A constituição da História Como Ciência


Johan Huizinga (1872-1945)



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página57/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
1   ...   53   54   55   56   57   58   59   60   ...   132
6
Johan Huizinga (1872-1945)
Naiara Damas Ribeiro
Em  abril  de  1952,  num  artigo  publicado  no  periódico  carioca O  Jornal,  José  Honório  Rodrigues  se  referiu  à  obra  do
historiador  holandês  Johan  Huizinga,  autor  celebrado  de O outono da Idade Média  (1919),  como  sendo  de  importância  tão
grande que dominaria toda uma época da historiografia como uma de suas figuras centrais. “Se não é o maior, o mais perfeito,
o  mais  completo,  é  certamente  o  mais  original  nos  métodos,  no  pensamento,  nos  caminhos  escolhidos.”  Fazendo  uma  breve
incursão  pelos  traços  mais  gerais  de  sua  obra  e  de  sua  biografia,  José  Honório  concluía  seu  texto  com  a  afirmação  de  que
quem  ainda  não  havia  “saboreado  Huizinga”,  não  possuía  “uma  das  melhores  fontes  de  enriquecimento  pessoal”,  sendo
melhor,  inclusive,  não  confessar  essa  falta  “em  voz  muito  alta”
[250]
. Apesar  de  todo  o  entusiasmo  com  que  José  Honório
tratou  a  obra  de  Johan  Huizinga,  seu  comentário  não  parece  ter  encontrado  um  terreno  fértil.  Dos  anos  de  1950  até  hoje,
ousamos afirmar que foram muito poucos os historiadores brasileiros que efetivamente “saborearam Huizinga”.
Não  é  difícil,  porém,  encontrar  uma  das  principais  razões  que  marcaram  o  reduzido  impacto,  se  é  que  houve  algum,  de
Huizinga dentro do universo acadêmico brasileiro e, em especial, no campo do conhecimento histórico. Dominada, como foi,
pelas  tensões  e  debates  que  marcaram  a  produção  histórica  francesa  em  torno  dos Annales,  a  ciência  histórica  das  últimas
décadas  no  Brasil  tendeu  a  avaliar  e  incorporar  temas  e  obras  historiográficas  a  partir  da  perspectiva  crítica  com  que  os
historiadores vinculados a essa tradição abordaram a história da historiografia. Como afirmou o historiador francês Jacques
Le  Goff  em  uma  entrevista  recente,  a  “influência  de  Huizinga”  foi  bloqueada  “em  grande  parte  pelo  nascimento  e
desenvolvimento  de  uma  forma  de  fazer  a  história  que  alcançou  grande  posteridade,  que  é  a  Escola  dos Annales
[251]
.
Incluído  dentro  de  uma  genealogia  que  parecia  narrar  a  “pré-história”  da Nouvelle  Histoire,  Huizinga  foi  reconhecido  pelo
pioneirismo com que “abriu as portas para uma história por fazer”, mas também julgado, por “suas práticas mais literárias do
que científicas”, como um “diletante” e um “esteta”
[252]
. Sob essa “etiqueta” ambígua que oscila entre a inovação e o atraso,
a  obra  de  Huizinga  acabou  por  se  tornar  entre  nós  um  item  pitoresco  e  inusitado,  uma  espécie  de  “ostentação  erudita”  para
poucos, como a publicação luxuosa, e cara, de O outono da Idade Média
[253]
 pela editora brasileira Cosac & Naify, apesar
de  todo  seu  mérito,  parece  sugerir  e  perpetuar.  Não  há  dúvidas  de  que,  dentro  desse  cenário,  Johan  Huizinga  permanece
essencialmente  um  desconhecido,  um  autor  sobre  quem  se  fala  de  maneira  genérica  como  “um  grande  historiador  do  século
XX”,  um  “inovador”  da  prática  historiadora,  sem,  contudo,  explorar  a  diversidade  temática  de  seu  trabalho  e  as
potencialidades  de  sua  abordagem  crítica  para  o  enfrentamento  de  alguns  dos  problemas  centrais,  e  persistentes,  do
conhecimento histórico.
No cenário mundial, um certo “retorno a Huizinga” foi marcado por inúmeras reedições, trabalhos e eventos comemorativos
a  partir  da  década  de  1990  que  pareciam  sugerir  que  o  modo  de  fazer  história  apresentado  por  ele  “continua  a  interessar  e
intrigar os historiadores”
[254]
. Huizinga parece ter ainda algo a dizer sobre a tarefa do historiador, pelas considerações que
desenvolveu no campo da história da cultura, como, por exemplo, sua atenção aos fatores estéticos do conhecimento histórico,
o reconhecimento da fantasia e da ilusão como fatores positivos e constitutivos da cultura, e o uso criativo de fontes históricas
pouco usuais em seu tempo. Esse rótulo de “atualidade” que sua obra pareceu ganhar ao longo dos últimos anos não se refere,
porém, apenas ao Huizinga de O outono da Idade Média, livro que lhe garantiu uma posição de destaque na historiografia do
século  XX.  Cada  vez  mais  ganham  relevo  as  reflexões  teóricas  de  Huizinga  sobre  os  limites  e  potencialidades  do
conhecimento histórico científico.
Para  compreender  quem  foi  Huizinga  não  é  suficiente,  entretanto,  apenas  “saborear” O  Outono,  ou  lê-lo  através  de  uma
determinada  “agenda  historiográfica”.  Huizinga,  em  toda  sua  complexidade  e  versatilidade,  deve  ser  encontrado  nas  suas
reflexões  teóricas  sobre  a  tarefa  da  história,  na  sua  concepção  de  que  a  história  da  cultura  deveria  ser  uma morfologia  do
passado,  na  maneira  como  refletiu  sobre  as  tensões  que  marcaram  a  emergência  e  a  consolidação  da  cultura  moderna  na
Europa, assim como nas considerações sobre o elemento lúdico da cultura. Cada um desses pontos será abordado aqui. Ao
final,  esperamos  apontar  para  o  fato  de  que,  se  há  algo  de  “atual”  em  Huizinga,  essa  é  a  atualidade  que  parece  sempre
acompanhar aqueles que, com suas reflexões, nos conduzem a ver a história e a escrita da história nos seus matizes, nas suas


contradições e antinomias, no seu vínculo fundamental com a vida e a cultura.


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   53   54   55   56   57   58   59   60   ...   132


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal