A constituição da História Como Ciência



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romance, publicado em 1920, buscou situar as Considerações de um apolítico, de Thomas Mann, tal como seu autor queria
que fosse entendido, afinal:
Trata-se de uma batida em retirada, em grande estilo – a última e a mais tardia de uma burguesia germano-romântica – realizada com a plena consciência de
sua  impotência  para  chegar  a  qualquer  resultado  [...]  com  o  pleno  discernimento  também  do  caráter  espiritual  malsão  e  imoral  de  qualquer  simpatia  em
relação ao que está destinado a morrer
[208]
.
Se tivesse vivido mais, é possível que Max Weber se aproximasse de posição semelhante à de Thomas Mann. Como ele,


Weber tinha suficientes grandeza moral e lucidez para mudar de posição, reconhecer equívocos, arrostar o conformismo e as
conveniências. Gabriel Cohn em síntese notável viu assim a situação de Max Weber: ele
procurou sempre fazer frente ao grande dilema a que seu pensamento o conduzia: aquele entre a crítica que se traduz na ação e a resignação que se traduz
no conhecimento neutro nos seus resultados, vale dizer, disponível para quaisquer fins. Talvez se possa sustentar que ele incorporava algo como o “máximo
de consciência possível” nos quadros do pensamento liberal-burguês de sua época, na qual ele aparecia como uma espécie de Maquiavel tardio, que enfatiza
tanto mais a noção de virtù quanto mais a de fortuna é substituída pela de destino
[209]
.
Há várias e importantes semelhanças entre as biografias de Thomas Mann e Max Weber. Filhos de famílias cultas e ricas
tiveram,  ambos,  mães  que  exerceram  decisiva  influência  na  vida  de  seus  filhos,  tendo  ainda,  os  dois,  irmãos  rivais  que
atuaram nas mesmas áreas que eles. No caso de Max Weber, seu irmão Alfred Weber (1868-1958) foi economista e sociólogo
de  renome,  compartilhando  com  o  irmão  ainda  a  mesma  amante,  Else  Jaffé  von  Richthofen  (1874-1973)
[210]
.  Max  Weber
disse que sua obra foi construída à sombra e em diálogo com dois grandes autores: Marx e Nietzsche. Na biografia de Max
Weber, escrita por sua esposa Marianne Weber (1870-1958), está que o significado das obras de Marx e Nietzsche assumiu
para Weber a forma de um duplo desafio:
Enquanto  Karl  Marx  se  esforçava  pela  Revolução,  em  nome  de  ideais  democráticos,  Friedrich  Nietzsche,  ao  contrário,  exigia  o  governo  de  poucos  e  a
formação de um poderoso e nobre tipo humano que, com a afirmação de si mesmo, encontraria plena satisfação neste mundo. Ainda que as principais ideias
desses dois grandes pensadores modernos apontem para direções distintas, elas têm algo em comum: ambos trataram de destruir as valorações baseadas na
diversificada e contraditória mescla da “civilização cristã”. Então, em que poderia confiar o homem moderno, particularmente o jovem?
[211]
Sem nenhuma simpatia especial seja por Bismarck, seja pela dinastia guilhermina, ao contrário, creditando a Guilherme II
grande  parte  de  responsabilidade  pelos  desastres  da  guerra  de  1914  a  1918,  Weber  se  colocou  a  tarefa  de  educar  a  nação,
educar sua juventude e suas elites no sentido da salvação da Alemanha. Mas educar para que, para onde levar a Alemanha em
crise, derrotada e sob ameaça de colapso? Certamente não para o socialismo, pelo menos o socialismo tal como esteve sendo
construído na Rússia. Por outro lado, não há ilusões na visão de Max Weber sobre o capitalismo. Diz ele: “constitui um erro
atribuir  ao  capitalismo  moderno,  tal  como  existe  no  Ocidente,  afinidades  com  a  democracia  e  a  liberdade.  Trata-se,  pelo
contrário, de perguntar como é possível, a longo prazo, manter em regime capitalista a democracia e a liberdade”
[212]
.
Com efeito, é com pessimismo implacável que Max Weber vê o desenvolvimento do capitalismo e de qualquer outra ordem
social burocrática. A burocracia como expressão ubíqua da racionalização moderna é a “jaula de aço”, é a “nova servidão”
contra  as  quais  não  há  remédio  que  não  a  valorização  de  uma  ética  heroica  e  exemplar  do  gesto  autêntico  e  insubornável.
Weber, como Marx, reconheceu a tragédia da dominação burguesa o quanto de inautêntico, de desumano, de amesquinhado ela
impunha, o quanto produzia de “vida danificada”, como disse Theodor Adorno (1903-1969). Weber, ao contrário de Marx,
não  podia  convocar  a  revolução.  Restou-lhe  a  resignação  diante  da  avassaladora  presença  da  racionalização.  Max  Weber
morreu  em  1920.  É  por  essa  mesma  época  que  seu  grande  contemporâneo  e  companheiro  de  classe  social,  de  posição
intelectual,  política  e  ideológica,  Thomas  Mann,  começa  a  mudar,  a  voltar-se  para  a  esquerda,  para  a  radical  defesa  da
dominação e da plena emancipação humana.
Tem semelhanças com as duas figuras destacadas aqui, Max Weber e Thomas Mann, o filósofo italiano Benedetto Croce.
Também  ele  filho  de  uma  família  rica  e  culta,  também  ele  voltado  para  a  vida  intelectual,  também  ele  foi  precipitado  no
coração  da  luta  de  classes,  também  ele  foi  obrigado  a  tomar  posição  nos  quadros  de  uma  situação  histórica  tensionada  por
disputas extremadas e exigentes.
Se a “via prussiana” foi a consagração do intervencionismo e autoritarismo estatal, a Revolução Passiva foi a vitória do
transformismo,  da  manipulação.  Não  se  pense,  contudo,  que  no  processo  de Risorgimento  não  houvesse  setores,  como
simbolicamente  representado  pelo  historiador  e  professor  Francesco  De  Sanctis,  mestre  decisivo  de  Croce,  efetivamente
comprometidos  em  transformar  a  unificação  da  Itália  no  ponto  de  partida  para  a  construção  da  nação  e  sua  plena
democratização,  do  ponto  de  vista  dos  interesses  populares.  Francesco  de  Sanctis  ensinou  a  Croce  que  a  literatura  é  uma
forma  de  expressão  privilegiada  das  grandes  questões  do  seu  tempo,  é  explicitação,  no  plano  da  forma,  de  conteúdos
históricos-materiais concretos por meio da imaginação. De Sanctis, com sua história da literatura italiana,  publicada  entre
1870-1871,  traduziu  no  plano  da  expressão  literária  o  fundamental  da  filosofia  hegeliana,  como  lógica  e  fenomenologia  do
espírito, reafirmando assim que Hegel pode ter lugar importante em projetos emancipatórios. Croce foi liberal, quase sempre.
Disse Momigliano:
como  senador  e  como  ministro  aprovou  o  apoio  implícito  de  Giolitti  ao  fascismo.  Enquanto  que  em  1915  havia  se  negado  a  aceitar  o  “coup  d’état”  que
culminou  com  a  declaração  de  guerra,  em  1922  simpatizou  com  os  fascistas,  continuou  votando  por  Mussolini  no  Senado  mesmo  depois  do  assassinato  de
Matteoti. [...] Em abril de 1925 Gentile se desacreditou com seu “Manifesto degli intellettuali fascisti” e Croce se converteu, quase da noite para o dia, no
dirigente da intelligentsia antifascista [...]
[213]
.
O  antifascismo  de  Croce  foi,  afinal,  tolerado  porque  não  se  traduziu  em  nenhum  ataque  político  direto  contra  o  governo
fascista
[214]
. Ainda assim, não se deve subestimar seu papel na valorização da liberdade, a honestidade do seu pensamento,


