A constituição da História Como Ciência


Para uma história das mentalidades



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Para uma história das mentalidades
Indissociável  da  discussão  sobre  a  impossibilidade  da  incredulidade  religiosa  no  século  XVI  está  a  apropriação  que
Febvre realizou do conceito de mentalidades, que pertencia, no século XIX, a campos estranhos à História, como a Etnologia
e a Psicologia
[381]
. O esforço do historiador francês em conceber as estruturas psicológicas como o elemento fundador da
análise  histórica  era  ainda,  nos  anos  de  1930,  um  empreendimento  situado  um  tanto  à  margem  das  preocupações  da  revista
Annales, naquele momento uma publicação predominantemente voltada para as dimensões econômicas e sociais da história.
Porém,  ao  postular  que  a  ação  individual  se  exerce  em  articulação  com  as  condições  tanto  sociais  quanto  mentais  que  lhe
deram  origem,  Febvre  abria  uma  brecha  crítica  na  tradicional  história  das  Ideias.  Por  outro  lado,  como  ressalta  François
Dosse, seu projeto de uma psicologia histórica teria menos seguidores – ainda que talvez fosse mais conhecida – do que as
tentativas de reconstrução das representações coletivas não conscientes levadas a cabo por Marc Bloch, com os aportes da
Sociologia de Durkheim e das correntes estruturalistas em ascensão
[382]
. Marcando sua diferença em relação ao cofundador
da revista Annales, Febvre, em resenha de a Sociedade feudal, escreveria que “o que me toca, uma vez o livro fechado, é que
o indivíduo está quase inteiramente ausente [...] E ainda diria, de bom grado, se eu ousasse, que na obra de Marc Bloch há
indicações de uma espécie de retorno para o esquemático. Vamos dar nomes aos bois: um retorno ao sociológico, que é uma
forma sedutora do abstrato”
[383]
.
A  difusão  do  uso  da  noção  de  mentalidades  no  campo  das  Ciências  Humanas  deriva  do  trabalho  etnográfico  de  Lucien
Lévy-Bruhl  acerca  das  operações  mentais  das  chamadas  “sociedades  primitivas”,  caracterizadas,  segundo  ele,  pela
predominância  de  atitudes  pré-lógicas  e  por  uma  relação  mística  e  emocional  no  que  concerne  aos  objetos  e  às  suas
representações. Ainda que as teses de Lévy-Bruhl sejam, atualmente, vistas como datadas e eurocêntricas, elas ofereceram, no
tempo  em  que  estiveram  em  voga,  um  legado  decisivo  para  as  reflexões  de  Febvre,  ou  seja,  “um  esforço  determinado  para
pensar  um  conjunto  de  práticas  culturais  segundo  sua  própria  coerência  e  para  reconstruir  sua  autonomia  e
especificidade”
[384]
.  As  teses  de  Lévy-Bruhl  demonstravam,  ainda,  o  interesse  que  a  Psicologia  despertava  como  chave
explicativa de realidades sociais inteiras, restituindo coerência e inteligibilidade a fenômenos aparentemente contraditórios e
desconexos. Henri Berr, cuja importância para o pensamento de Febvre já foi assinalada, não hesitara, em 1911, em seu  La
Syhnthèse  Historique,  em  afirmar  que  “a  história  é  a  própria  Psicologia:  é  o  nascimento  e  desenvolvimento  da psyché”.
Descrever  a  organização  das  sociedades  em  uma  perspectiva  psicológica  não  era,  portanto,  um  procedimento  estranho  ao
campo das Humanidades quando Febvre, em 1938, publicou o texto em que enfrenta com mais vigor essa problemática: Une
vue d’ensemble: Histoire et Psychologie.
O projeto de Febvre em torno de uma “História das mentalidades” relaciona-se a uma crítica sistemática a determinados
postulados da história intelectual, da forma como então era praticada. O historiador francês denunciou filósofos e literatos por
lançarem mão de categorias gerais e abstratas que, longe de esclarecerem a realidade psicológica das experiências sociais,
apenas  satisfaziam  as  inteligências  menos  rigorosas,  ao  conceber  as  ideias  e  os  produtos  culturais  em  termos  mecânicos  de
criação, influência e filiação. Os pensamentos contraditórios de um homem ou as complexidades de um contexto não poderiam
ser  reduzidos  às  categorias  tradicionais,  como  Renascimento  ou  Reforma,  pura  e  simplesmente.  Ele  se  propôs  a  colocar  as
formas  de  pensamento  e  os  valores  culturais  em  conexão  com  os  contextos  nos  quais  surgiram  e  operaram  historicamente,
reencontrando a originalidade irredutível de cada sistema de ideias, em suas diferenças e transformações
[385]
.  Hoje,  esses
procedimentos  formam  alguns  dos  fundamentos  teóricos  da  assim  chamada  Escola  de  Cambridge  do  Contextualismo
Linguístico, o que não significa que Febvre seja sua matriz direta, pois também Collingwood pensara em termos semelhantes
nas primeiras décadas do século XX. De fato, Febvre preconizou uma modalidade de escrita da história que compreendia o
conjunto das relações sociais – em suas implicações culturais e psicológicas – a partir de uma rede cujos elementos estão em


constante interação uns com os outros. Cada sistema cultural estava impregnado por signos e instrumentos que devem assinalar
uma  diferença  em  relação  ao  ponto  de  vista  contemporâneo.  O  programa  febvriano  de  estudos  das  “mentalidades”  funda-se
sob a descontinuidade e a irredutibilidade, predicados dos quais o analista sério não pode abdicar, sob o risco de incorrer,
como já vimos, no pecado mortal do anacronismo. É importante observar que Febvre jamais adotou uma nomenclatura rígida
para o que aqui qualificamos como o seu projeto de construção de uma história das mentalidades. Termos como “História da
sensibilidade”,  “História  da  vida  afetiva”  e  mesmo  “História  das  emoções”,  acrescenta  Jacques  Revel,  são  até  mais
encontrados  nos  textos  de  Febvre  do  que  “mentalidades”
[386]
.  Quanto  ao  tema,  Roger  Chartier  faz  outra  advertência
importante,  quando  afirma  que  “o  termo  história das  mentalidades  é  de  difícil  exportação,  parece  ser  pouco  consistente
noutras  línguas  que  não  o  francês,  constituindo  a  fonte  de  numerosas  confusões,  o  que  leva  a  não  traduzir  a  expressão  e  a
reconhecer assim a irredutível especificidade de uma maneira nacional de pensar as questões”
[387]
.
O  rompimento  de  Lucien  Febvre  com  a  história  intelectual  de  seu  tempo  estava,  portanto,  na  base  de  um  caminho  de
“análise  histórica  que  tomaria  por  modelo  as  descrições  dos  fatos  das  mentalidades”
[388]
.  Isso  implica  considerar  que  a
história das mentalidades reivindicada por Febvre levava em conta as ideias a partir de suas relações com as formas de vida
social  e  com  as  condições  que  permitiram  a  sua  produção.  O  autor  rejeitava,  assim,  diversos  postulados  tradicionais  pelos
quais os historiadores e os literatos apreendiam as criações artísticas e as modalidades de pensamento, tais como a intenção
autoral  desencarnada,  a  liberdade  sem  limitações  de  criação  individual  e  a  ideia  de  um  “espírito  do  tempo”  capaz  de
organizar o jogo de trocas e influências. Na esteira do que Revel qualificou como a necessidade de oferecer a “coerência que,
no  seio  de  uma  mesma  cultura,  deve  unir  a  obra  mais  elaborada  e  o  comportamento  mais  comum  –  Rabelais  e  o  camponês
francês  do  primeiro  quarto  do  século  XVI”
[389]
,  assume  relevância  o  conceito  de utensilagem  mental,  que  Febvre  não
definiu rigorosamente, mas assim caracterizou em seu livro sobre Rabelais:
A cada civilização, a sua utensilagem mental; mais ainda, a cada época de uma mesma civilização, a cada progresso (quer das técnicas, quer das ciências)
que  a  caracteriza  [...]  uma  utensilagem  renovada,  um  pouco  mais  desenvolvida  para  certas  utilizações,  um  pouco  menos  para  outras.  Uma  utensilagem
mental  que  essa  civilização,  que  essa  época  não  está  segura  da  capacidade  de  transmitir,  integralmente,  às  civilizações,  às  épocas  que  vão  lhe  suceder,
podendo  conhecer  mutilações,  retrocessos,  deformações  importantes.  Ou,  pelo  contrário,  progressos,  enriquecimentos,  novas  complicações. A  utensilagem
vale pela civilização que soube forjá-la; vale pela época que a utiliza; não vale pela eternidade, nem pela humanidade: nem sequer pelo curso restrito de uma
evolução interna de uma civilização
[390]
.
Compreende-se,  por  essas  palavras,  que  a  utensilagem  mental  ultrapassa  o  simples  conjunto  de  categorias  e  formas  de
representação  e  expressão  da  realidade  que  organizam  a  experiência,  para  se  encontrar  também  com  as  técnicas  e  as
modalidades de estruturação social. Ao mesmo tempo, ela deveria ser isolada de qualquer tentação evolucionista que pudesse
levar  à  ideia  de  que  as  utensilagens  mentais  variam  de  acordo  com  o  menor  ou  maior  progresso  de  suas  formas  (as  velhas
histórias da passagem do mais simples ao mais complexo). A formulação de Febvre convida a remontar as manifestações de
uma cultura às condições concretas de suas possibilidades e, simultaneamente, a obter os meios para compreender a unidade.
A tarefa do historiador deve ser, portanto,
[...] inventariar inicialmente em seu detalhe e, em seguida, recompor para a época estudada o material mental de que dispunham os homens dessa época; por
um possante esforço de erudição, mas também de imaginação, reconstituir o universo, todo o universo físico e intelectual, moral, no meio do qual se moveram
as gerações que o precederam; tomar um sentimento nítido do que, por um lado, a insuficiência das noções de fato sobre este ou aquele ponto e, por outro
lado, a natureza do material técnico em uso numa determinada data na sociedade que se quer estudar engendrariam necessariamente lacunas e deformações
nas representações que certa coletividade histórica forjaria do mundo da vida, da religião, da política
[391]
.


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