A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Nas sombras do amanhã: a crítica à cultura moderna
“Vivemos num mundo dementado. [...] Para ninguém seria surpresa se amanhã a loucura cedesse ao frenesi, e este deixasse
a  nossa  pobre  Europa  num  estado  de  torpor,  de  perturbação  mental,  com  engenhos  ainda  a  rodar,  bandeiras  tremulando  ao
vento [....] mas o espírito morto”
[321]
. Com essas palavras Huizinga iniciava o seu “diagnóstico das enfermidades espirituais
de nosso tempo”. Quando Huizinga lançou Nas sombras do amanhã em 1935, a ideia de que a Europa encontrava-se imersa
em uma “violenta crise da civilização” parecia estar difundida por todos os lados. “Nestes últimos anos todo mundo fala de
inumeráveis males e iminente ruína da civilização”
[322]
. Para Huizinga, o sinal de alarme para milhares de pessoas em todo o
mundo teria sido dado pelo livro de Oswald Splenger, O declínio do Ocidente, de 1918
[323]
. Com sua visão fatalista de que
a  decadência  da  civilização
[324]
  era  um  processo  inexorável,  inscrito  na  própria  natureza  orgânica  da  vida  histórica,
Spengler  teria  arrancado  dos  homens  de  seu  tempo  “uma  fé  desarrazoada  na  natureza  providencial  do  progresso”,
familiarizando-os “com a ideia de um possível declínio da cultura atual”
[325]
. Sem necessariamente se converter às ideias de
Spengler sobre o destino inelutável do Ocidente, muitos de seus leitores aprenderam a ver os sintomas de desconjuntamento de
seu  próprio  tempo  como  parte  de  um  processo  cultural  de  “crise”  muito  mais  amplo,  em  que  o  primado  da  técnica,  do
materialismo e das massas poderia acarretar em uma temível “esterilidade espiritual”.
Evitando enredar-se nas tramas do fatalismo histórico de Spengler, Huizinga se colocava entre aqueles que apontavam as
faltas  de  seu  tempo,  não  sabiam  como  remediá-las,  mas  que  se  “esforçavam  por  compreender  e  se  prontificavam  a
sofrer”
[326]
.“Nós não queremos perecer. Este nosso mundo, apesar de todas as suas misérias, é por demais belo para permitir
que a humanidade o mergulhe nas trevas da degradação humana e da cegueira do espírito”
[327]
. Como historiador, Huizinga
acreditava que uma visão sóbria da crise representaria uma oportunidade para encontrar saídas para o processo de decadência
cultural. “Se queremos salvar esta cultura [...] torna-se, sem dúvida, necessário que todos os viventes compreendam bem até
que ponto a decadência já avançou”
[328]
.
Compreender  a  crise  em  toda  a  sua  complexidade  era,  sem  dúvida,  o  ponto  de  partida  de Nas  sombras  do  amanhã.
Contudo, esse livro não foi o único no qual o problema da “crise da civilização” foi abordado. Ao longo da década de 1930
até  sua  morte  em  1945,  Huizinga  dedicou  ao  tema  uma  série  de  conferências  e  artigos,  como Discurso  sobre  o  futuro  do
espírito europeu  (1933), O homem e a cultura (1938) e Condições para a recuperação da civilização (1940), assim como
também os livros Homo Ludens (1938) e Mundo em ruínas (escrito em 1943 e publicado postumamente em 1945). Mesmo um
pouco  antes,  em  1927,  os  ensaios  desse  historiador  sobre  a  civilização  norte-americana,  com  sua  crítica  ao  processo  de


mecanização da cultura, já davam mostras de sua preocupação com as condições e o “futuro” da civilização ocidental
[329]
.
“A Europa hoje se encontra exposta a mais de uma força que ameaça mandá-la de volta ao barbarismo”
[330]
. Renúncia ao
juízo crítico e ao sentido de responsabilidade, abandono dos valores da verdade e da sobriedade intelectual, crise e abuso da
ciência,  irracionalização  do  pensamento  e  culto  da  vida,  decadência  das  normas  morais, hipernacionalismo,  perversão  do
heroísmo,  superstição  e puerilismo. Todos esses novos fatores da vida moderna teriam contribuído, segundo Huizinga, para
construir o quadro de uma cultura “saturada de falsa ilusão e de charlatanismo”. “Esse espectro, que surge diante dos nossos
olhos  com  o  nome  de  cultura,  tem  ainda  qualquer  direito  a  esse  nome?”
