A constituição da História Como Ciência


Principais críticas às te se s de  Pire nne



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página40/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   ...   132
Principais críticas às te se s de  Pire nne
1) Críticas às teses do fechamento do Mediterrâneo e do “hiato urbano” (Ganshof, R.S. López).
2) Críticas a um conceito demasiado estreito de cidade, que teria sido utilizado por Pirenne (Lewis Mumford).
3) Críticas à desconsideração do peso desenvolvimento da economia rural sobre o desenvolvimento urbano (Guy Fourquin).
4) Críticas à generalização de um modelo único de “mercador-banqueiro”: o desenraizado e vindo de longe (Fourquin, Le Goff).
5) Críticas à generalização de um modelo único de formação urbana para o período medieval (desmentida por uma série de estudos de caso que mostram
a diversidade do fenômeno urbano medieval, sobretudo a partir da década de 1950).
Henri  Pirenne  não  se  limitou,  naturalmente,  às  suas  primeiras  formulações  sobre  o  desenvolvimento  comercial  e  urbano
medieval.  Em  um  artigo  datado  de  1929,  dedicado  a  uma  avaliação  mais  específica  das  cidades  holandesas,  o  historiador
belga acrescenta, às suas teses sobre o “fechamento do Mediterrâneo”, novos desdobramentos
[163]
. Por um lado, a irrupção
do  Islã  teria  tido  uma  repercussão  imediata  na  Holanda;  e,  por  outro  lado,  a  descida  dos  nórdicos  sobre  a  Inglaterra  e  o
continente europeu no século IX constituíram consequências posteriores do mesmo fenômeno. Na própria época de Pirenne já
começaram  a  surgir  algumas  críticas  importantes  em  relação  ao  circuito  de  proposições  exposto  pelo  historiador  belga  no
livro As cidades da Idade Média (1925). Norman Baynes, por exemplo, encaminhou um bem-articulado conjunto de críticas
num periódico importante ainda em 1929
[164]
. Antes dele, outro historiador – chamado Petrusevski – já havia feito severas
críticas  às  proposições  de  Pirenne.  Em  1928  ele  apresentou  um  conjunto  de  proposições  bastante  antagônico  em  relação  às
teses de Pirenne
[165]
. Na verdade, o historiador chega a defender uma tese radicalmente oposta às proposições de “declínio
comercial” tal como haviam sido formuladas por Pirenne – chegando a se mostrar até mesmo unilateral na direção contrária.
Podemos adaptar aqui um comentário bastante pertinente de Norbert Elias em O processo civilizador (1939):
À  tese  estática,  segundo  a  qual  a  “economia  de  troca”  e  a  “economia  monetária”  não  expressaram  a  direção  de  um  processo  histórico  gradual,  mas  dois
estados físicos separados, sucessivos e irreconciliáveis da sociedade, Petrusevski opôs a tese de que jamais existiu essa tal “economia de troca”
[166]
.
Ou, para citar o próprio Petrusevski:
Não queremos discutir aqui em detalhes o fato de que, como demonstrou Max Weber, a economia de troca constituiu uma dessas utopias eruditas que não só
não  existem  e  nunca  existiram  na  realidade,  mas  que,  ao  contrário  de  outras  [...]  que  são  também  generalizações  utopistas  devido  ao  seu  caráter  lógico,
jamais podem ter qualquer aplicação à sociedade concreta
[167]
.
Mais adiante, Petrusevski demarca sua posição em oposição à tese de que o “feudalismo” e a “economia de troca” foram
duas esferas, ou patamares, a última correspondendo à infraestrutura que produziu e causou a primeira. Para Petrusevski, ao
contrário, os dois fenômenos nada têm a ver entre si, correspondendo isto a “ideias que se chocam inteiramente com o fato
histórico,  tal  como  o  de  subordinação  do  feudalismo  à  economia  de  troca  ou  sua  incompatibilidade  com  uma  organização
estatal abrangente”
[168]
. Outros historiadores, nesta mesma grande polêmica instigada por Henri Pirenne, empenharam-se em
identificar  aspectos  que  haviam  sido  negligenciados  pelo  historiador  belga  na  sua  generalização  da  história  comercial  e
urbana  do  Ocidente  medieval.  O  historiador  russo  Rostovtzeff  (1930)
[169]
,  por  exemplo,  chama  atenção  para  um  aspecto
importante  que  havia  sido  desprezado  por  Pirenne  na  sua  análise  das  transformações  econômicas  na Alta  Idade  Média:  as
alterações  do  gosto  e  suas  implicações  comerciais.  De  igual  maneira,  surgiram  os  questionamentos  acerca  dos  fatores  que
deveriam ser considerados prioritariamente com relação à passagem para um modelo econômico mais fechado na Alta Idade
Média.  Henry  Moss  (1936),  por  exemplo,  critica  nas  teses  de  Henri  Pirenne  a  negligência  com  relação  a  fatores  de  maior
duração,  e  interpreta  a  “economia  de  casa  fechada”  da  Europa  Ocidental  nos  anos  800  como  “diretamente  provocada  pelo
colapso do governo romano, das comunicações e do comércio”
[170]
.
Nas décadas posteriores aos anos de 1920 foram cada vez mais se estabelecendo críticas bastante consistentes a algumas
das proposições de Henri Pirenne, e particularmente em relação ao questionamento da visão do mundo medieval como uma
“economia de casa fechada” – o que, aliás, representava uma visão historiográfica bem típica das primeiras décadas do século
XX,  e  que  era  compartilhada  até  então  por  diversos  historiadores. A  partir  de  fins  da  década  de  1940  esta  visão  foi  sendo
relativizada cada vez mais, e naturalmente isto contribuiu para que se acelerassem as críticas a certos pontos defendidos por
Pirenne em suas formulações. Podemos dar dois exemplos entre outros tantos que seriam possíveis. Em um artigo datado de
1938, François Ganshof discute muito objetivamente a afirmação de Pirenne de que o comércio teria decaído drasticamente no
Ocidente após a invasão sarracena
[171]
. Críticas relacionadas à mesma questão foram desenvolvidas em um artigo da década
de  1940  por  Roberto  Sabatino  López  (1943)
[172]
.  Posteriormente,  ainda  no  campo  da  História  Econômica,  as  críticas
dirigidas às formulações de Pirenne foram se tornando cada vez mais sistemáticas. Podemos dar como exemplo uma sequência
de críticas elaboradas por Guy Fourquin (1969) em relação às teses de Pirenne sobre o desenvolvimento econômico e urbano
medieval
[173]
, que podem ser resumidas adequadamente em quatro grupos fundamentais.


(1)  O  modelo  proposto  por  Pirenne  para  a  revitalização  urbana  a  partir  do  comércio  das  cidades  de  Flandres,  e  a  sua
descrição do modelo de crescimento urbano daí resultante, não pode ser generalizado para a maior parte da Europa Medieval.
A este respeito Guy Fourquin avalia objetivamente o mapa urbano da Idade Média Central:
Este  quadro  é  indiscutivelmente  válido  para  a  região  flamenga  que  Pirenne  tomou  para  base  de  sua  teoria,  ainda  que  alguns portus  sejam  mais  antigos,
datando dos tempos carolíngios ou pós-carolíngios. Com efeito, por volta do ano 1000, havia poucas cidades nesta região. [...] o quadro esboçado por Pirenne
é igualmente válido para as cidades – forçosamente novas – dos países novos, como as cidades hanseáticas da Alemanha. Mas Pirenne, e mais ainda os seus
discípulos, pretenderam alargar a sua aplicação a todo o Ocidente, por exemplo, a toda a parte norte da França (Vercauteren) ou a Inglaterra
[174]
.
(2)  Nem  sempre,  considerando  as  várias  regiões  da  Europa,  teria  ocorrido  o  tal  “hiato  urbano”  proposto  por  Pirenne.
Assim, segundo Fourquin, “a continuidade urbana encontra-se quase sempre provada, mesmo na Flandres (Arras, Saint-Omer,
Gand), desde a época carolíngia, e por vezes até desde os tempos merovíngios (como no Vale do Mosa)”
[175]
.
(3) Para Fourquin o comércio desenvolve-se com a expansão agrícola e populacional, situação que Pirenne desconsidera.
(4) Por fim, Pirenne teria ignorado outros tipos de cidades, igualmente presentes na medievalidade europeia: cidades com
dominância do artesanato; cidades semirrurais (com mercadores e artesãos cultivando o campo). Fourquin encerra seu bloco
de críticas com uma indagação: “Mas vamos um pouco mais longe. Terá sido realmente a economia a desempenhar o primeiro
papel em todas as cidades?”
[176]
As críticas às propostas de Pirenne para a origem das cidades medievais também estiveram amplamente representadas nas
décadas posteriores. De um lado, estas críticas partem da ideia de que não é possível reduzir o surgimento das novas cidades,
e  a  revitalização  das  antigas,  meramente  a  desdobramentos  comerciais  ou  a  aspectos  derivados  do  âmbito  econômico.  Os
historiadores  da  segunda  metade  do  século  XX  tenderam  a  focar,  para  além  da  história  econômica,  aspectos  diversos
relacionados à religiosidade, às mentalidades, à cultura, ou a história social de maneira geral. Podemos dar como exemplo as
críticas de Lewis Mumford (1961) às teses de Pirenne sobre a origem das cidades medievais, que são basicamente de duas
ordens
[177]
. Em primeiro lugar, ele defende a ideia de que a origem da cidade medieval esteve associada à necessidade de
uma nova forma de segurança, necessidade que foi atendida pela cidade murada. Foi a revivescência da cidade protegida que
assegurou a retomada comercial, e não o contrário
[178]
. Em segundo lugar, critica a definição estreita de cidade abordada por
Pirenne. “Todo esse fenômeno foi mal-interpretado por Pirenne”, avalia Mumford, “porque ele recusava o título de cidade a
uma comunidade urbana que não incentivava o comércio a longa distância, nem abrigava uma grande classe média mercantil –
uma definição inteiramente arbitrária”
[179]
.
Conforme  vimos,  algumas  das  principais  teses  de  Henri  Pirenne  sobre  a  Idade  Média  não  resistiram  ao  desenvolvimento
posterior da historiografia. Boa parte das suas generalizações não resistiu à complexidade histórica encontrada pelas gerações
seguintes de medievalistas, e diversas formulações conceituais tornaram-se não operacionais ou inadequadas (como a noção
de  “renascimento  comercial”,  por  exemplo,  ou  a  de  “fechamento  do  Mediterrâneo”).  Tampouco  resistiu  ao  tempo  a  busca
pirenniana  de  um  modelo  único  de  “ressurgimento  urbano  medieval”,  do  mesmo  modo  que  inúmeras  outras  explicações
históricas totalizantes e unilaterais, em diversos autores da primeira metade do século XX, tenderam a serem revistas por uma
historiografia que iluminou mais a diversidade e complexidade de situações históricas do que a homogeneidade de modelos
unificadores
[180]
.  Devemos  nos  perguntar,  nestes  momentos  finais,  sobre  as  razões  para  o  inquestionável  fato  de  Henri
Pirenne permanecer na galeria dos historiadores mais lembrados do último século. Sobre isto ainda há algo a dizer.


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   ...   132


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal