A constituição da História Como Ciência


O fogo e o ferro da crítica



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O fogo e o ferro da crítica
A intensa produção intelectual de Febvre sempre foi apresentada por ele como armas empunhadas a serviço de uma causa.
Pretendeu,  com  isso,  persuadir  seus  leitores,  admiradores  e  seguidores  da  necessidade  de  quebrar  as  regras  do  jogo
historiográfico elaboradas pelos seus predecessores. Contra as concepções tradicionalistas e obsoletas a respeito do papel da
história e o fato de como os historiadores produzem o conhecimento do passado, Febvre percebia suas intervenções como uma
defesa  da  História,  então  sitiada  por  correntes  e  indivíduos  que  colocavam  em  xeque  um  longo  esforço,  por  parte  dos
historiadores, em edificar a legitimidade do conhecimento científico sobre o passado. É o que podemos distinguir da citação
de um texto escrito em 1936:
Há alguns anos os historiadores vêm tendo o privilégio de serem colocados no banco dos réus por um variado lote de homens notáveis – poetas, romancistas,
ensaístas  –  que,  despendendo  em  favor  de  Clio  alguns  momentos  de  sua  vida  dedicada  a  outros  cultos,  compreendem  instantaneamente  (ou  pelo  menos
afirmam)  o  que  anos  de  estudo  nunca  foram  suficientes  para  fazer  os  historiadores  compreenderem  nem  exprimirem.  Após  o  que,  com  uma  caridade
matizada,  alguns  de  ironia  francesa,  outros  de  furor  germânico  ou  de  humor  inglês,  esses  espíritos  brilhantes  e  rápidos  nos  comunicam,  em  alguns  traços
ardentes, suas descobertas ou seus sistemas. Que fazer? Agradecer-lhes sem falso pudor; examinar com toda a sinceridade as suas críticas; entregar-nos ou
resistir? Sim, se vemos neles camaradas de combate, que podem nos tocar seja por argumentos racionais, seja por apelos ao sentimento: porque, enfim, nós,
historiadores,  vivemos  na  mesma  atmosfera  de  crise  que  os  outros  homens  nossos  contemporâneos  –  e  necessitamos,  para  que  possamos  perseverar,  da
confiança em nós mesmos e em nossas obras. Não, se, por trás de um paravento de história, percebemos nesses homens a sedução de erros e de ilusões.
Não, decididamente não, se em seus escritos constatamos a ação de um veneno do espírito
[398]
.
A ironia e a acidez na crítica aos defensores do tradicionalismo historiográfico eram, muitas vezes, expostas por Febvre em
trajes  panfletários,  com  certa  radicalização  de  atitudes,  simplificações  de  pontos  de  vista,  enquadramento  caricatural  dos
adversários  e  esquematismos  binários.  Entretanto,  tais  críticas  apresentavam  com  clareza  os  elementos  da  polêmica  e
elucidavam os campos de atrito, evidenciando as especificidades das interpretações dos adversários. Sem dúvida, a crítica
febvriana era pouco complacente com o que considerava arcaico na produção do conhecimento histórico, e pouco concedia
àqueles aos quais se opunha. Em muitos dos seus escritos, Febvre não tinha pudores em substituir o esforço de análise pela
militância aberta em nome de uma batalha contra a história tradicional. Ao mesmo tempo, não se isolava em seus combates.
Pelo contrário, os aliados eram constantemente mencionados: os sociólogos durkheimianos, a Psicologia de Charles Blondel e
a sempre referenciada Revue de Synthèse, de Henri Berr.
Essa estratégia de herói reformador – reafirmada em inúmeros escritos de Febvre – assentava-se, segundo Bertrand Muller,
em uma dupla exigência: em primeiro lugar, recuperar a ligação do conhecimento histórico com o mundo social, especialmente
em  virtude  das  transformações  ocorridas  no  Ocidente  desde  os  finais  do  século  XIX.  Era  urgente,  portanto,  que  os
historiadores escutassem os sinais do tempo, que ouvissem os clamores da sociedade em prol de uma história menos dedicada
aos estudos estéreis dos acontecimentos e mais atenta aos seus grandes movimentos. A segunda exigência, em sintonia com a
primeira,  era  a  reafirmação  da  ambição  científica  da  história  em  um  momento  de  crise  do  mundo  moderno,  uma  espécie  de
porto seguro no enfrentamento das turbulências já em curso
[399]
.


No  plano  de  suas  intervenções  militantes,  isto  é,  das  eloquentes  críticas  de  Febvre  contra  o establishment  acadêmico
francês,  é  preciso  fazer  um  exame.  Elas  não  impediram,  por  exemplo,  que  ele  galgasse  os  mais  altos  postos  na  hierarquia
universitária, construindo sua carreira exatamente sob as regras das promoções e das ascensões definidas ainda durante a III
República.  Isso  incluía,  por  exemplo,  a  inserção  no  ensino  secundário,  a  defesa  de  uma  tese  e  a  nomeação  em  uma
universidade,  o  que  lhe  possibilitava  um  compartilhamento  do  método  histórico  dominante,  mesmo  que  na  condição  de
observador  inconformado  com  seus  desacertos.  Apesar  das  referências  bem  pouco  elogiosas  que  fazia  ao  sistema  de
nomeações do meio universitário francês, Febvre não passou ao largo das convenções vigentes. Na correspondência trocada
com  Bloch  durante  os  anos  de  1920  ele  alude  ao  caráter  eminentemente  político  do  acesso  aos  principais  postos  na
universidade  francesa  daquele  momento,  uma  lógica  que  se  sobrepunha  à  capacidade  intelectual  e  exigia  dos  candidatos  o
estabelecimento de sólidos laços sociais. Em 1926 Febvre conheceria de perto essa lógica ao postular a cadeira de Charles
Seignobos  na  Sorbonne.  Na  ocasião  foi  derrotado  por  um  candidato  cujas  publicações  e  reconhecimento  intelectual  eram
sabidamente menores que os dele. Sua ida para Estrasburgo em 1919, então a universidade com o maior prestígio depois da
Sorbonne, consolidava aquilo que Gérard Noiriel chamou de “a arte do compromisso”, ou seja, “a arte de saber até onde é
possível ir sem sair dos limites da liberdade vigiada que a comunidade concede a cada um dos seus membros”
[400]
.
Por  outro  lado,  estar  no  centro  das  estruturas  institucionais  dominantes  do  fazer  historiográfico  não  poderia  oferecer
distinção  intelectual  aos  jovens  historiadores  que,  como  Febvre,  eram  desejosos  de  mudanças  mais  profundas  no  campo  da
História.  O  cultivo  da  diferença  deveria  romper  as  amarras  da  “liberdade  vigiada”  e  o  caminho  passava  pela  aproximação
com as disciplinas vizinhas, como a Geografia, a Psicologia, a Sociologia e a Linguística, ou seja, domínios que se situavam
para além da História. Febvre, portanto, era conhecedor das regras do jogo e sabia que o sucesso de sua carreira universitária
na França dependia da sua capacidade de reunir um maior conjunto de vozes em torno do seu nome. Em sua terceira tentativa
de ingresso no Collège de France, apresentou como cartão de visitas o projeto intitulado “História da civilização moderna”.
Além da óbvia abrangência da proposta, o que satisfazia a variedade de gostos intelectuais presentes na instituição, Febvre
firmava  um  compromisso  graças  ao  qual  podia  apresentar-se  como  defensor  da  tradição  de  estudos  de  história  moderna
francesa,  na  linha  inaugurada  por  Michelet.  A  referência  à  “civilização”  permitia  ainda  captar  as  vozes  dos  eleitores
pertencentes  às  disciplinas  literárias  e  às  humanidades.  Dessa  forma,  mesmo  sendo  um  inconformado  crítico  da  tradição
historiográfica  do  século  XIX,  Febvre  não  hesitava  em  se  integrar  aos  circuitos  institucionais  de  poder,  o  que  se  tornou
visível, uma vez mais, em anos posteriores, quando de sua candidatura à Academia de Ciências Morais e Políticas.
Nessas alturas, cabe referir algo acerca de certa construção de si mesmo levada a cabo por Febvre ao longo de toda sua
combativa  carreira.  O  discurso  autoconsagrador  eliminava,  sobretudo,  as  disputas  e  relações  de  poder  com  os  quais  o
historiador  sempre  conviveu.  Ao  dissecar  a  heroicização  que  Febvre  construiu  a  respeito  de  si  próprio,  Gérard  Noiriel
assinala,  tendo  em  consideração  a  obra Combates  pela  história,  que  não  se  trata  de  contestar  o  valor  dos  argumentos  ali
contidos,  mas  tão  somente  de  colocar  em  questão  as  técnicas  de  reescritura  que  Febvre  foi  obrigado  a  empregar  para  se
conformar  ao  personagem  que  ele  mesmo  forjou
[401]
.  Como  toda  obra  que  reúne  textos  escritos  em  épocas  e  lugares
diferentes, Combates pela história sofreu algumas modificações e/ou acomodações estratégicas. Para Noiriel essas mudanças
seguiam um objetivo claro: reforçar a atitude engajada de Febvre em sua luta incansável contra a Histoire événementielle. A
segunda parte da obra, intitulada “os prós e os contras”, foi a que sofreu as maiores revisões quanto às versões originais. As
alterações nos títulos não disfarçavam o tom de manifesto e a necessidade de explicitar, com vigor ainda maior, escolhas já
defendidas anteriormente. Tome-se como exemplo o texto intitulado “Nem história de tese nem história manual. Entre Benda e
Seignobos”,  originalmente  publicado  na Revue  de  Synthèse  Historique  como  “Entre  a  história  de  tese  e  a  história-manual.
Dois  ensaios  recentes  de  história  da  França:  M.  Benda  e  M.  Seignobos”,  um  título  certamente  bem  menos  contundente. A
supressão das marcas de deferência (“M. Benda e M. Seignobos”) e a substituição da palavra “entre” por “nem” aprofundam o
estilo de catequese que Febvre pretendia imprimir em sua luta contra a história tradicional. Acrescente-se o fato de que essa
reorganização prévia dos seus escritos, com vistas à publicação de Combates pela história, deu-se em um momento no qual o
historiador  já  havia  firmado  seu  compromisso  com  os  poderes  acadêmicos  instituídos.  Sob  esse  aspecto,  textos  escritos  no
período pós-nomeação ao Collège de France, ou seja, depois de 1932, foram deslocados para a parte inicial do livro na qual
Febvre se apresentava como portador de uma verdadeira profissão de fé historiográfica. Já os textos ainda posteriores a esse
contexto  são  agrupados  na  parte  final,  “aparentando  assim  uma  espécie  de  aplicação  de  uma  concepção  de  história  que
“sempre esteve lá”. O que se realça nessas considerações é a necessidade de situar a produção intelectual de Febvre para,
digamos, um pouco além de seu incontestável vigor conceitual e de seu esforço teórico. Ela comportou também estratégias de
autoapresentação,  mecanismos  de  formatação  de  dado  perfil  que  deveria  ser  difundido  a  ponto  de  os  continuadores  de  sua
obra  se  sentirem  comprometidos  a  se  manterem  fiéis  ao  espírito  heroico  e  contestador  que  animou  o  fundador  da  corrente


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