A constituição da História Como Ciência


Um novo conceito de biografia



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Um novo conceito de biografia
Um aparente paradoxo se descortina quando cotejamos os esforços de Febvre em edificar uma história das mentalidades em
expressões claramente coletivas e os seus estudos de viés biográfico. A contradição, entretanto, dissipa-se na medida em que
as  abordagens  dedicadas  a  Lutero,  Rabelais  e  Marguerite  de  Navarre  não  são  biográficas,  no  sentido  tradicional.  Elas  não
visam  restituir  a  excepcionalidade  do  indivíduo,  mas  compreender  sob  quais  condições  e  possibilidades  tal  destino  foi
possível e ganhou sentido. Esses estudos de caso buscam, recuperando as palavras de Roger Chartier, “detectar como, para os
homens  do  século  XVI,  organizavam-se  a  percepção  e  a  representação  do  mundo,  como  se  definiam  os  limites  do  que  era
possível então pensar, como se construíam as relações próprias da época entre religião, ciência e moral”
[392]
. A utensilagem
mental é invocada, nesse sentido, para auxiliar o historiador a “interpretar e compreender melhor a ação dos ‘dirigentes’ das
sociedades passadas, dos autênticos artesãos da história humana”
[393]
. Para Febvre, o procedimento biográfico se legitima
não a partir da exceção, mas da exemplaridade, percebida por intermédio da explicação dos quadros mentais, esses lugares de
encontro entre aspirações individuais e coletivas. Trata-se de demonstrar, seguindo as considerações de Denis Crouzet, que “o
ator histórico não é um autor que vive em uma caixa fechada, agindo e se exprimindo unicamente por si próprio, que ele é um
‘destino’ que sofre as pressões e as contingências da história imediatamente vivida ao ponto de ter que negociar e evoluir com


ela”
[394]
. Ao escrever sobre o reformador, Febvre pretendia que, com
[...] esse Lutero, nós o apressamos, o empurramos, o exortamos. Tudo o que se obtém é que ele medite novamente as soluções já experimentadas por ele,
que as retome, as aprofunde, e assim, mais bem-ancorado em seus sentimentos, possua razões mais conscientes para não agir. À força de insistência, nós lhe
arrancamos alguns esboços de organização cultural
[395]
.
Reconstruir  os  universos  mentais  de  toda  uma  época  a  partir  da  investigação  em  torno  de  uma  trajetória  individual
exemplarmente  considerada;  situar  os  homens,  simultaneamente,  como  testemunhas  e  produto  das  condições  sociais  que
impõem limites à livre invenção. Com essas propostas Febvre enunciava a questão fundamental que orientaria os debates em
torno  do  ressurgimento  da  biografia  algumas  décadas  depois:  as  cambiantes  e  delicadas  relações  entre  o  uno  e  o
múltiplo
[396]
.  Reconstruir,  a  partir  da  individualidade,  o  universo  mental  móvel  de  uma  época,  traduzir  os  ecos  de  uma
civilização em um indivíduo, são, sem dúvida, tarefas eivadas de potencialidades e riscos. Sem dúvida, o esforço de Febvre
em formular um corpo de problemas conceituais e metodológicos a partir dos quais pudéssemos recompor sincronicamente as
descontinuidades  que  singularizam  sistemas  culturais  sucessivos  deve  ser  saudado  com  distinção.  Tal  abordagem  marca  um
afastamento  decisivo  quanto  a  certas  representações  simplificadoras,  como  a  que,  por  exemplo,  concebe  a  psicologia  dos
homens  como  sempre  igual,  em  todos  os  tempos.  A  noção  de  utensilagem  mental  surge  como  essa  panóplia  de  recursos
culturais, que tanto molda os agentes quanto é por eles configurada. O risco de reificação das funções e dos funcionamentos
culturais desdobra-se em outro perigo: o de a utensilagem mental aparecer como uma ferramenta funcionalista da qual nada
parece escapar. A despeito dessas problematizações, parece prudente reafirmar que a história das mentalidades é largamente
tributária  da  intensa  atividade  intelectual  de  Lucien  Febvre,  a  ponto  de  ser  associada  quase  exclusivamente  ao  seu  nome,
fazendo esquecer a existência de outras concepções, mesmo no território da célebre “Escola” de Annales
[397]
.

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