[331]
  Para  Huizinga  só  haveria  cultura  “quando  o
domínio  sobre  a  natureza  no  campo  material,  moral  e  espiritual  assegura  um  estado superior  e melhor  do  que  aquele  que
adviria  das  condições  naturais  existentes,  estado  cujas  características  se  resumem  num  harmonioso  equilíbrio  de  valores
materiais  e  espirituais  e  num  ideal  mais  ou  menos  homogêneo,  para  cuja  consecução  convergem  as  várias  atividades  da
comunidade”
[332]
.
Avaliada  a  partir  de  cada  um  desses  requisitos  de equilíbrio, aspiração  e domínio da natureza,  a  cultura  moderna  –  um
“monstro sem forma” – falharia em todos. Se em relação ao controle das forças naturais não havia outra época que poderia
apresentar maiores avanços, no campo do espírito em quase tudo a cultura fracassava em demonstrar um genuíno equilíbrio e a
capacidade de aspirar à concretização de objetivos encontrados para além do universo da esfera material e do egoísmo. “As
manifestações contemporâneas que nos rodeiam parecem excluir toda a ideia de um autêntico equilíbrio”
[333]
. Mesmo que no
campo do conhecimento e da técnica se pudesse falar em termos de “progresso”, e no campo econômico e político houvesse
uma  certa  vitalidade,  o  caráter  original  da  “barbarização”  da  cultura  moderna  estaria  precisamente  no  fato  de  que  este
processo  seria  capaz  de  conviver  em  meio  aos  maiores  avanços  técnicos  e  organizacionais.  “O  próprio  barbarismo  pode
aproveitar-se de todas estas perfeições técnicas e, dispondo delas, torna-se ainda mais poderoso e despótico”
[334]
.
Todos  os  sintomas  de  crise  da  cultura  ganhavam  um  sentido  mais  amplo,  segundo  Huizinga,  quando  agrupados  sob  o
conceito  de puerilismo.  Com  esse  conceito  ele  acreditava  ser  possível  contemplar  a  raiz  de  todos  os  fatos  culturais  e
sociológicos  que  haviam  marcado  o  seu  diagnóstico  sobre  a  “enfermidade  espiritual”  de  seu  tempo.  “Por puerilismo
chamaremos nós à atitude de uma comunidade cujo comportamento é mais imaturo do que o estado das suas faculdades críticas
e  intelectuais  poderiam  deixar  supor,  que,  em  vez  de  fazer  do  jovem  um  homem,  adapta  a  sua  própria  conduta  à  do
adolescente”
[335]
. Essa mentalidade de “adolescência permanente” da cultura “moderna” estaria marcada por uma confusão
fundamental entre os limites que separavam jogo e seriedade. Se, por um lado, a vida atual outorgaria uma “grave seriedade”
a  ocupações  que,  se  bem  consideradas,  deveriam  ser  qualificadas  de  fúteis  e  infantis,  por  outro,  atividades  de  “verdadeira
importância” seriam tratadas com “os instintos e os gestos do jogo”. “A característica essencial de todo verdadeiro jogo [...] é
que  chega  um  momento  em  que  ele cessa.  Os  espectadores  vão  para  sua  casa,  os  jogadores  tiram  as  suas  máscaras,  o  jogo
terminou. E é aqui onde aparece a doença do nosso tempo: hoje em dia o jogo em muitos casos não termina nunca”
[336]
.
Caso se admitisse a chance de regeneração da cultura, ela não estaria no “restabelecimento” das relações internacionais,
nem no Estado, nem numa nova configuração socioeconômica. Para Huizinga uma nova cultura só poderia surgir de uma nova
prática moral. “É a prática moral das comunidades e dos indivíduos que, sozinha, poderá curar nosso pobre mundo, tão rico e
mesmo assim tão instável”
[337]
. A purificação da cultura impunha uma nova askesis (ascetismo), um “espírito novo” capaz de
levar adiante – no caminho da abnegação, da simplificação e da renúncia ao egoísmo – a “voluntária e consciente eliminação
do supérfluo e do danoso”
[338]
. “Esta herança secular chamada civilização ocidental foi-nos confiada para a transmitirmos às
futuras  gerações,  preservada,  protegida,  se  for  possível,  enriquecida  e  melhorada;  empobrecida  se  assim  tiver  de  ser;  em
qualquer dos casos tão pura quanto nos é possível conservá-la”
[339]
.

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