especialmente em matéria de religião, sobre questões sociais e de política externa, a valorização da tolerância, do governo
representativo, de tribunais imparciais, o respeito por outras nações e, portanto, por si mesma
[215]
.
A violência e exigências do mundo sob o grande capital imperialista, o contexto da dissolução daqueles “cem anos de paz”
(1815-1914),  os  dramáticos  eventos  que  marcaram  o  fim  da  longa  dominação  liberal  (a  guerra  de  1914  a  1918,  as
hiperinflações e a crise de 1929, a Revolução Russa, o nazi-fascismo, a guerra de 1939 a 1945), colocaram desafios para a
consciência  burguesa,  que  tiveram  variadas  respostas.  Houve  quem,  como  Heinrich  Mann,  não  tivesse  tergiversado
colocando-se  resolutamente,  desde  a  primeira  hora,  ao  lado  das  forças  democráticas  e  progressistas.  Houve  quem  tivesse
vacilado e feito o pacto, provisório que seja, com as forças antidemocráticas, como Thomas Mann. Houve, ainda, quem, como
Max Weber, dotado de incoercível lucidez e de igual pessimismo quanto às possibilidades emancipatórias, tenha transitado da
crítica à resignação. Houve, finalmente, quem como Croce, depois de resvalar para o apoio ao fascismo, tenha se proposto ser
a  fonte  de  um  magistério  severo,  uma  espécie  de  papado  laico  liberal,  que  sendo  antifascista  foi,  também,  fortemente,
anticomunista
[216]
.


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