A constituição da História Como Ciência



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página7/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
#16817
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   132
A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
romanos e germânicos. A carreira em Berlim começa no ano seguinte, na mais recente e moderna universidade alemã. Portas
sociais  e  acadêmicas  são-lhe  abertas  e,  em  1827,  recebe  autorização  para  viajar,  a  fim  de  visitar  e  consultar  bibliotecas  e
arquivos. Essa viagem acadêmica dura até 1831. A intimidade com a pesquisa de arquivos torna-se uma marca registrada de
Ranke: Viena, Veneza, Roma, Bruxelas, Paris, Londres. A prática da viagem erudita de pesquisa incorpora-se à constituição
mesma do pensamento histórico.
Ranke  nutriu  interesse  pela  atualidade  política  do  Estado  prussiano.  Malgrado  seu  engajamento,  não  teve  sucesso.  Entre
1832 e 1836 dirige a Revista histórico-política, por incumbência do político e editor Friedrich Perthes, e por encomenda do
ministro prussiano do Exterior, Conde von Bernstorff. Essa revista tinha por objetivo ser o “órgão de defesa da política da
burocracia  prussiana  esclarecida  contra  a  crítica  liberal  da  esquerda  e  contra  a  oposição  reacionária”
[6]
.  A  concorrência
entre  a  atualidade  política  e  o  cuidado  de  Ranke  em  preservar  a  qualidade  histórico-metódica  da  revista  levou  a  interesses
conflitantes.  Somente  dois  volumes  saíram.  Ela  firmou,  contudo,  o  parâmetro  metódico  que  definiu  o  campo  histórico
praticado  pela Revista de História (Zeitschrift  für  Geschichtswissenschaft,  1844-1848)  e  a Revista  histórica  (Historische
Zeitschrift), fundada em 1859 por Sybel e publicada até hoje.
Pode-se  dizer  que  o  parâmetro  rankeano  inclui  pelo  menos  três  grandes  princípios:  o  rigor  metódico  para  estabelecer  a
qualidade  da  informação  extraída  das  fontes;  a  amplitude,  a  articulação  e  a  complementaridade  entre  os  campos  de
conhecimento  (teologia,  filologia,  antiguidade  greco-romana,  direito  etc.);  a  recusa  de  qualquer  forma  de  pensamento
dogmático,  transcendente  ou  dualista.  A  síntese  dessa  atitude  se  dá  na  História:  como  conhecimento,  como  procedimento,
como experiência de vida. Para Ranke, é na História, com a História e pela História que o ser humano alcança o maior saber
de si, o único acesso à compreensão plena da vida humana.
Uma das formas de vida humana que mais o intrigou foi a institucionalização da vida social no Estado. Seu olhar se volta
para  a  história  política  com  um  interesse  político  mitigado  –  preocupado  em  identificar  as  constantes  da  vida  política  em
sociedade, para além das nações concretas. Um Estado é, para ele, uma entidade em que se sustentam os princípios ou ideias
universais.  Sua  compreensão  da  França  pré-revolucionária  atribuía-lhe  um  triplo  princípio:  catolicismo,  monarquia,
romanidade. Tais princípios não existem fora da História, pois, segundo seu entendimento, desenvolvem-se em um processo
dinâmico, ao longo do qual o Estado, a partir dos impulsos imanentes de sua evolução particular, chega à realidade desses


