A constituição da História Como Ciência



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página49/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
1   ...   45   46   47   48   49   50   51   52   ...   132
Unpolitischen, publicado em 1918, e que foi a grande e exasperada resposta de Thomas ao ensaio de Heinrich sobre Zola,
sendo,  de  fato,  uma  exaltada  apologia  do  império  guilhermino,  de  seu  destino  e  de  sua  guerra.  Na  introdução  à  tradução
francesa do livro de Thomas Mann, Jacques Brenner diz que ele está “repleto de sinuosidades, de desvios, de contradições
[...]”
[202]
.  No  centro  dessas  contradições  estão  questões  que,  sob  a  forma  de  oposições  entre  civilização  e  cultura,  entre
racionalidade e irracionalidade, entre arte e ciência, entre a alma e os negócios, traduzem, no essencial, as vicissitudes de uma
burguesia  que,  tendo  ficado  de  fora  das  linhas  principais  do  desenvolvimento  da  Modernidade,  com  exceção  da  dimensão
filosófica,  transformou  modernidade  em  modernização  e  admitiu  que  esta  se  fizesse  a  qualquer  custo  desde  que  acelerada,
mesmo que pelo amesquinhamento de valores democráticos. Em Considerações de um apolítico Thomas Mann reivindica ter
antecipado,  com  o  seu  romance Buddenbrooks,  de  1901,  temas  e  questões  que  serão  tratados  por  Max  Weber,  Troeltsch  e
Werner Sombart na caracterização do homem de negócios, do capitalista, do burguês
[203]
.
Em  seu  livro,  tão  severo  quanto  unilateral  e  injusto  em  alguns  dos  seus  juízos, O  assalto  à  razão,  Georg  Lukács  (1885-
1971) compreendeu com exatidão e abrangência a questão:
Enquanto a Alemanha foi, simplesmente, um país atrasado, tanto econômica quanto socialmente, que ia se defasando no campo espiritual, por outro lado se
colocou como digno rival, em certos campos, como guia espiritual do mundo burguês. Nasceu dessa situação a ideologia precursora da revolução democrática
na Alemanha  a  partir  de  poetas  e  pensadores  de  Lessing  até  Heine,  de  Kant  até  Hegel  e  Feuerbach.  Certo  é  que,  desde  então,  também  nasceu  –  com  o
Romantismo  e  seus  desdobramentos  –  aquela  idealização  do  atraso  alemão  que,  para  defender  essa  posição,  viu-se  obrigada  a  interpretar  de  modo
radicalmente irracional a marcha do mundo, combatendo o conceito de progresso como uma concepção supostamente superficial, trivial e errônea
[204]
.
Com efeito, não apenas os autores citados por Lukács no parágrafo anterior, que viveram entre 1750 e 1850, escaparam da
idealização do passado. É, exatamente, essa a posição de Ferdinand Tönnies (1855-1936), autor de estudo que diferenciou,
sociologicamente,  comunidade  de  sociedade,  que:  “Em  cartas  ao  amigo  Friedrich  Paulsen  [...]  expressou  seu  desprezo  pela
política de classe dos nacionais-liberais, pelo “patriotismo” desonesto dos conservadores e pelo servilismo da comunidade
acadêmica alemã”
[205]
. Entre esses “nacional-liberais” é preciso incluir, entre outros, Max Weber, e entre os “patrióticos”,
Thomas  Mann,  que  eles  estão  entre  as  mais  destacadas  figuras  da  vida  intelectual  alemã,  que  não  escaparam  ao  trágico  da
ideologia  e  da  prática  burguesas  no  contexto  da  exacerbação  imperialista  e  seus  desdobramentos.  Em  seu  balanço  da  vida
intelectual  italiana  no  século  XX,  Norberto  Bobbio  vai  aproximar  Max  Weber,  Thomas  Mann  e  Benedetto  Croce  como
adeptos de uma razão conservadora, isto é, da combinação de realismo histórico e idealização do passado
[206]
.
Não  se  tomem  as  opções  políticas  de  Thomas  Mann,  até  o  início  dos  anos  de  1920,  e  de  Max  Weber,  como  as  únicas
possíveis  no  campo  burguês,  pois  houve  quem  se  recusasse  ao  ditado  da  burguesia  imperialista  e  antidemocrática,  como
Heinrich Mann, e mesmo quem, sendo filho da mesma grande burguesia da Europa Central, como o húngaro Georg Luckács,
tenha  desabridamente  abandonado  a  sua  classe  e  se  colocado  a  serviço  da  revolução  proletária.  De  fato,  o  caminho  de
Luckács  para  o  comunismo  e  o  marxismo  não  foi  linear,  tendo  etapa  importante  marcada  por  radical  repúdio  aos  valores
burgueses  pela  mobilização  da  ética  fundada  em  motivações  românticas,  utópicas  e  messiânicas,  de  que  é  exemplo  maior  o
livro que publicou em 1910, A alma e as formas
[207]
. É o mesmo Lukács que, no prefácio de 1962 de seu livro Teoria  do


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   45   46   47   48   49   50   51   52   ...   132


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal