A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
conhecimento científico: seria a História “uma disciplina tão distante das ciências naturais nos problemas, nos métodos, na
natureza dos conceitos e na certeza dos seus resultados”, de fato uma ciência?
[264]
Diante desse questionamento, parecia haver apenas duas alternativas que, para Huizinga, eram igualmente problemáticas: ou
negar  à  História  o  estatuto  de  ciência  ou  modificar  os  objetivos  e  métodos  dessa  disciplina,  fazendo-a  assumir  as
características  de  uma  “ciência  exata”  capaz  de  estabelecer  “leis  históricas  de  validade  geral  equivalentes  às  das  ciências
naturais”. A última alternativa, que consistia em formular uma “nova história científica”, estaria representada na obra de Karl
Lamprecht, História da Alemanha (1891). Sustentando que a tarefa da pesquisa histórica deveria ser o estabelecimento de leis
gerais de ordem causal, e que a História deveria se transformar em uma “psicologia social”, Lamprecht teria representado o
ingresso do “método positivista na investigação histórica”
[265]
.


Com a intenção de delinear uma severa crítica ao positivismo, assim como traçar uma clara divisão entre a História e as
ciências naturais, Huizinga encontrou apoio na “moderna teoria independente das ciências do espírito”, espectro sob o qual
reuniu os neokantianos Wilhem Windelband e Henrich Rickert, além de Wilhem Dilthey, Georg Simmel e Eduard Spranger.
Esses filósofos, segundo ele, haviam conseguido superar “o esquematismo vazio e os frágeis conceitos de K. Lamprecht”
[266]
e com isso teriam libertado a história da “soberania das ciências naturais”. Com eles, Huizinga afirmava ter aprendido que a
vida  histórica  nunca  poderia  ser  completamente  reduzida  a  conceitos  gerais  e  que  o  reconhecimento  de  uma  certa
singularidade  em  todo  evento  histórico  –  fora,  portanto,  de  regras  sistemáticas  preconcebidas  –  deveria  permanecer  a
principal atividade do historiador. “A tarefa principal da ciência histórica é a indagação dos acontecimentos particulares não
como tipos ou casos particulares de uma categoria geral, mas sim por sua importância intrínseca”
[267]
.
Não foi, no entanto, apenas com o intuito de refutar o “positivismo” que Huizinga invocou os filósofos alemães da “teoria
das ciências do espírito”. Se esses filósofos haviam ampliado o conceito de ciência a ponto de este incluir também a dimensão
subjetiva do trabalho do historiador, restava ainda a tarefa de refletir sobre como essa subjetividade operava na formação do
conhecimento  histórico.  Foi  pelo  caminho  do  “elemento  estético  das  representações  históricas”  que  Huizinga  explorou  essa
abertura. “Não é a última vez que irei citar os filósofos da história alemães, dado que me proponho a ressaltar a analogia entre
a  visão  que  tenho  tentado  alcançar  desde  um  ponto  de  vista  estético  e  os  êxitos  da  teoria  do  conhecimento”
[268]
.  Segundo
Huizinga, foi por intermédio dos resultados desses estudos epistemológicos que a relação fundamental entre história e arte foi
reconhecida  mais  claramente.  Se,  por  um  lado,  em  K.  Lamprecht  a  ideia  de  que  a  história  era  “arte”  servia  ao  propósito
derrogatório de anular o caráter científico dos estudos históricos que se dedicavam ao “singular e individual”, e, por outro, no
historiador  alemão  Ernst  Berheim,  o  “momento  artístico”  do  conhecimento  histórico  se  resumia  à  escrita  da  história  e  à
“aspiração  pela  bela  forma”,  para  Huizinga  a  dimensão  estética  do  conhecimento  histórico  era  entendida  como  o  elemento
principal de toda compreensão histórica.
Do conceito de representação na obra de Heinrich Rickert – que reconhecia a presença do elemento “estético” não somente
na escrita da História, mas também no “modo de captar o significado e o vínculo entre os fatos” –, Huizinga extraía a lição de
que  a  atividade  do  historiador  não  poderia  ser  compreendida  como  sendo  idêntica  a  uma  simples  concatenação  de  dados  e
fatos verificados criticamente. “O conhecimento histórico nunca é uma soma de noções cronológicas e políticas e a associação
de imagens presente na memória nunca é simplesmente uma adição”
[269]
.  Mais  do  que  um  mero  exercício  de  crítica  ou  de
exposição  descritiva,  a  representação  diria  respeito  ao  fato  de  que  toda  percepção  da  realidade  não  era  apenas  uma
reprodução, mas uma transformação da realidade em nome de sua compreensibilidade. Contra a crença do realismo histórico
de  que  seria  possível  reproduzir  o  passado  “tal  como  ele  realmente  aconteceu”,  Huizinga  afirmava  que  a  compreensão
histórica,  como  a  “atividade  psicológica”  própria  do  historiador,  envolvia  criar,  da  “realidade  imediata  e  já  vivida”,  a
“imagem teórica que chamamos história”. “O historiador nunca fotografa o passado: representa-o”
[270]
.
Huizinga concordava com W. Windelband quando este afirmava que, diversamente do pensamento natural-científico no qual
prevalecia a tendência para a abstração e para a explicação, no pensamento histórico a tendência era para a representação.
Caso a história quisesse “alcançar o seu objetivo, que é reviver o passado, deveria superar com consciência os limites do que
é  reconhecível  por  meio  de  conceitos  e  fazer  surgir  ante  os  olhos  do  leitor  um  conjunto  claro  de  representações,  em  outras
palavras, uma imagem” 
[271]
. Somente um observador muito superficial poderia analisar a interpretação histórica como uma
explicação puramente intelectual. Em todo estágio das atividades do historiador, na formação dos conceitos e na interpretação
dos  dados,  estaria  presente  o  uso  de  “funções  psíquicas”  que  estariam  muito  além  de  uma  “associação  de  ideias  puramente
lógicas”
[272]
.  Querer  banir  esses  elementos  não  racionais  que  a  ciência  histórica  utilizava  para  alcançar  seu  conhecimento
seria, segundo Huizinga, apenas uma exagerada tendência para a sistematicidade.
Pode-se  perguntar,  então,  se  existiria  uma  disposição  particular  que  se  teria  revelado  como  a  mais  favorável  para  o
desenvolvimento desse fator irracional da imaginação histórica – fator este considerado tão importante para a compreensão
histórica. A resposta, para Huizinga, era evidente: “a sensibilidade estética é a que melhor prepara o campo para a faculdade
da imaginação histórica”. Não era sua intenção, contudo, sustentar que o passado deveria ser estudado partindo da história da
arte  ou  que  somente  por  meio  das  expressões  artísticas  poder-se-ia  entender  a  “direção  do  espírito  no  tempo”.  Tratava-se,
antes,  “de  ver  refletidas  na  arte  imagens  obtidas  por  um  estudo  multiforme  da  tradição,  ou  de  vê-las  iluminadas  pela
arte”
[273]
. Enquanto indagava o passado, o historiador deveria observar a sua arte e ler sua literatura para aumentar a clareza
de sua representação. Nesse sentido, a compreensão histórica teria, para Huizinga, um caráter similar àquele de uma visão:
dizia respeito, em grande medida, à habilidade do historiador de evocar imagens nas quais o passado se apresentasse da forma
mais  autêntica  e  significativa  possível.  Sua  aposta  era  de  que  as  criações  artísticas  poderiam  contribuir  para  a  tarefa  de


“reviver” o passado ao ativar a sensibilidade do historiador para uma melhor compreensão dos fatos históricos
[274]
.
Diante dessa abertura para a dimensão não racional do conhecimento histórico, seria necessário preocupar-se com o fato de
que  um  interesse  estético  fortemente  desenvolvido  pudesse  prejudicar  a  pretensão  científica  do  conhecimento  histórico?  De
jeito nenhum, respondia Huizinga. Optar pelo estético, pela visualidade (aanschouwelijkheid) do passado, não implicava, em
nenhuma  instância,  a  abolição  da  dimensão  empírica  do  trabalho  do  historiador.  Huizinga  não  abria  mão  de  reforçar  que  a
tarefa  crítica  daquele  que  se  ocupava  do  estudo  do  passado  deveria  ser  tratada  como  uma  espécie  de  compromisso  moral:
antes  de  qualquer  outro  interesse,  inclusive  aquele  estético,  deveria  vir  o  interesse  ético  de  “reportar  a  verdade,  ou  pelo
menos o que ele entende por verdade”. E quanto mais o historiador se mostrasse consciente de “que somente dispõem de um
juízo estético”, tanto mais estaria próximo “do ideal da verdade objetiva que repousa em sua alma”
[275]
.
As conclusões sobre o elemento estético das representações históricas foram, em grande medida, o alicerce sobre o qual
Huizinga  formulou  sua  concepção  particular  da  tarefa  da  história  e  da  história  da  cultura,  em  particular
[276]
.  Da  aula
inaugural  de  1905  nasceu  não  somente  uma  crítica  às  noções  gerais,  aos  esquemas  de  desenvolvimento  e  às  “explicações”,
como também uma consciência dos riscos aos quais se expõem aqueles que confiam demasiadamente na própria sensibilidade
estética
[277]
. Quanto de sua inclinação para o aspecto visual do passado permaneceria, dependia da possibilidade de exercer
no  plano  prático  do  trabalho  de  historiador  as  conclusões  que  haviam  nascido  de  um  contato  intenso  com  o  neoidealismo
alemão na virada do século XIX para o XX.

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