A constituição da História Como Ciência


O sistema filosófico de Croce



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O sistema filosófico de Croce
A obra de Croce, que abarca 84 livros, foi editada pela Editora Laterza, distribuído em quatro grandes blocos, a saber: 1)
Filosofia  do  espírito;  2)  Ensaios  filosóficos;  3)  Escritos  de  história  literária  e  política;  4)  Escritos  vários;  sendo  que  o
primeiro  bloco  é  composto  de  4  livros,  o  segundo  bloco  tem  14  livros,  o  terceiro  bloco,  o  mais  numeroso,  tem  44  livros,
ficando o quarto bloco com 14 livros
[231]
. Com efeito, Croce, além de numerosos estudos sobre aspectos particulares da vida
napolitana  e  italiana,  foi  historiador  que  abordou  as  grandes  questões  mundiais,  foi  crítico  e  historiador  da  literatura,  foi
filósofo  e  pensador  da  política  e  da  economia.  Sua  obra  imensa  e  relevante  terá  ficado,  em  parte,  insensível  à  literatura
moderna,  como  se  vê  nos  juízos  severos  que  emitiu  sobre  a  nova  literatura  italiana.  Sua  “brilhante História  da  Europa  no
século XIX” pareceu antiquada a Fernand Braudel
[232]
. Arnaldo Momigliano disse ter ele perdido o contato com a pesquisa
linguística moderna ao identificar a linguagem com a poesia
[233]
. Enfim, sob mais de um aspecto, a obra de Croce, como de
resto de qualquer autor, poderá ser arguida. Não se cuida aqui de inventariar os questionamentos à obra de Croce senão que
sustentar a ideia de que sua obra está apoiada numa estrutura filosófica, a filosofia do espírito, que ilumina e dá coerência ao
conjunto da intervenção intelectual de Croce nos variados campos em que ela se deu.
Croce nos deu um relato de seu itinerário intelectual e nele estabeleceu a centralidade dos seus estudos de Hegel, e ainda
mais  centralmente  de  Vico  na  constituição  de  sua  “filosofia  do  espírito”,  que,  antes  de  ser  vista  como  uma  sequência  da
filosofia de Hegel, deve ser vista como pregação, como negação de aspectos importantes da filosofia hegeliana
[234]
. O ponto
de partida da filosofia do espírito de Croce foram os estudos de Hegel que ele retomou a partir de 1905 e resultaram no livro
de 1906 O que está vivo e o que está morto na filosofia de Hegel, que é o instrumento a partir do qual ele vai estruturar o seu
projeto filosófico iniciado com a Estética, de 1902, que a partir daí passou a ser o primeiro livro de uma tetralogia que vai
incluir uma lógica, uma filosofia prática e uma síntese na forma da Teoria e história da historiografia . No centro do sistema
filosófico de Croce está a retomada da tese fundamental de Vico que, contra Descartes, afirmou que é apenas no âmbito das
coisas do espírito, no âmbito das realidades socioculturais, porque produtos da ação humana, que é possível o conhecimento
legítimo  e vero.  Isto  é,  que  só  é  possível  conhecer  aquilo  que  se  produziu.  Daí  que  haveria  uma  impossibilidade  real  de
conhecer as coisas da natureza, posto que essas são resultado da ação divina, só se permitindo conhecer por quem as criou. Na
palavra de Croce,
Vico  estabelece  que  o  verdadeiro  se  identifica  com  o  feito,  e  que  só  pode  conhecer  verdadeiramente  algo  aquele  que  o  tenha  feito:  daí  que  atribuísse  ao
homem  a  plena  capacidade  cognitiva  com  relação  ao  mundo  que  lhe  é  próprio,  ao  mundo  que  é  obra  sua,  remetendo  a  Deus  o  conhecimento  do  resto  do
mundo natural porque, sendo obra sua, ele é, deste modo, o único que pode conhecê-lo [...]
[235]
.
Tal como apropriado por Croce, essa tese resultou em recusa de todo naturalismo, mesmo o de Hegel, negando com isso a
“tríade Logos, Natureza e Espírito, concebendo como única realidade o Espírito, em que a natureza não é mais que um aspecto
da  dialética  do  espírito  mesmo”  [...]  resultando  na  “eliminação  cada  vez  mais  rigorosa  do  naturalismo,  no  realce  dado  à
unidade do espírito e – no âmbito da estética – no aprofundamento do conceito de intuição, que encontra hoje nova forma no
conceito de liricidade”
[236]
.
O acerto de contas com a filosofia hegeliana, que permitiu a Croce elaborar seu próprio sistema filosófico, está no livro


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