princípios evolutiva ou combativamente. No plano histórico-político, Ranke entende o sistema europeu de Estados como um
construto histórico singular, compreensível exclusivamente mediante o conhecimento de sua própria constituição e evolução.
Esse  sistema  carecia,  por  conseguinte,  de  ser  reconstruído  em  todos  os  seus  aspectos.  Ranke  dedicou-se  ao  tema  por  três
caminhos: (a) o estudo da formação e do desenvolvimento dos povos românicos e germânicos; (b) a concentração no período
moderno, do século XV ao XVIII; (c) o recurso ao fio condutor da história política.
A escolha desse roteiro não negligenciou a consciência clara de Ranke quanto à necessidade de levar em conta as demais
facetas da vida social: a economia, o direito, a literatura. No contexto internacional do sistema europeu, a identidade histórica
de  cada  sociedade  se  entende  (e  se  preserva)  mediante  a  reflexão  histórica.  Para  apreender  a  complexa  correlação  entre
identidade  própria  e  interação  externa  das  sociedades  europeias,  Ranke  lançou  mão  de  uma  abordagem  semelhante  à  que
preconizara para a pesquisa histórica: trabalhar com analogias, correspondências, analogias. Essa moldura teórico-metódica
orientou toda a obra de Ranke, das monografias sobre a Guerra dos Sete Anos, sobre as revoluções de 1791 e 1795, sobre os
papas, sobre a história alemã no tempo da Reforma, sobre a história da Prússia, da França ou da Inglaterra. A convergência e
a interconexão de tantas facetas ele buscou sintetizar na História universal (1881-1888).
Para a realização de tal tarefa, cuja abrangência requeria o reconhecido cuidado metódico, Ranke organizou sua reflexão
sobre um conceito fundamental: a objetividade. Esse conceito não era (e não é) novo. Seu mote, tantas vezes repetido, de que
incumbe ao historiador mostrar ou narrar como as coisas ocorreram (wie es eigentlich gewesen), é uma versão modificada de
Tucídides  (Guerra  do  Peloponeso  II,  48),  preocupado  sempre  em  narrar  o  que  foi.  Em  Ranke,  contudo,  há  uma  diferença
qualitativa na busca da objetividade. Tucídides buscava ir além do fenômeno isolado e vê-lo na perspectiva das leis causais
prevalecentes  sobre  a  História. Até  o  século  XVIII  essa  perspectiva  predominava  como  norma  para  os  trabalhos  de  cunho
historiográfico.  Para  Ranke,  contudo,  saber  e  narrar  como  as  coisas  efetivamente  ocorreram  mantinha-se  no  âmbito  dos
fenômenos  históricos,  a  que  o  historiador  deve  manter-se  tão  fiel  quanto  as  fontes  o  permitam.  Ranke  introduz,  assim,  uma
historicização  radical  da  exigência  de  objetividade,  vinculando-a  ao  tempo  experimentado  e  refletido  –  pelos  protagonistas
em seu tempo, pelos historiadores em seu tempo. A busca da objetividade, para Ranke, situa-se assim no contexto específico
da historiografia pesquisada (e de suas fontes). Distingue-se, dessa maneira, da concepção de Droysen, que vê na justiça, na
consciência moral
[7]
, o que interessa: “Nossa ciência não pretende que seu método de pesquisa seja o único científico. [...] O
melhor renome do historiador não é a “objetividade”. Sua justiça o é, na medida em que busca compreender (a história)”
[8]
.
Ranke não descarta a consciência moral. De modo algum. Sua exigência de rigor e de equilíbrio responde à demanda do
tempo e à formação de que é tributário. A justiça deve ser praticada pelo historiador com respeito a todos os protagonistas e a
todas as ações quando se dedique a pesquisar o passado. As formas que a investigação pode extrair do tempo passado pelo
olhar  perscrutador  do  historiador  são  inúmeras.  Diante  de  uma  grande  variedade  de  aspectos  possíveis,  Ranke  privilegia  o
“necessário”  –  ou  seja,  aquilo  que  se  deve  saber  de  cada  objeto,  evento,  questão,  tema,  problema  investigado
[9]
.  Para
alcançar relevância presente, esse conhecimento depende da forma da sua apresentação historiográfica. A qualidade literária e
estilística da narrativa traz a dimensão artística ao argumento científico construído pela pesquisa. Uma não pode dispensar a
outra. Opor beleza a verdade, para Ranke, não faz sentido. A polêmica em torno dessa questão parece-lhe vã. Em sua crítica
ao romancista escocês Walter Scott, afirma que “o trazido pela História é mesmo mais bonito e certamente mais interessante
do  que  a  ficção  romântica”
[10]
. A  qualidade  substantiva  da  pesquisa  prevalece  sobre  os  recursos  estilísticos,  mas  não  os
pode dispensar. Para Ranke, mesmo que nenhum historiador possa pretender ser superior a Tucídides, todo historiador tem sua
grandeza  medida  por  sua  capacidade  de  escrever,  narrar,  no  horizonte  de  seu  tempo,  uma  “grande  história”.  O  quanto  isso
tenha de polêmico e de difícil sabe todo aquele que se debruça sobre a história e seus (des)caminhos.

Baixar 1.4 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   132




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal