A constituição da História Como Ciência


Entre a teoria e o realismo



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Entre a teoria e o realismo
Mesmo para alguns historiadores claramente identificados com a revista Annales e com as propostas de seus fundadores, o
movimento protagonizado por Febvre e Bloch não fora pródigo em apresentar intenções teorizantes claras e discerníveis. Este
é,  por  exemplo,  o  argumento  de  Jacques  Revel,  que  compreende  o  projeto  de  Febvre  e  Bloch  como  uma  “atividade  pouco
preocupada  no  fundo  com  definições  teóricas”
[402]
.  Josep  Fontana,  em  crítica  mais  aguda,  afirma  que  os  dois  fundadores
foram  os  criadores  de  um  funcionalismo  que  desprezava  as  formulações  teóricas  e  fingia  preocupações  progressistas
[403]
.
Entre  os  autores  brasileiros  interessados  nas  contribuições  dos Annales, vale a pena considerarmos as observações de José
Carlos Reis, para quem a fraqueza teórica dos annalistes, Lucien Febvre incluído, teria se dado pela rejeição posterior das
contribuições  de  Henri  Berr,  estigmatizado  como  um  intelectual  excessivamente  concentrado  em  abstrações  e
generalizações
[404]
. Para Gérard Noiriel, o pouco pendor teórico de Febvre estava em relação direta com a persistência da
tendência,  não  radicalmente  ultrapassada  pelos Annales,  de  “auxiliarização”  das  ciências  vizinhas,  sem  promover  maiores
avanços no debate a respeito do  papel  da  institucionalização  desses  outros  campos  do  saber  para  o  conhecimento  empírico
das  sociedades  humanas
[405]
.  Febvre  não  teria  sido  capaz,  por  exemplo,  de  superar  o  velho  dualismo  que  separava  os
historiadores  (interessados  nos  fatos  únicos)  dos  sociólogos  (voltados  para  a  descoberta  de  leis  e  regras  gerais).  A  sua
controversa  recepção  de  Simiand  –  mesclada  entre  a  valorização  da  rejeição  do  fato  isolado  e  a  recusa  de  sua  sociologia,
considerada como ainda profundamente “abstrata” – é um sintoma dessa radical oposição de pontos de vista. A acusação de
desprezo pela teoria encontrava, de certo modo, verificação nas próprias palavras de Febvre, quando ele, não raro, bradava
contra a “metodologia abstrata à moda alemã” ou defendia que era “apenas na história que o historiador poderia extrair suas
ideias”
[406]
.  O  seu  silêncio  a  respeito  do  problema  do  juízo  histórico  –  tema  central  na  tradição  teórica  do  historicismo  –
oferece mais um elemento ao rol dos defensores da tese antiteórica no pensamento histórico de Febvre. As fortes críticas de
Febvre  às  filosofias  da  história  de  Spengler  e  de  Toynbee,  apresentadas  como  voluntaristas  e  irracionalistas,  não  podem
escapar aos avaliadores do seu legado epistemológico.
Estaríamos, a partir da consideração dessas críticas de Febvre a determinadas correntes teóricas e filosóficas da História,
impossibilitados de sugerir que o seu pensamento seja portador de uma reflexão sobre a produção do conhecimento histórico?
Os  próprios  empirismo  e  realismo  do  historiador  francês  não  seriam  o  resultado  de  uma  escolha  e  de  uma  concepção
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