A constituição da História Como Ciência


Uma grande polêmica: a Idade Média de Pirenne



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Uma grande polêmica: a Idade Média de Pirenne
A terceira década do século XX foi marcada por uma importante polêmica em torno da transição do mundo antigo para o
Ocidente medieval, do papel histórico do comércio e das cidades medievais, e da transição da medievalidade para um novo
mundo  que  prenuncia  a  Idade  Moderna.  A  polêmica  teve  como  centro  de  gravidade  algumas  teses  bastante  instigantes
propostas  precisamente  por  Henri  Pirenne. As  teses  de  Pirenne  sobre  a  transição  da Antiguidade  à  Idade  Média,  e  sobre  a
interação entre o comércio e a cidade medieval a partir do século XI, causaram tanto impacto nas terceira e quarta décadas do
século  XX,  que  suscitaram  inúmeras  adesões  de  primeira  hora  e,  particularmente  nas  décadas  posteriores,  muitas  críticas
provenientes de diversos lados. Algumas das contribuições de Pirenne com este complexo de teses sobre a Idade Média foram
certamente  duradouras.  Podemos  registrá-las  em  suas  principais  linhas,  com  o  devido  distanciamento  permitido  por  um  já
longo desenvolvimento historiográfico que hoje permite enxergar com maior clareza as contribuições efetivas de Pirenne para
os estudos medievais.
Em primeiro lugar, não há dúvidas de que foi primordial para a historiografia posterior o destaque atribuído por Pirenne à
função  econômica  da  cidade  medieval,  em  contraste  com  a  maior  parte  da  historiografia  de  sua  época,  que  então  se
concentrava  apenas  na  análise  institucional  do  fenômeno  urbano.  Em  segundo  lugar,  Pirenne  foi  um  dos  primeiros
historiadores a valorizar, para o período medieval, o papel do mercado como elemento de fixação urbana. Nesta direção seu
trabalho rivaliza com o de Max Weber, que, embora não tenha se dedicado apenas ao estudo das cidades medievais, também
possui uma contribuição importante neste âmbito temático
[154]
.  Por  fim,  foi  particularmente  importante  a  análise  elaborada
por Pirenne acerca do papel dos grandes mercadores na vida urbana medieval e na transformação do mundo feudal, além do
historiador belga ter demonstrado a importância dos próprios meios rurais para o fornecimento de um contingente importante
de  indivíduos  que  se  integraram  à  dinâmica  comercial.  Por  outro  lado,  é  preciso  reconhecer  que,  para  além  destas
contribuições indubitavelmente significativas, algumas das teses centrais de Pirenne não resistiram às críticas e investigações
historiográficas  encaminhadas  nas  décadas  seguintes.  Resumiremos  a  seguir  o  conjunto  de  teses  de  Pirenne,  para  pontuar  a
seguir outras indicações autorais, inclusive as mais críticas, relativas a esta grande polêmica da primeira metade do século
XX.
As  instigantes  ideias  de  Pirenne  ganharam  projeção  na  década  de  1920  a  partir  de  duas  obras  principais,  e  também  de
alguns  artigos  elaborados  e  publicados  na  mesma  época.  De  um  lado,  Pirenne  apresentou  suas  impactantes  teses  sobre  a
renovação do comércio medieval no célebre artigo denominado “Maomé e Carlos Magno”
[155]
. Este artigo também rediscute


a fronteira historiográfica entre o mundo antigo e a Idade Média, ao colocar como centro do problema histórico a ascensão do
islamismo e a formação do Império Carolíngio. Mais tarde, em 1936, Pirenne incorporou as ideias apresentadas nesse artigo a
um  tratado  mais  amplo,  denominado História  Econômica  e  Social  da  Idade  Média
[156]
,  e  na  própria  década  de  1920
continuou produzindo artigos dentro do mesmo circuito de ideias
[157]
. A segunda obra que polarizou a polêmica em torno das
ideias  de  Pirenne  foi  um  pequeno,  mas  marcante  livro  intitulado As  cidades  na  Idade  Média,  publicado  em  inglês  em
1925
[158]
. As  propostas  dessa  obra  para  uma  compreensão  das  cidades  medievais  remontam,  na  verdade,  a  alguns  artigos
anteriores,  que  Pirenne  publicara  ainda  no  final  do  século  XIX
[159]
.  Além  disso,  posteriormente  o  historiador  belga
acrescentou a seu estudo original sobre a cidade medieval alguns artigos mais específicos, publicados nos primeiros números
da Revista de História Econômica e da revista Annales
[160]
.
Podemos  resumir  a  seguir  o  primeiro  circuito  de  questões  (sobre  a  renovação  do  comércio  medieval),  que  na  verdade
engloba o segundo (sobre a origem e natureza das cidades medievais). A ideia central é a de que, de algum modo, Maomé e
Carlos Magno constituem as duas faces de uma mesma moeda no que se refere aos destinos da história da Europa Ocidental. A
expansão islâmica teria neste caso condicionado diretamente o padrão que se inicia com o Império Carolíngio no Ocidente,
uma vez que o modelo de comércio, as suas rotas e os seus agentes sofreram mudanças radicais após o controle muçulmano
sobre determinadas áreas do Mediterrâneo. Esta retração comercial trouxe consigo uma imediata retração urbana, o que já nos
introduz no âmago do segundo circuito de questões evocadas pelas teses de Pirenne. Podemos registrar as próprias palavras
do historiador belga no seu tratado sobre a história econômica e social da Idade Média:
Quando a invasão islâmica fechou os portos do Mar Tirreno [...] a atividade municipal rapidamente se extinguiu. Salvo no sul da Itália e em Veneza, onde foi
mantida graças ao comércio com Bizâncio, ela desapareceu em toda a parte. As cidades continuaram a existir, mas perderam sua população de artesãos e
mercadores e, com eles, tudo o que sobrevivera da organização municipal do Império Romano
[161]
.
Diante deste novo momento histórico, o “Estado” (expressão utilizada neste caso pelo próprio Pirenne) teve de se adaptar a
uma  realidade  que  já  não  contaria  mais  com  a  mesma  dinâmica  comercial  e  com  a  mesma  rede  urbana.  Para  este  aspecto

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