A constituição da História Como Ciência


Lucien Febvre (1878-1956)



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
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Lucien Febvre (1878-1956)
Alexandre Avelar e Marcos Lopes
O diabo empalidece quando se depara com aquele que possui a verdade do seu lado.
Emil Cioran
No  decorrer  de  um  Curso  de  graduação  em  História,  o  estudante  será  guiado  por  algumas  noções  teórico-metodológicas
fundamentais à formação de historiador. Ao eleger um tema de estudos, diante das exigências do trabalho final, deverá abordá-
lo  a  partir  de  problemas  previamente  formulados,  fazendo  com  que  a  sua  pesquisa  responda  a  questões  pertinentes  às
singularidades  de  seu  objeto,  não  se  limitando,  dessa  forma,  ao  mero  exercício  narrativo  de  acontecimentos  ou  ações
espetaculares. Sua abordagem será tanto mais histórica quanto mais estiver atento à totalidade da realidade social. Em meio a
seu  aprendizado,  ele  não  poderá  ignorar  os  elementos  socioeconômicos  e  culturais  que  dão  forma  à  vida,  bem  como  os
aspectos que, tomados coletivamente, explicam visões de mundo. Portanto, os sistemas de crenças do passado não escaparão à
sua  análise.  Apreender  uma  realidade  em  suas  distintas  configurações,  atentando-se  ainda  para  as  interconexões  que  se
estabelecem  entre  elas,  demanda,  ao  aprendiz,  a  ampliação  dos  contatos  com  as  demais  áreas  do  conhecimento,  retirando  a
História do seu isolamento teórico, tornando-a aberta ao diálogo com as demais ciências sociais. Nosso estudante precisará
estar  atento  às  complexas  relações  entre  os  tempos  históricos  e  a  subjetividade  de  suas  próprias  dúvidas,  de  suas  certezas,
enfim, a todas as circunstâncias que fazem dele um agente histórico datado. Ciente disso, correrá menos riscos de enxergar no
passado  dilemas  que  lhe  são  contemporâneos,  certezas  que  lhe  são  atuais. As  representações  do  passado  a  que  dará  forma
referem-se a mundos já desaparecidos, detentores de suas marcas específicas. Perceber os perigos da livre transposição de
valores culturais no tempo será quase uma salvação, a garantia de não cometer delitos irremissíveis.
Esse  manual  do  bom  historiador  oferece  uma  via  de  acesso  tecnicamente  segura  às  sociedades  do  passado,  conforme  os
princípios  formulados  por  Lucien  Febvre  ao  longo  da  primeira  metade  do  século  XX.  Nem  mesmo  as  mais  arraigadas
correntes  pós-modernas,  que  desafiam  os  postulados  racionalistas  do  conhecimento  histórico,  parecem  se  afastar
completamente das noções que apontamos como tão importantes para que nosso futuro historiador seja visto pelos pares como
um profissional do ofício. Esses pressupostos atuam como instrumentos de distinção intelectual, como os recursos que, uma
vez  adquiridos,  transformam  os  aprendizes  em  investigadores  devidamente  aparelhados  para  a  pesquisa  das  realidades
históricas  do  passado.  Em  síntese,  todas  as  questões  assinaladas  foram  formuladas  por  Lucien  Febvre  e  ocuparam,  por
décadas, a mente de um historiador seriamente comprometido com o difícil trabalho de renovação dos estudos históricos. Se
hoje tais questões nos parecem até mesmo triviais, de forma alguma o eram no início do século XX, quando ainda se sentiam
os  ecos  da  Escola  Metódica  e  de  sua  crença  quase  absoluta  no  primado  da  descoberta  e  da  descrição  dos  fatos  como
compromisso do historiador. Desse modo, reavaliar o pensamento histórico de Febvre significa, antes de tudo, recompor os
caminhos  pelos  quais  a  história  rompeu  com  as  amarras  conceituais  e  metodológicas  herdadas  da  historiografia
oitocentista
[366]
.
Ao  longo  de  aproximadamente  sessenta  anos  de  intensa  atividade  intelectual,  o  historiador  francês  produziu  uma  obra  de
vastíssima amplitude, tanto do ponto de vista quantitativo quanto do temático
[367]
. Como afirmou Jacques Revel, o conjunto
de  textos  deixado  por  Febvre  parece  que  ainda  não  foi  objeto  de  um  estudo  exaustivo,  e  a  natureza  fragmentada  de  seus
trabalhos dificulta ainda mais o intento de uma análise de mais larga amplitude, por prejudicar a identificação dos traços de
unidade  de  suas  reflexões.  Sua  intensa  atividade  de  crítico  polemista  e  vigoroso  defensor  do  que  considerava  serem  os
caminhos de renovação da prática historiadora fez com que inscrevesse sua marca nos rumos da historiografia ocidental do
século XX. Essa avaliação, praticamente consensual entre os analistas do seu legado intelectual, não fez com que Febvre fosse
um  autor  de  fácil  assimilação.  Para  Denis  Crouzet,  por  exemplo,  sua  escrita  sinuosa,  difícil  e  cheia  de  bifurcações
transformou-o  em  um  autor  pouco  lido  e  seguido  e,  ainda,  precariamente  referenciado  como  paradigma  analítico
[368]
.  José
Carlos  Reis  fala  de  Febvre  como  o  “mais  agressivo”  e,  ao  mesmo  tempo,  o  “mais  ilustre  desconhecido”  representante  dos
Annales
[369]
, o que, sem dúvida, é um argumento muito difícil de sustentar. Opinião distinta é defendida por Jacques Revel,
para  quem  “ele  (Febvre)  é,  com  efeito,  em  sua  geração,  [...]  aquele  cuja  influência  mensurável  foi  a  mais  imediatamente


