A constituição da História Como Ciência



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Homo ludens: o elemento lúdico da cultura
Quando Huizinga abordou o problema do puerilismo  em Nas sombras do amanhã, ele fez referência ao interesse de tratar
da questão de maneira mais profunda numa outra ocasião. “Ao mencionarmos a contaminação do jogo e da seriedade na vida
moderna, tocamos num problema fundamental da cultura que não pode ser tratado neste livro. Num futuro não muito distante,
espero tratar este problema em outro trabalho.” Foi o que ele fez, enfim, em 1938, ao lançar o livro Homo ludens. O livro não
tratava nem de uma história do jogo, nem de uma história da ideia de jogo, mas, sim, de uma morfologia do Jogo, um estudo
do  jogo  como  estrutura  que  se  manifestava  em  todas  as  esferas  da  cultura  humana
[340]
.  Se  em O  outono  da  Idade  Média
Huizinga havia descoberto a importância do jogo como uma energia formativa da cultura medieval – como a forma do homem
evadir-se na esfera do sonho, no mundo artificial do “nobre jogo” do ideal cavaleiresco –, e se em Nas sombras do amanhã a


perversão das fronteiras entre jogo e seriedade era um dos sintomas mais fundamentais da crise da cultura ocidental, juntos
esses dois estudos levaram-no a perceber a “importância fundamental do fator lúdico para a cultura”
[341]
Homo ludens, era,
portanto, o passo seguinte nessa reflexão. Aqui importava refletir sobre o jogo como um fator que acompanhava e penetrava a
cultura desde sua origem. “O objeto do nosso estudo é o jogo como forma específica de atividade, como forma significante,
como função social. [...] Procuraremos compreendê-lo como fator cultural da vida”
[342]
.
O  jogo  era,  para  Huizinga,  uma  “categoria  vital  absolutamente  primária”,  presente  tanto  no  mundo  animal,  quanto  no
humano. “O jogo é fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas definições menos rigorosas, pressupõe sempre a
sociedade humana; mas os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica”. Em razão da “realidade
do jogo” ultrapassar a esfera da vida humana, seria impossível que ele tivesse seu fundamento em qualquer elemento racional.
A sua existência do jogo, portanto, não estaria ligada “a qualquer grau determinado de civilização, ou de qualquer concepção
do  universo”,  mas  à  própria  natureza  supralógica  da  condição  humana.  “Reconhecer  o  jogo  é,  forçosamente,  reconhecer  o
espírito,  pois  o  jogo  não  é  material”
[343]
.  Mesmo  no  mundo  animal,  ele  ultrapassaria  os  limites  da  realidade  física,  como
algo  que  era  da  ordem  da  superabundância,  do  supérfluo.  “Se  brincamos  e  jogamos,  e  temos  consciência  disso,  é  porque
somos mais que simples seres racionais, pois o jogo é irracional
[344]
.
Qualquer  um  que  tentasse  definir  o  que  era  o  jogo  enfrentaria,  segundo  Huizinga,  uma  grande  dificuldade.  A  “absoluta
independência do conceito jogo”, que não se deixava apreender nem em termos lógicos, biológicos nem estéticos, imporia o
reconhecimento de que o jogo era um “fenômeno irredutível”. “O conceito de jogo deve permanecer distinto de todas as outras
formas  de  pensamento  através  das  quais  exprimimos  a  estrutura  da  vida  espiritual  e  social”
[345]
.  O  jogo  não  se  explicaria
nem pela antítese entre sabedoria e loucura, nem pela oposição entre a verdade e a falsidade, nem pelas noções de bem e de
mal.  Nem  mesmo  a seriedade,  que  se  aceitava  facilmente  como  conceito  diametralmente  oposto  ao  jogo,  daria  conta  de
explicar  o  jogo  como  “realidade  autônoma”.  “Caso  pretendamos  passar  de  o  ‘jogo  é  a  não  seriedade’  para  ‘o  jogo  não  é
sério’,  imediatamente  o  contraste  tornar-se-á  impossível,  pois  certas  formas  de  jogo  podem  ser  extraordinariamente
sérias”
[346]
. Diante dessa irredutibilidade do conceito de jogo, só restaria destacar as suas características formais: a) o jogo
era uma atividade livre, conscientemente tomada como “não séria” e exterior à vida habitual; b) uma atividade desligada de
todo  e  qualquer  interesse  material;  c)  ele  era  praticado  até  o  fim  dentro  de  limites  espaciais  e  temporais  próprios,  segundo
certa ordem e regras; d) envolvia uma comunidade de jogadores; e) a essência do jogo era o divertimento
[347]
.
A partir dessas características Huizinga acreditava que o jogo, como fenômeno cultural, era um complemento da realidade,
um adorno. “O jogo não é vida corrente, nem ‘vida real’. Trata-se de uma evasão da vida ‘real’ para uma esfera temporária de
atividade, com orientação própria”
[348]
.  Na  condição  de complemento da realidade, o jogo poderia ser subtraído sem que
fosse eliminada também a própria vida. Ela seria, no entanto, mais séria, inerte, ordinária
[349]
. “A vida social reveste-se de
formas  suprabiológicas  que  lhe  conferem  uma  dignidade  superior  sob  a  forma  de  jogo,  e  é  por  meio  desse  último  que  a
sociedade  exprime  a  sua  interpretação  da  vida  e  do  mundo”
[350]
.  Como função  significante,  o  jogo  encerrava  um
determinado  sentido  que  transcenderia  as  necessidades  imediatas  da  vida.  Era  por  meio  do  jogo,  enquanto ficção  social  e


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