A constituição da História Como Ciência


Ver com as lentes dos antepassados



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Ver com as lentes dos antepassados
E quanto à famosa tese sobre o problema da descrença? Nos inícios dos anos de 1940 Lucien Febvre demonstrara no livro
O problema da incredulidade no século XVI  que a cultura literária do Renascimento não dispunha de um universo linguístico
suficientemente desenvolvido para propiciar aos indivíduos – incluindo entre eles as inteligências mais ilustradas no conjunto
dos  novos  valores  do  humanismo  –  capacidade  para  expressar,  por  exemplo,  um  pensamento  livre  das  influências  do
cristianismo.  Se  no  interior  da  cultura  renascentista  ainda  não  havia  disponível  um  vocabulário  próprio  da  racionalidade
específica  do  ateísmo,  a  ideia  só  poderia  ser  estranha  aos  humanistas  do  século  XVI.  Em  seus  combates  contra  os
historiadores  que  tencionaram  transformar  Rabelais  num  entusiasta  da  descrença,  Lucien  Febvre  indagava:  Uma  atitude
intelectual  de  tal  natureza  não  substituiria  as  peculiaridades  do  pensamento  e  visões  de  mundo  dos  homens  do  século  XVI?
Elas  não  atribuiriam  às  moralidades  do  Antigo  Regime  formas  distintas  de  racionalidade,  aliás  muito  discrepantes  das
originais? As  transposições  de  valores  culturais  no  tempo  não  suscitariam  um  problema  histórico  malformulado,  expondo  a
incapacidade  do  historiador  de  reconstituir  o  seu  objeto  de  análise  nos  termos  que  lhe  eram  próprios?  Enfim,  atribuir  a
Rabelais  a  ousada  empresa  de  promover  a  destruição  da  experiência  religiosa  cristã  não  seria  atitude  modernizadora  de
personagens antigos? Como disse o próprio Febvre, no século XX ser cristão no mundo cristão tornou-se uma escolha. Mas,
no  século  XVI,  não  havia  essa  possibilidade,  posto  que  todos  estavam  imersos  no  cristianismo
[379]
.  A  liturgia  diária  se
encarregava de reger com mãos de ferro a experiência de cada um, ditando as regras de como proceder adequadamente em
meio  a  uma  imensa  cadeia  de  cerimônias.  Todos  os  aspectos  da  vida  privada  e  pública  não  escapavam  desse  ordenamento
rígido, por sinal muito revelador das conexões entre linguagem e sistemas de crenças.
Com o livro Le problème de l’incroyance au XVI
ème
 siècle, o autor chegara a uma original compreensão da cultura letrada
do século XVI, cultura na qual indivíduos e grupos sociais agiam e reagiam segundo convenções dadas e/ou determinadas por
tradições  imemoriais.  Febvre  percebera  algumas  singularidades  nos  textos  do  século  XVI  e  indicou,  por  meio  de  suas
análises, que a penetração do historiador no bloqueio de séculos de história só poderia ser empreendida pela compreensão
das diferenças linguísticas existentes entre o sujeito da pesquisa e seu objeto. Em suas considerações, o problema de maior
relevo residia em identificar e compreender as intenções dos autores em foco no interior de um universo linguístico dotado de
normas e valores peculiares, ainda que destinados a se transformar com o tempo em algo completamente diverso. Para chegar
a uma compreensão dos textos do passado, segundo os próprios termos dos autores que os conceberam em remotos tempos,
era preciso neutralizar o quanto possível as circunstâncias típicas do intérprete.
As  advertências  de  Febvre  sobre  o  anacronismo  devem,  portanto,  armar  o  historiador  de  precauções  de  método,
desenvolvendo  suas  interrogações  a  partir  do  princípio  da  diferença.  A  compreensão  dos  textos  do  passado  exige  a
compreensão  de  como  os  contemporâneos  os  assimilavam,  da  maneira  peculiar  de  como  os  liam.  Febvre  lançou  a  história
numa  fronteira  em  que  os  vínculos  com  a  Filologia  crítica  permitiam  identificar  como  as  palavras,  em  outros  momentos,
poderiam  assumir  diferentes  conotações,  sentidos  e  representações,  para  além  daqueles  do  universo  mental  do  próprio
historiador.  E  o  trabalho  de  apreensão  das  distinções  entre  as  épocas  estará  no  cerne  da  reflexão  do  analista  que,  em  seu
ofício,  ficará  atento  ao  movimento  concreto  de  transformação  dos  conceitos,  desconsiderando  as  abstrações  típicas  dos
manuais,  que  apagam  as  nuanças  e  fecham  as  perspectivas  da  compreensão.  A  comparação,  procedimento  inevitável  ao
historiador, deve “restituir o objeto de estudo em um eixo de compreensão o mais potente possível”
[380]
.
A  força  e  o  alcance  das  perguntas  formuladas  e  das  respostas  oferecidas  tornaram  a  obra  de  Febvre  sobre  Rabelais  um
marco na historiografia ocidental, cujas sucessivas análises e interpretações, por parte de historiadores e de cientistas sociais
das  mais  diversas  filiações  teóricas,  atestam  sua  importância  ainda  nos  dias  de  hoje.  Esse  trabalho  monumental  revela  o


talento do historiador francês em situar-se no passado para arguir os pensamentos e os sentimentos de homens e mulheres de
outrora, a fim de captar seus modos de compreensão da realidade. O problema da incredulidade no século XVI  delimita uma
questão metodológica: deve o historiador estar precavido o suficiente para ter em conta que interpretar o mundo cultural de
outras sociedades no tempo requer que se considere que elas compõem uma realidade que nos é distinta e que, portanto, não
pode  ser  apreendida  com  os  instrumentos  de  análise  sociolinguística  à  nossa  disposição.  Para  além  desse  procedimento  de
método, a tese da incredulidade demarca, antes de tudo, um problema a ser explicado pela investigação histórica, o mapa para
que o historiador não se perca em meio à pluralidade de eventos do passado. Se, para Febvre, a problematização é definidora
do  caráter  “cientificamente  conduzido  da  história”,  o  vivido  jamais  poderá  ser  restituído  em  sua  integralidade  e  a  sua
reconstrução  será  sempre  provisória,  pois  estaremos  sempre  bem-dispostos  a  novas  dúvidas  e  contestações.  Parafraseando
Collingwood, as gerações sucessivas apresentam-se sempre ávidas por reescrever a história.

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