perceptível sobre as duas gerações de historiadores que o seguiram”
[370]
. E, quando se fala em sua influência, não se pode
desconsiderar  o  instrumento  mais  eficaz  que  lhe  permitiu  exercê-la.  Segundo  a  análise  de  Wallace  Kirsop,  Lucien  Febvre
tornou-se,  aos  cinquenta  anos,  o  coeditor  de  uma  revista  com  pretensões  nacionais,  e  até  mesmo  internacionais,  o  que
certamente  não  selou  o  fim  de  seus  outros  trabalhos  ou  o  término  de  suas  pesquisas  individuais
[371]
.  Os  detalhes  dessa
história  foram  descritos  pelo  próprio  Febvre.  Por  volta  de  1919  ele  concebera  o  plano  de  uma  revista  internacional  de
História Econômica a ser dirigida por Henri Pirenne, pela respeitabilidade do nome do historiador belga. O próprio Febvre
incluía-se na empresa, mas como secretário-geral do periódico, o que deveria significar que o papel de Pirenne seria apenas
honorífico. Involuntariamente, o historiador belga ajudou a sepultar o projeto, entregando-o a estudos de viabilidade por parte
da  burocracia  de  Genebra.  Tempos  depois,  Bloch  procurou-o  com  um  plano  de  ressurreição  do  projeto  editorial  primitivo.
Diminuindo  o  escopo,  o  periódico  foi  remodelado  para  uma  abrangência  nacional,  mas  com  a  explícita  vocação  de  abrigar
colaborações vindas de todo o mundo. Nascia, assim, a revista Annales d’Histoire Économique et Sociale, sob inspiração e
comando de Marc Bloch, com Febvre na retaguarda, reservando para si a condição de mero colaborador entusiasmado. Mas
Bloch não conseguiu sacramentar editorialmente o plano. Um pouco de política dissolveu rapidamente os coágulos existentes,
aliás, território sempre muito bem-dominado por Febvre
[372]
. O desenrolar dos acontecimentos encarregar-se-ia de revelar a
quem pertenceria o protagonismo dessa experiência.

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