A constituição da História Como Ciência



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Marc Bloch (1886-1944)
Julio Bentivoglio
Na base do nosso empreendimento está uma espécie de pequena revolução intelectual.
Marc Bloch (Carta a Lucien Febvre, 20/07/1929).
Não é tarefa fácil escrever sobre aquele que é considerado um dos mais importantes historiadores do século XX, objeto de
inúmeros  estudos,  textos  biográficos  e  cuja  fortuna  crítica  é  altamente  lisonjeira
[421]
.  Com  efeito,  pode-se  dizer  que  Marc
Bloch sintetiza aquilo que caracteriza não somente um excelente historiador, mas, sobretudo, um grande intelectual: sua obra
realiza o esforço de reunir todas as possibilidades criativas, técnicas, de erudição e de crítica documental disponíveis em seu
tempo,  produzindo  livros  referenciais  que  se  tornaram  modelo  para  seus  contemporâneos  e  herdeiros;  sua  vida  expressou  o
vivo  engajamento  político  e  profissional,  tanto  na  defesa  da  causa  nacional  francesa  –  seja  nos fronts  de  batalha  das  duas
grandes  guerras,  seja  combatendo  na  Resistência  à  ocupação  nazista  –  quanto  na  luta  por  um  novo  modelo  da  história  e  a
criação  de  uma  revista,  cujo  programa  se  transformou  em  um  dos  paradigmas  historiográficos  mais  influentes  no  cenário
contemporâneo, os Annales. O nome de Marc Bloch está ainda diretamente relacionado a um ponto de inflexão da consciência
histórica e da historiografia contemporâneas, constituindo um índice a distinguir uma dada escrita da história que lhe antecede
e aquela da qual se tornaria um dos principais expoentes e inspiradores
[422]
.
O  enorme  conjunto  de  bons  textos  produzidos  sobre  esse  que  foi  um  dos  fundadores  dos Annales  exige  um  exaustivo  e
minucioso trabalho de crítica das sucessivas e densas camadas interpretativas que constituíram uma verdadeira mitologia em
torno  de  Marc  Bloch  e  de  sua  obra  para  se  equalizar  melhor  sua  dimensão  no  horizonte  historiográfico  de  seu  tempo  e  a
dimensão  de  sua  herança.  Esse  é  o  desafio  que  procura  realizar  este  estudo,  cujas  pretensões  são  modestas:  revelar  aos
leitores que desejam conhecer melhor o autor de obras seminais como A sociedade feudal, Os reis taumaturgos   e Apologia
da  história,  uma  fisionomia  dotada  de  maior  complexidade,  que  procura  compreendê-lo  dinâmica  e  criticamente.  Pode-se,
com efeito, afirmar que a hagiografia construída em torno do personagem – que evidentemente é notável tal como a de Walter
Benjamin (1892-1940), por exemplo – acabou, em alguns casos, produzindo uma análise amplificada de sua obra e de efeitos,
cujos méritos e realizações são, em certos aspectos, superestimados, querendo enxergar nele virtudes fundadoras ou inovações
excessivas, quando um exame mais apurado revela a pertença a uma atmosfera de inovação historiográfica preexistente, que
Bloch  absorve,  sintetiza  e  dissemina.  Isso  não  significa,  evidentemente,  que  este  estudo  ignore  os  méritos  ou  realizações
alcançados por Bloch; ao contrário, pretende apenas oferecer um contraponto aos que desejam se aproximar do pensamento
daquele que foi um dos principais historiadores franceses de todos os tempos.
As  apresentações  de  Marc  Bloch  costumam  reproduzir  uma  avaliação  semelhante:  ele  não  foi  somente  autor  de  obras
decisivas  sobre  a  história  medieval  ou  de  importantes  reflexões  sobre  o  método  e  o  ensino  de  história;  ao  lado  de  Lucien
Febvre  (1878-1956),  ele  teria  revolucionado  a  historiografia  recente,  por  meio  da  criação  da  Escola  dos Annales,  cuja
herança pode ser sentida ainda hoje na historiografia francesa e mundial
[423]
. Bloch e Febvre abriram uma nova seara nos
estudos históricos rumo a uma história mais social, global e interdisciplinar, introduzindo uma nova compreensão do tempo e
da temporalidade histórica, aperfeiçoando métodos e abordagens e constituindo uma nova matriz disciplinar historiográfica,
ao lado do marxismo e do historicismo. Ambos foram responsáveis pela criação da revista histórica mais influente do século
passado: os Annales
[424]
.
Essa  imagem  duradoura,  repetida  por  diferentes  intérpretes,  confirma,  de  fato,  o  lugar  destacado  da  Escola  dos Annales,
constituída  em  torno  da  revista  homônima  e  dirigida  pelos  dois  historiadores  franceses  que  teriam  se  insurgido  contra  um
determinado  modelo  de  pesquisa  e  escrita  da  história  atribuída  aos  historiadores  metódicos  aglutinados  em  torno  de
professores  da  Sorbonne,  como  Gabriel  Monod  (1844-1912),  Charles-Victor  Langlois  (1863-1929)  e  Charles  Seignobos
(1854-1942). Ela traduz o impacto e o mérito que Bloch e Febvre tiveram na consolidação de novos objetos e abordagens,
introduzindo novas formas de se pensar e escrever a história. Oblitera, contudo, intensas disputas e apropriações praticadas
pelos  pais  fundadores  em  relação  a  seus  contemporâneos,  bem  como  as  fissuras  existentes  entre  os  dois  na  condução  da
revista,  entre  1929  e  1944.  E  não  considera,  por  fim,  o  quanto  Bloch  e  Febvre  estavam  integrados  ao establishment
[425]
,


mais do que deseja a maior parte de seus intérpretes, afinal ambos foram apadrinhados pelos metódicos, particularmente pelo
grupo de Monod
[426]
. Tanto Jacques Revel quanto André Burguière são categóricos ao afirmar que eles não eram  outsiders,
pois  foram,  desde  cedo,  integrados  ao  teatro  historiográfico  em  espaços  e  veículos  cujas  contribuições  dividiam  com
metódicos  e  positivistas  e  eram  protegidos  por  expoentes  dentro  e  fora  da  academia,  escrevendo  tanto  para  a  revista  de
Monod quanto para a de Henri Berr (1863-1954)
[427]
.


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