A constituição da História Como Ciência



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particular da História?
[407]
 As  suas  declarações  antiteóricas  não  poderiam  ter  origem  numa  ainda  não  totalmente  superada
herança  oitocentista  de  desconfiança  da  Filosofia  e  da  Literatura?  Lembremos  que,  durante  a  produção  de  sua  tese  de
doutoramento, Febvre teve a orientação de Gabriel Monod, um dos expoentes da historiografia metódica francesa do século
XIX,  personagem  diante  do  qual  o  autor  de Combates  pela  história  jamais  deixou  de  manifestar  gratidão  e  admiração.
Contudo, avançar sobre todos os aspectos teóricos e conceituais presentes na obra de Lucien Febvre demandaria um esforço
incompatível com os propósitos deste texto. Resta dizer que a consolidação dos Annales como um movimento decisivo para
os rumos da historiografia do século XX não seria possível sem o apoio de um programa teórico, ainda que mínimo, por parte
dos  seus  dois  fundadores.  Ademais,  a  própria  noção  de  história-problema  comporta,  de  antemão,  um  desafio  de  natureza
teórica: aquele que considera que os fatos não são reveláveis inteira e exclusivamente pelas fontes, mas, em larga medida, são
artefatos da imaginação do historiador. Em um texto em que procura ressaltar as contribuições de Febvre – e também de Bloch
–  no  campo  da  Teoria  da  História,  Massimo  Mastrogregori  adverte  inicialmente  que  as  reflexões  dos  dois  historiadores
apresentam  “rápidas  reflexões  experimentais”
[408]
  e  não  formam  um  conjunto  de  ideias  que  poderíamos  denominar  como
“filosóficas”.  Em  meio  à  edificação  de  seu  projeto  de  uma  nova  história,  Febvre  jamais  deixou  de  escrever  a  respeito  de
história  universal,  sobre  metodologia  do  conhecimento,  sobre  como  os  homens  podem  ter  acesso  ao  passado.  Foi  a  partir
desses  escritos  sobre  o  pensamento  histórico  que  se  pôde  derivar,  para  Mastrogregori,  a  fecundidade  de  uma  história  da
historiografia.
As concepções de Febvre acerca da história e sobre o ofício do historiador não podem mesmo ser localizadas em algum
texto programático ou em um livro destinado a este fim. Com efeito, não há uma obra à qual se possa consultar com segurança


para traçar um itinerário de sua teoria historiográfica. As pistas devem ser procuradas em um conjunto muito vasto de escritos,
o que, por si só, já obriga a operar com visões gerais e panorâmicas a fim de atender aos propósitos desta coletânea. O olhar
do  analista  não  pode  deslocar-se,  sem  dúvida,  do  já  mencionado Combates  pela  história,  mas  deve  centrar-se  também  nas
discussões travadas tanto no periódico Annales quanto na Revue de Synthèse, além das obras de história propriamente ditas,
especialmente  nas  passagens  introdutórias,  ocasiões  em  que  Febvre  enunciava  problemas  mais  gerais  de  método  e  de
formulações teórico-conceituais. Mastrogregori adverte, ainda, para a importância das correspondências trocadas, das notas
de leitura, dos rascunhos de estudos, das aulas e mesmo das opiniões de outros historiadores que conheceram Febvre. Parte
dessa documentação, para nossa fortuna, já se encontra publicada
[409]
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