A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Prefácio
Incluir suas ideias no estudo dos textos é um  método  subjetivo  [...].  Muitos  pensam  que  é  útil  e  bom  ter  preferências,  ideias  mestras  que  dão  às
obras mais vida e mais encanto; é o sal que corrige a insipidez dos fatos. Pensar assim é enganar-se muito sobre a natureza da história. Ela não é
uma arte, é uma ciência pura, como a física ou a geologia [...]; o melhor historiador é o que mais se atém aos textos.
Fustel de Coulanges
[...]  não  falei  de  “ciência”  da  história,  falei  de  “estudo  cientificamente  conduzido”.  [...]  A  fórmula  cientificamente  conduzida  implica  duas
operações,  as  mesmas  que  se  encontram  na  base  de  qualquer  trabalho  científico  moderno:  propor  problemas  e  formular  hipóteses.  Duas
operações  que  já  aos  homens  de  meu  tempo  se  revelavam  especialmente  perigosas.  Porque  propor  problemas  ou  formular  hipóteses  era
simplesmente trair. Fazer penetrar na cidade da objetividade o cavalo de Troia da subjetividade [...].
Lucien Febvre
Na cultura do Antigo Regime as narrativas históricas eram bastante diversificadas, sobressaindo noções da história como
fonte  geradora  de  exemplos  para  orientar  as  ações  dos  varões  de  Plutarco.  Nos  gêneros  de  história  surgidos  na  Europa  do
século  XVI  ao  XVIII,  a  história  transformou-se  em  instrumento  ora  de  desconstrução,  ora  de  legitimação  de  princípios  do
interesse dos Estados monárquicos emergentes, em meio aos jogos de poder daqueles tempos. Mas, ao longo do século XIX, o
regime de historicidade iria se transformar, evoluindo para formas mais complexas e mais rigorosas de retratar o passado. Os
estilos  narrativos  já  haviam  se  alterado  significativamente,  e  os  protocolos  da  pesquisa  incorporaram  exigências  e  desafios
novos e decisivos como, por exemplo, um senso de desprezo pela retórica e pela eloquência dos historiadores que emulavam
Tito  Lívio  e  outras  figuras  modelares  da  Antiguidade.  Chegara  o  momento  de  a  História  reivindicar  para  si  o  estatuto  de
ciência, o que ocorreria primeiramente e a passos mais largos na Alemanha oitocentista.
Neste  volume  pretendemos  abordar  a  constituição  da  historiografia  contemporânea,  nas  formas  como  veio  se  esboçando
desde  os  inícios  do  século  XIX  até  os  meados  do  XX,  mormente  pelo  aparecimento  de  figuras  que  elevaram  o  ofício  de
historiador a alturas até então desconhecidas. De fato, na história da historiografia contemporânea, é consenso considerar o
século  XIX  como  a  época  clássica  dos  estudos  históricos,  o  “século  da  história”,  tal  o  volume  de  transformações  e  o
aprimoramento dos níveis de reflexão acumulados nos domínios de Clio. Ora, a percepção do século XIX como uma espécie
de  “idade  de  ouro”  dos  estudos  históricos  parece  mesmo  acertada,  haja  vista  ter  se  verificado  nesta  quadra  uma  nova
concepção da própria história vivida, agora voltada para o planejamento de alianças estratégicas com as forças promotoras do
progresso da humanidade.
Contudo,  seria  equivocado  falar  em  termos  excessivamente  genéricos,  pois  as  formas  oitocentistas  da  história  foram
bastante  diversificadas,  como  fica  bem-demonstrado  na  reflexão  de  um  contemporâneo,  Guizot:  “Existem  cem  maneiras  de
escrever a história”. Sendo assim, são as variações nos modos de pensar e de escrever história que explicam e justificam a
seleção de alguns nomes que elevaram o ofício de historiador a alturas decisivamente superiores, mesmo quando se toma em
consideração predecessores da estirpe de um Jean Bodin, de um Voltaire, de um David Hume, de um Edward Gibbon, dentre
outros vultos da ars historica antes da constituição do que se concebeu como a história científica, ao menos a partir de Ranke.
Com o propósito de oferecer uma visão panorâmica das concepções modelares de história, numa linha de tempo de mais de
um século, reunimos dez nomes da grande tradição ocidental dos estudos históricos. Em comum, todos os autores-tema aqui
retratados são expoentes de alta visibilidade formando, por assim dizer, o círculo de ferro da historiografia ocidental. Com
efeito, suas perspectivas teóricas e suas técnicas de investigação oxigenaram o pensamento histórico, vitalizando-o. Portanto,
este volume constitui-se em plano temático cujo propósito é o de entregar ao público interessado por história da historiografia
alguns dos aspectos centrais das visadas teóricas e dos eixos temáticos presentes nas concepções de cada um desses vultos
ilustres segundo a ordem de nosso sumário.
E, para que o livro não se ressentisse tanto da escassez de unidade e de identidade, como costuma ocorrer em coletâneas,
solicitamos aos ensaístas que incluíssem em suas análises um núcleo mínimo comum de temas. Dessa forma, em cada capítulo
os  leitores  hão  de  se  deparar  com  aspectos  como:  as  matrizes  intelectuais  formadoras  dos  diferentes  perfis  dos  autores,  os
assuntos mais recorrentes ou predominantes em seus textos, as inovações e reinvenções promovidas no terreno da pesquisa,
além  dos  conceitos  criados  ou  apropriados  por  eles  em  seus  respectivos  domínios.  Será  possível  distinguir  também  alguns
aspectos  centrais  relacionados  aos  contextos  de  produção  das  diferentes  obras  em  análise,  além  de  outros  traços
idiossincráticos definidores das concepções de cada historiador.
Da  leitura  desse  conjunto  de  textos  patenteia-se  um  processo  de  transformações  profundas  na  escrita  da  história,  algo
completamente diverso das narrativas da Época Moderna, nas quais predominavam o tom moralista e exemplar adornado por


adereços  retóricos  de  efeito. Assim  sendo,  as  narrativas  laudatórias  dos  grandes  personagens  e  de  seu  teatro  de  operações
(não se pode deixar de pensar aqui em Voltaire e seu herói civilizador, Luís XIV), cederam lugar a outras formas de história,
agora marcadas pela diversificação dos horizontes temáticos e das metodologias de pesquisa do passado. Foi assim que, da
ênfase  sobre  a  dimensão  retórica,  exemplar  e  narrativa  típicas  do  Antigo  Regime,  passou-se  a  novas  formas  de  discurso
histórico,  com  o  advento  de  análises  de  natureza  supostamente  científica  e,  portanto,  pretensamente  neutras.  De  sua  antiga
condição de oficina de lições morais, a história veio a ser concebida por algum tempo como campo de investigação isento das
nódoas  da  subjetividade,  o  que  lhe  permitiu  reivindicar  o status  de  protagonista  das  ciências  sociais.  Com  o  advento  das
sociedades  industriais  e  de  massas  –  movidas  a  capitalismo  e  a  ondas  crescentes  de  participação  política  –,  o  pensamento
histórico contemporâneo logrou promover diferentes e inovadoras interpretações da realidade, suficientemente desvinculadas
de interesses estatais sufocadores.
Com  efeito,  os  avanços  da  pesquisa  histórica  e  a  consequente  elevação  dos  índices  de  complexidade  do  campo  teórico-
metodológico  –  a  partir  de  trabalhos  seminais  como  os  desenvolvidos  pioneiramente  por  Leopold  von  Ranke,  por  Jules
Michelet, por Jacob Burckhardt e por outros historiadores oitocentistas –, desencadearam desdobramentos decisivos no médio
e no longo prazos. Tanto assim que, no decorrer da primeira metade do século XX, novas formas de se conceber a história
emergiram com impacto transformador. Da estrita esfera da política tradicional, dos discursos oficiais e das ações dos varões
insignes  passou-se  às  articulações  complexas  das  diferentes  dimensões  da  vida  social,  pelo  alargamento  dos  horizontes
temáticos dos historiadores. Ainda que não se possa falar em termos de um “fim” definitivo da história política tradicional,
com  as  suas  narrativas  encomiásticas  tecidas  em  torno  de  grandes  homens  e  de  seus  portentos,  foi  a  partir  dos  inícios  do
século  XX  que  os  historiadores  incluíram  em  suas  agendas  programáticas  temas  até  então  inusitados  que,  em  certos  casos,
geraram  um  senso  de  estupefação  no  interior  da  própria  comunidade  de  especialistas.  Um  exemplo  notório  de  certa
perturbação  da  cultura  histórica  é  o  célebre  livro  publicado  por  Marc  Bloch  em  1924.  Resumindo  as  atitudes  dos
historiadores à época, não se compreendeu em Bloch a iniciativa de transformar uma peça do folclore monárquico francês –
como era tradicional e conservadoramente concebida a longeva tradição da realeza sagrada cristã da Idade Média e da Época
Moderna – em assunto digno de história.
A  par  de  ações  inovadoras  no  campo  da  pesquisa  histórica,  como  a  inclusão  por  Marc  Bloch  das  crenças  populares  em
torno  ao  “milagre  régio”,  verificou-se  também  o  surgimento  de  novas  maneiras  de  abordar  os  temas  julgados  de  relevo.
Metodologias transformadoras permitiram explorar antigos objetos de pontos de vista inusitados e criativos. Daí a renovação
da  velha  e  acanhada  história  política,  agora  analisada  por  ângulos  nada  usuais,  ou  seja,  avaliada  em  suas  dimensões
simbólicas.  Com  o  advento  do  movimento  francês  conhecido  por Annales,  para  alguns  uma  verdadeira  revolução  na
historiografia,  o  recurso  à  imaginação  criadora  –  novo  instrumento  de  combate  dos  historiadores  –  fez  emergir  uma  série
considerável  de  conquistas  para  a  pesquisa.  Foi  assim  que  se  abriram  novas  searas,  que  emergiram  territórios  até  então
completamente submersos ou ainda pouco frequentados pelos profissionais da área. A própria percepção do tempo histórico-
social  foi  significativamente  alterada,  mormente  pelas  reflexões  de  Fernand  Braudel  em  seu  célebre  estudo  sobre  o  mundo
mediterrâneo na época de Felipe II.
A aproximação da História com as demais Ciências Sociais, pelo estabelecimento de diálogos disciplinares – travados em
especial com a Psicologia, com a Economia, com a Geografia, com a Antropologia e com a Sociologia –, marcou a ascensão
de uma nova história. Se até o século XVIII a História fora concebida de modo predominante como mestra da vida, ao longo
do século XIX ela passou à condição de uma forma de saber referencial entre as demais Ciências Sociais. Ao menos foi essa a
pretensão nutrida por alguns mestres do calibre de um Lucien Febvre ou de um Fernand Braudel. No decorrer do século XX,
sobretudo em suas últimas décadas, o conhecimento histórico experimentou mutações de vulto, assumindo formas complexas e,
frequentemente, antagonistas entre si. Uma boa prova desse espírito competitivo pode ser facilmente identificável no terreno
da  história  intelectual,  com  as  conhecidas  disputas  atualmente  travadas  entre  “textualistas”  e  “contextualistas”.  Algumas
dessas  complexidades  emergentes  e  acumuladas  nas  últimas  décadas  foram  expressas  principalmente  pela  crise  relativa  ao
estatuto científico da História, estatuto este que por longo tempo a distinguira como um padrão superior de conhecimento. A
crise  foi  particularmente  diagnosticada  no  debate  travado  em  torno  de  sua  condição  narrativa,  e  na  sua  faculdade
incontornável  de  representar  subjetivamente  a  realidade,  aspectos  suficientes  para  inibir  e  atrofiar  quaisquer  aspirações  à
cientificidade e a outras dignidades superiores pretendidas pela historiografia oitocentista.
Em vista disso, este livro dedica-se a dar um pouco mais de nitidez ao complexo mapa das ideias históricas, num percurso
que parte dos anos 30 e 40 do século XIX, fechando-se nos anos 60 e 70 do século seguinte, período que cobre os primeiros
trabalhos  de  Ranke  e  os  últimos  de  Braudel.  Lendo  os  textos  aqui  encadeados  será  possível  visualizar  contribuições
definidoras, bem como alterações significativas em um lapso de tempo no qual se promoveram conquistas de vulto, sobretudo
quando  se  olha  pelos  próprios  retrovisores  da  história  do  pensamento  histórico  ocidental  e  se  enquadra  gêneros  como  o  da

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