A constituição da História Como Ciência


O elemento estético das representações históricas



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O elemento estético das representações históricas
Em  1905,  ao  assumir  a  cátedra  de  professor  de  História  na  Universidade  de  Groningen,  Holanda,  Johan  Huizinga  viu-se
diante  de  uma  árdua  tarefa.  Como  era  tradição  na  academia  holandesa,  os  novos  professores  deveriam  começar  a  sua
atividade  docente  por  uma  reflexão  e  uma  tomada  de  posição  pública  em  relação  aos  fundamentos  da  própria  disciplina  e
sobre a tarefa de seu ensinamento. Logo no começo de sua aula, Huizinga se questionava se não seria mais apropriado fazer
considerações  históricas  de  ordem  geral  no  final  de  uma  carreira  acadêmica,  depois  de  uma  “longa  e,  às  vezes,  dolorosa
jornada”,  do  que  numa  aula  inaugural.  Especialmente  no  caso  da  disciplina  histórica,  “maturidade  é  um  pré-requisito”,
afirmava.  Em  seu  caso,  todavia,  a  aula  inaugural  não  significava  um  desafio  apenas  no  sentido  de  exigir  uma  reflexão
“prematura” (ou imatura) sobre os traços gerais do conhecimento histórico, mas também, na medida em que a sua trajetória até
chegar a esse cargo havia sido de tal forma singular, que lidar com os problemas da compreensão histórica requeria, naquele
momento, um estudo de grande fôlego
[255]
.
Huizinga não era um historiador de profissão. Entre a sua infância permeada pelas cores do passado pátrio, por brasões e
cavaleiros  medievais,  até  o  momento  de  sua  posse  no  cargo  de  professor  de  História  em  Groningen,  um  longo  intervalo  o
havia  separado  dos  problemas  do  conhecimento  histórico.  Durante  a  sua  juventude  ele  havia  se  dedicado  aos  estudos
linguísticos
[256]
  e  orientais  e  era  nessas  áreas  que  ele  esperava  obter  reconhecimento  acadêmico.  Entretanto,  por  questões
pessoais e por influência de seu professor P.J. Blok, ao terminar seu doutorado em 1897, Huizinga havia se tornado, sem muito
entusiasmo, professor de História na Escola Superior de Haarlem. Em relação a esses anos de magistério, ele dizia: “eu era
agora um professor de História, mas de maneira nenhuma um historiador”
[257]
. Segundo sua autobiografia Meu caminho para
a  história,  escrita  em  1943,  tornar-se  efetivamente  um  historiador  foi  algo  que  se  deu  somente  com  a  sua  entrada  na
Universidade de Groningen. Só a partir desse momento ele se sentiu à vontade para afirmar que, depois de uma longa jornada,
seu “caminho em direção à história estava então completo”
[258]
.
O tema escolhido para a aula inaugural foi, segundo Huizinga, o resultado de uma “longa consideração”. Surgido de uma
intuição que havia tido ainda de forma indefinida, muito tempo antes, foi somente no momento em que teve que escrever a sua
aula inaugural que ele decidiu “colocá-la no papel”
[259]
. Assim, no momento em que teve a oportunidade de apresentar os
seus “progressos” a respeito do assunto, seu discurso se tornava, como ele próprio admitia, uma espécie de “confissão de fé”.
“Desde há muito tempo uma questão tem dirigido regularmente o rumo de meus pensamentos. [...] Não sei definir essa questão
de outro modo a não ser como o ‘elemento estético das representações históricas’”
[260]
. Interessava-lhe, então, desenvolver a
hipótese de que “a compreensão histórica é como uma visão, ou melhor, como uma evocação de imagens [...]”
[261]
. Não era,
no  entanto,  sobre  a  ambição  da  “bela  forma”  na  escrita  da  história  que  Huizinga  pretendia  refletir  em  sua  aula  inaugural.
Antes, tratava-se de perceber o desempenho da “fantasia e da percepção da beleza”, enfim, da imaginação histórica na busca
do historiador pela compreensão do passado.
Huizinga  estava  ciente  de  que  a  opção  por  um  tema  da  “teoria  da  história”  levava-o  a  adentrar  num  “campo  de  batalha”
onde o “alvoroço polêmico” tornava cada passo perigoso. Se durante um longo tempo a História havia seguido o seu caminho
sem ser incomodada, desde o final do século XIX esta ciência teria sido forçada “a dar satisfação a si mesma e aos outros da
legitimidade dos seus domínios e da independência da qual gozava”
[262]
. Huizinga se referia aqui ao debate historiográfico e
filosófico  em  torno  do estatuto  científico  da  história  que  havia  suscitado  discussões  acaloradas  na Alemanha  no  final  do
século  XIX,  sobretudo  em  torno  da  obra  do  historiador  Karl  Lamprecht
[263]
.  No  cerne  desse  debate,  que  ficou  conhecido
c o mo Methodenstreit,  estavam  questões  relativas  à  validade  e  à  especificidade  do  conhecimento  histórico  enquanto


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