A constituição da História Como Ciência


Leopold von Ranke (1795-1886)



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Leopold von Ranke (1795-1886)
Estevão Martins e Pedro Caldas
É  realmente  impressionante  o  poder  das  caricaturas.  Na  história  da  historiografia,  e,  mais  especificamente,  no  caso  de
Leopold von Ranke, elas exercem uma influência tão contundente que nem mesmo dois dos nossos grandes historiadores foram
capazes de reconstruir traços mais fidedignos na face deste quase mitológico historiador prussiano. De que adianta um Sérgio
Buarque de Holanda ter enfatizado que Ranke buscava “grandes unidades de sentido”
[1]
 se ainda prevalece o ataque francês
dos Annales  à  historiografia  do  século  XIX? Até  mesmo  um  autor  marxista  –  portanto,  insuspeito  –  como  Ciro  Cardoso
[2]
tentou desfazer o equívoco.
Nosso esforço aqui consistirá em colaborar com a crítica ao que Sérgio da Mata, muito apropriadamente, chamou de “mito
historiográfico”
[3]
, de modo que apenas reapresentamos, com apenas algumas modulações de enfoque e interpretação, o que
um leitor atento encontra já nas páginas dos autores acima: a posição do intérprete, que se deduz a partir da obra de Ranke,
não é evidente. O termo “posição” não é gratuito, pois induz ao questionamento da tarefa interpretativa que, em Ranke, não
ultrapassa  o  senso  comum.  Diz-se  sempre:  comprovada  a  autenticidade  das  fontes,  pouco  restaria  ao  historiador  senão  a
confirmação  desta  veracidade  e  o  seu  subsequente  registro.  Todavia,  no  prólogo  de  seu  livro  sobre  a  Reforma,  Ranke
escreveu que a verdade acerca do tema haveria de permanecer sendo única, mesmo que fossem escritas infinitas obras sobre
tal assunto
[4]
.  Teriam  os  críticos  ferozes  de  Ranke  razão  em  alertar  contra  esta  atitude  passiva  do  historiador  frente  a  uma
verdade  única?  Tal  atitude  deixa  de  levar  em  conta  a  apropriação  de  Kant  por  Ranke.  O  acontecimento  histórico  tem
densidade substantiva própria. O ocorrido é o que é (melhor: o que foi), mas dele só se tem o que fica (ou ficou): as fontes e
suas interpretações na historiografia sucessiva.
Dá-se, por conseguinte, que qualquer acontecimento está definitivamente enredado em um tempo passado. O jovem Ranke
estudara a filosofia transcendental de Kant, o construtivismo de Fichte e o intuicionismo de Schelling. Foi em Kant que Ranke
viu a articulação entre a iniciativa do sujeito por conhecer e a opacidade do objeto imerso no passado. O historiador é sempre
de hoje, a história é sempre de ontem. A pesquisa e as fontes as medeiam. Essa mediação guarda paralelo com a construção
intelectual proposta por Kant, de que o sujeito cognoscente dispõe da estrutura racional, perceptiva e intuitiva adequada a um
conhecimento  confiável  porque  demonstrável.  Ou  seja:  nada  de  realismo  ingênuo  nem  de  idealismo  nas  nuvens.  Ranke  opta
pela sobriedade metódica: em História, nada sem o sujeito, nada sem o objeto.
O  leitor  terá  em  mãos  um  breve  ensaio,  forma  talvez  mais  apropriada  para  tratar  de  um  autor  cuja  obra  precisa  ser
seriamente  revista  e  pensada  de  maneira  a  suscitar  certa  polêmica.  De  um  lado,  pretendemos  demonstrar  que  o  processo
histórico, em Ranke, não é um mosaico de fragmentos e tampouco um curso evolutivo. Conforme o leitor poderá perceber mais
adiante  –  assim  esperamos  –,  ele  é  uma  totalidade  dotada  de  um  sentido  costurado  pelo  fio  da  contingência;  de  outro  lado,
apresentaremos ao leitor a ideia de que, em Ranke, há uma prática hermenêutica capaz de nos levar a retocar sua imagem de
um mero reprodutor de fatos. Para começar é útil percorrer, com Ranke, sua origem, formação e principais teses. Em seguida,
volta-se à discussão relativa à sua prática hermenêutica.


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