A constituição da História Como Ciência


Conclusão: um historiador para o mundo



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Conclusão: um historiador para o mundo
Quando  pensamos  no  fato  de  que  o  tempo  revelou  a  inadequação  das  respostas  mais  específicas  dadas  por  Pirenne  às
grandes  questões  sobre  a  Idade  Média,  não  podemos  nos  esquecer  que  suas  maiores  lições  ao  mundo  historiográfico  se
referiram  precisamente  à  sua  habilidade  de  propor  novos  problemas  –  em  uma  palavra,  à  sua  capacidade  de  olhar  para  a
história de maneira problematizada. O importante não é definir de uma vez por todas se a Idade Média começa no século VII
com a ascensão do islamismo e com uma nova configuração da Europa, mas sim entender, com Pirenne, que são os problemas
propostos  que  redefinem  as  fronteiras  sempre  móveis  entre  os  períodos  históricos.  Pirenne  mostrou  que  havia  uma  nova
historiografia a ser escrita: não se tratava apenas de contar os fatos ou de descrever sociedades historicamente localizadas;
era  preciso  pensar  novas  conexões  de  modo  a  enxergar  a  história  de  novas  maneiras.  Conectar  a  ascensão  islâmica  e  a
interiorização carolíngia, ou o crescimento rural e a reintensificação do comércio medieval, são exemplos pirennianos de que
as sequências históricas de fatos ou processos não falam por si mesmas, e que, ao contrário, adquirem novos sentidos quando
contrapostas umas às outras no interior de uma análise historiográfica problematizada.
Se  considerarmos  que  Henri  Pirenne  ofereceu  aos  seus  contemporâneos  novas  formas  de  enxergar  a  história,  novas


perguntas  a  serem  feitas  e  novos  problemas  a  serem  propostos,  tornam-se  menos  importantes  as  respostas  específicas
encontradas  pelo  historiador  belga  a  esta  ou  àquela  questão.  Não  é  de  se  estranhar  que  os  jovens  historiadores  que  iriam
formar o Movimento dos Annales – tais como Lucien Febvre, Marc Bloch e depois Braudel – tenham situado Pirenne na sua
galeria de precursores. A nova historiografia que iria cunhar a noção de história-problema não poderia deixar de reverenciar
um historiador que surpreendeu a sua época com novas questões. Além disto, Henri Pirenne também fora um dos historiadores
que  mais  contribuíram  para  alargar  definitivamente  o  horizonte  historiográfico  predominante  para  além  dos  limites  mais
estreitos  da  historiografia  política  tradicional.  Ao  trazer  a  economia  para  o  centro  do  cenário  historiográfico,  Pirenne
integrava-se  a  uma  nova  tendência  que  definitivamente  gestava  algo  de  novo,  e  que  teria  no  Movimento  dos Annales  e  nas
realizações historiográficas do materialismo histórico contemporâneo duas de suas maiores expressões.
Estas duas realizações – a problematização da história e a ampliação dos horizontes historiográficos – não implicaram, nas
obras de Henri Pirenne, em uma perda da habilidade narrativa do historiador. Henri Pirenne foi também um mestre da escrita
historiográfica, e essa lição ainda ressoa nos dias de hoje. Quando se verifica certa perda de estilo historiográfico em muitos
dos  historiadores  econômicos  das  últimas  sete  décadas,  vem  à  mente  a  sua  contrapartida:  Henri  Pirenne,  um  historiador
econômico que não abriu mão de um estilo fluente, sedutor, ou mesmo literário – capaz de discutir as relações econômicas ao
mesmo  tempo  em  que  nos  fazia  seguir  as  trajetórias  de  vida  de  mercadores  que  deixaram  seus  vestígios  nas  fontes,  ou  de
estender o olhar para a amplidão do Mediterrâneo como mais tarde o faria Fernand Braudel, entretecendo uma história na qual
as próprias cidades se transformavam em grandes personagens de um enredo maior. Pirenne, seguramente, é mais um elo na
grande cadeia de historiadores que foram também grandes escritores. Esta lição, em seus diversos livros e artigos, continua
sendo uma contribuição notável à comunidade sempre renovada de historiadores.
Há algo mais a dizer sobre as grandes generalizações de Pirenne. Na verdade, estas encobrem outro aspecto importante: a
motivação  de  escrever  uma  história global,  não  relacionada  a  apenas  um  país  ou  a  uma  localidade  específica.  Conforme
acentuamos  antes,  houve  um  sutil  deslocamento  de  um  Pirenne  historiador  nacional,  especificamente  belga  –  o  mesmo  que
estava  particularmente  preocupado  com As  origens  do  Estado  Belga  (1906)  ou  com As  cidades  flamengas  do  século  XII
(1905)  –  a  um  Pirenne  historiador  da  Europa,  que  introduz  as  primeiras  grandes  preocupações  em  favor  de  uma  nova
modalidade historiográfica, a história comparada, ao lado de outros autores que logo lhe seguiriam, entre os quais o próprio
Marc  Bloch.  Uma  sinalização  pioneira  para  uma  perspectiva  comparatista,  na  alvorada  de  uma  historiografia  que  logo
reservaria  um  lugar  de  honra  para  a  modalidade  da  história  comparada,  pode  ser  indicada  como  outra  das  grandes
contribuições de Pirenne, que o fariam sobreviver às críticas mais implacáveis desfechadas contra as suas teses específicas
sobre a Idade Média.
Como ocorreu a vários outros historiadores que vivenciaram o período das guerras mundiais, o que despertou em Pirenne o
impulso  para  o  olhar  comparado  foi  a  urgência  de  erguer  a  visão  historiográfica  para  além  dos  limites  nacionais  –  que  de
certo modo haviam resultado não apenas no nacionalismo historiográfico, como também no nacionalismo belicista. O insight
nesta  direção  ocorre  a  Pirenne  no  período  em  que  esteve  preso  pelos  alemães  nos  anos  finais  da  Primeira  Grande  Guerra,
entre 1916 e 1918
[181]
. Este período de aprisionamento no contexto da guerra pode ser mesmo indicado como um divisor de
águas  na  historiografia  de  Pirenne,  ou  como  o  doloroso  momento  em  que  Pirenne  se  vê  compelido  a  deixar  de  ser  um
historiador belga para se tornar um historiador para o mundo. A reflexão sobre os horrores daquela grande guerra, para a qual
os  europeus  haviam  sido  conduzidos  sob  a  égide  dos  nacionalismos  exacerbados,  levariam  Henri  Pirenne  ao  projeto  de
escrever  uma História  da  Europa,  das  invasões  ao  século  XVI  (1936)  –  quem  sabe  o  desesperado  anseio  de  encontrar  as
origens do esfacelamento de uma unidade maior, e ainda, talvez, o angustiante desejo de reencontrar esta unidade europeia no
futuro. Estas inquietações também foram acompanhadas de uma reflexão mais específica sobre as potencialidades do Método
Comparativo em História, que finalmente se concretizou em uma conferência em 1923, um ano antes de Marc Bloch concluir a
tarefa  de  redigir Os  reis  taumaturgos   (1924),  a  primeira  “história  comparada-problema”.  De  igual  maneira,  os  artigos  de
Pirenne que ressurgem com força total na década de 1920 – após um significativo silêncio que pode ser comprovado com o
exame  cronológico  de  sua  produção  bibliográfica  –  indicam  doravante  questões  mais  gerais,  que  dizem  respeito  a  toda  a
Europa, e não apenas a Bélgica.
Hoje  devemos  nos  perguntar  se  as  grandes  generalizações  de  Pirenne  sobre  a  Idade  Média  também  não  encobriam  este
mesmo anseio de pensar a Europa em uma perspectiva mais ampla. Ao desconsiderar as realidades locais – que depois tantas
vezes  lhes  seriam  cobradas  pelos  seus  maiores  críticos  –,  ou  ao  tentar  subsumi-las  em  uma  generalização  mais  ampla,  não
estaria se expressando em Pirenne a inquietante busca de pensar a história da Europa como um grande movimento, à maneira
de  preparar-se  para  pensá-la  como  um  grande  povo?  Nestes  tempos  recentes,  entre  as  últimas  décadas  do  século  XX  e  as
primeiras  do  XXI,  quando  convivemos  com  os  esforços  dos  diversos  países  europeus  em  constituir  uma  difícil  unidade
europeia,  podemos  ser  mais  condescendentes  em  relação  às  grandes  generalizações  de  Pirenne  sobre  as  origens  da  Idade
Média e sobre a história das cidades e do comércio internacional. Não é difícil compreender que a incansável busca de uma


humanidade comum, contra os diversos contextos contemporâneos que a fragmentam, tem sido talvez o principal aspecto que
tem  permitido  a  inabalável  persistência  de  Henri  Pirenne  na  galeria  dos  grandes  historiadores  de  todos  os  tempos.  Se,  ao
darmos  início  à  análise  da  contribuição  historiográfica  de  Henri  Pirenne,  começamos  por  percebê-lo  como  um  historiador
belga, ao avançarmos nesta mesma análise não há como deixar de percebê-lo, em seguida, como um historiador europeu. Por
fim, Henri Pirenne termina por se afirmar em uma dimensão ainda mais ampla, a de um historiador para o mundo.


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