskröning  mit  besonderer  Rücksicht  auf  die  deutschen  Verhältnisse   (O  conceito  jurídico  de  Reino  da  França  com
especial referência às particularidades alemãs), de Hans Schreuer (1866-1931), publicada em 1911
[444]
, trabalho em que os
ritos de coroação franceses e alemães eram investigados à luz do desenvolvimento do poder real. Bloch leu e discutiu essa
obra  em  Montpellier,  cujos  apontamentos  ficaram  guardados  em  uma  pasta  intitulada  “Notas  sobre  os  reinados
sagrados”
[445]
.  Dela  surgiu  o  interesse  de  redigir Os  reis  taumaturgos ,  de  1924,  onde  apontou  suas  divergências  com
Schreuer  em  relação  ao  surgimento  e  às  características  da  monarquia  francesa,  e  introduziu  uma  abordagem  inovadora,  nos
estudos históricos então vigentes, a respeito das representações coletivas, conceito extraído da sociologia durkheimiana. No
começo  do  ano  seguinte  lecionou  também  em  Amiens
[446]
,  onde  deu  a  aula  sobre  o  texto  que  circulou  entre  os  alunos,
“Crítica histórica e crítica de testemunho”, um breve ensaio de metodologia da história, que realiza a tentativa de estabelecer
a  diferença  entre  o  falso,  o  provável  e  o  verdadeiro,  assunto,  diga-se  de  passagem,  que  remete  à  questão  da  crítica  do
perspectivismo 
realizada 
séculos 
antes 
por 
Johann 
Martin 
Chladenius 
(1710-1759) 
em 
seu Algemeine
Geschichtswissenchaften, de 1752, o qual havia dedicado vários capítulos à discussão do conceito de Sehepunkt (ponto de
vista). Deve-se ainda registrar que o debate sobre os testemunhos havia conhecido enormes avanços na França, em particular
na  Escola  de  Chartres,  desde  a  publicação  da  obra  de  Jean  Mabilon  (1632-1707), De  res  diplomática,  em  1681,  como
reconhece o próprio Bloch
[447]
.
Em  1914  Bloch  resenhou  o  livro  daquele  que,  no  futuro,  viria  a  ser  seu  grande  amigo  e  parceiro,  Lucien  Febvre,  que
versava  sobre  sua  terra  natal,  a Histoire  de  Franche-Comté.  Criticou  seu  estilo  e  linguagens  exuberantes,  sua  abordagem


superficial durante o medievo e a desconsideração da identidade social na região
[448]
. O troco de Febvre viria no futuro, em
sua ácida resenha sobre A sociedade feudal.
A  atmosfera  acadêmica  francesa  passava  por  um  rico  momento  de  transformação,  com  a  emergência  de  novos  campos  e
abordagens.  Com  destaque  tanto  para  a  sociologia,  para  a  filosofia,  quanto  para  a  geografia,  que  passaram  a  desenvolver
inovadoras propostas que se firmaram no ambiente intelectual. Comte (1798-1857), Durkheim, François Simiand (1873-1935)
e Marcel Mauss (1872-1950) se destacaram nos estudos sociológicos que tiveram forte impacto sobre toda uma geração de
historiadores.  Bloch  e  Febvre,  igualmente,  tiveram  como  leitura  obrigatória  o  livro  de  economia  política  de  Simiand
[449]
.
Esse  grupo  conseguiu  desvencilhar-se  da  forte  hegemonia  teutônica  exercida  sobre  o  campo.  Estrasburgo  sintetizava  esse
espírito  de  renovação  do  pensamento  francês  e  da  influência  científica  exercida  pelos  alemães.  Naquele  momento,  Simiand
desferiu  um  ataque  mortal  à  historiografia  tradicional,  condenando  os  chamados  ídolos  dos  historiadores  (cronológico,
individual e político)
[450]
. O debate acalorou-se e contou, inclusive, com intervenções de Gustave Bloch, que condenou tanto
a contingência na história quanto a existência de uma objetividade absoluta. Para Carole Fink, “Bloch assumiu uma posição
intermédia entre Seignobos e Durkheim, objectando contra a ‘falsa’ distinção entre o indivíduo e a sociedade, visto esta ser,
simplesmente, um grupo de ‘indivíduos’”
[451]
. Ele valorizava o estilo de Coulanges, cuja fotografia ficava sobre a mesa do
gabinete  de  estudos  do  pai.  De  outro,  Vidal  de  La  Blache  (1845-1918),  cofundador  da  revista Annales  de  Géographie,
rejeitava  o  determinismo  geográfico  alemão.  Por  fim,  no  campo  da  Filosofia,  o  pensamento  do  amigo  de  seu  pai,  Henri
Bergson,  inaugurou  um  forte  debate  com  o  positivismo  filosófico,  propondo  categorias  de  duração,  movimento,
simultaneidade, percepção e memória que teve influência em vários estudiosos e discípulos
[452]
.
Com  o  início  da  Primeira  Guerra  Mundial,  Bloch  deixou  Paris  a  4  de  agosto,  sendo  destacado  como  sargento  no  272º
Regimento, 18ª Companhia, 4º Pelotão. Embora tenha passado a maior parte do tempo longe do front, viveu alguns momentos
de grande risco em Montmédy, em Larzincourt no Marne, nas trincheiras de Gurerie, estando adoentado várias vezes, tendo
contraído disenteria e depois tifo, quando hospitalizou-se por mais de cinco meses, em 1915. Deslocou-se para Argonne, onde
permaneceu  até  1916. A  14  de  dezembro  seu  destacamento  foi  transferido  para  a Argélia,  quando  percorreu  Philippeville,
Biskra, Constantine e Argel, tendo regressado à França somente em março de 1917
[453]
. Em 24 de novembro retornou para
sua terra natal, na Alsácia, agora libertada em meio a calorosa e patriótica recepção, indo depois para Paris encontrar-se com
sua família.


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