A constituição da História Como Ciência



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Considerações finais
A  essas  alturas  pode-se  perceber  que,  no  geral,  serviu-se  mais  do  mesmo.  Ora,  já  não  existiriam  dezenas  de  textos  que
passaram  em  revista  (alguns  de  forma  bem-inventiva)  as  ideias  de  Febvre  sobre  História?  Acaso  teria  restado  alguma
novidade ainda não revelada por comentadores do calibre de um Burguière, de um Noiriel, de um Muller ou de um Revel?
Mas e se por alguma herética ventura sequer se teve a intenção de lançar novas pérolas à comunidade de exigentes leitores
sobre  o  pensamento  histórico  do  grande  autor  francês?  O  impulso  de  enfadar  a  cultura  historiográfica  brasileira  com
informações  já  conhecidas  não  seria  um  esforço  inócuo?  De  fato,  se  não  exprimimos  pensamentos  graves  ao  redor  das
concepções teóricas de Febvre, e se não há novidades significativas a acrescentar, fica mesmo difícil encontrar razões para
entornar  apenas  algumas  gotas  ociosas  nas  torrentes  de  tinta  já  derramadas  sobre  o  autor  de O  problema  da  incredulidade .
Sem desconsiderar o relevo da inovação, talvez valha expor a uma outra luz a própria noção de novidade como “o” requisito
da pesquisa em Ciências Humanas. Olhando bem, nem sempre é o melhor caminho tomar o novo como fonte incontestável da
pertinência de um estudo, apesar de tantas vozes bradando o contrário. Adotar o “viva o novo” como bordão comercial faz
algum  sentido,  posto  que  nossa  “modernidade  líquida”  (Zygmunt  Bauman),  num  piscar  de  olhos,  transforma  quase  tudo
rapidamente em peças de museu. Tanto assim que a concorrência até promete, a breves intervalos, “inventar o novo de novo”.


No  mercado  tecnológico,  tais  frases  em  prol  do  novo  a  qualquer  preço  podem  gerar  efeitos  persuasivos  preciosos.  Nas
Ciências Humanas o argumento parece ser bom, mas não deveria ser tomado como uma regra de ferro. Isso para dizer que,
neste  estudo,  não  se  encontram  ultrapassagens  arrojadas;  no  máximo,  algumas  retomadas  mais  ou  menos  prudentes.  De  fato,
não  pretendemos  entregar  a  nossos  leitores  uma  nova  “edição”  revista  e  ampliada  de  tantas  outras  análises  do  pensamento
histórico de Febvre. Remendando velhas costuras, a pretensão é que este texto produza efeitos de informação nos interessados
em tomar contato com ideias que impactaram o campo historiográfico nos meados do século XX, e que ficaram gravadas como
parte  da  carga  genética  dos  historiadores,  como  sugerido  no  início  deste  capítulo.  Seguindo  nessa  toada,  decerto  que  se
descumprirá  um  mandamento  sagrado  da  cientificidade  ora  reinante  nas  mentes  de  uns  poucos  desavisados.  Apesar  da
impenitência de um, digamos, leve pecado mortal, continuaremos com a impressão de que a ciência em história pode não ser
tão  suficientemente  científica  quanto  alguns  se  comprazem  em  supor.  Melhor  mesmo  continuar  pensando  em  procedimentos
cientificamente  conduzidos.  Em  tempo:  Qual  mesmo  o  propósito  da  epígrafe  de  Cioran?  Não  sabemos  ao  certo.  Talvez  ela
seja pertinente para retratar os que, como Febvre, deixam-se guiar por convicções inabaláveis.


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