A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Rerum  italicarum  scriptores,  como  um  grande  panorama  da  produção  literária  italiana  na  Idade  Média.  Muratori  havia
estabelecido, na verdade, o corpus da literatura medieval italiana, o que serviu de base para Burckhardt abarcar o conjunto de
escritores a partir dos quais compôs A cultura do Renascimento na Itália.
Ancorado nesse vasto material, Burckhardt narra, então, o processo pelo qual as tiranias transformam-se em principados, na
passagem  entre  o  final  do  século  XIII  e  a  segunda  metade  do  XV.  Paralelamente,  um  mundo  de  corte  se  instala  no  norte  da
Itália,  onde  as  dinastias  se  consolidam  por  meio  de  um  aparato  de  poder  que  se  confunde  com  o  embelezamento  e  a
monumentalização  do  tecido  urbano.  Nas  repúblicas,  sobretudo  nos  casos  de  Florença  e  de  Veneza,  refinadas  e  distintas
formas de desempenhar a arte da política constituem-se em duas grandes matrizes da arte e da cultura na Península Itálica. Em
seguida, com o fortalecimento e a centralização do poder em Roma, a partir do final do século XV, a cidade eterna readquire
papel central na cultura italiana, ao mesmo tempo em que os poderes locais decaem, fruto também da ação política de Carlos
V  e  do  fortalecimento  do  Império  Espanhol.  Nesse  contexto,  Burckhardt  traça  os  momentos  derradeiros  da  cultura  do
Renascimento, ou seja, a curva decadente de um arco histórico que teve sua origem com a vida de Dante. Porém, nesse arco
temporal, a Itália legava ao Ocidente a face de um mundo novo: originava-se a Época Moderna.
A cultura do Renascimento na Itália foi, portanto, o resultado de uma tentativa de síntese histórica de um período até então
inexistente no cenário da história universal. Na obra dos grandes historiadores do século XIX, a Idade Média terminava com o
advento da Reforma religiosa, que inaugurava a Era Moderna como um evento de matriz germânica. A obra do ex-professor de
Burckhardt  em  Berlim,  Leopold  von  Ranke,  constituiu-se  sob  esee  prisma.  Burckhardt,  ao  conceber  o  Renascimento  como
pátria  e  origem  do  homem  moderno,  antecipa  a  gênese  da  Era  Moderna  e  confere  sua  paternidade  à  cultura  italiana.  Não
Lutero,  mas  Dante  fora,  para  ele,  o  último  homem  medieval  e  o  primeiro  personagem  da  nova  era.  E  essa  concepção
(Burckhardt  o  sabia  bem)  tinha  sido  revelada,  em  germe,  já  na  obra  de  Boccaccio,  mais  particularmente  na  biografia  que  o
escritor de Certaldo dedica ao poeta florentino: o Trattatello in laude di Dante, que, numa passagem, diz o seguinte:
Este foi o Dante, ao qual é dedicado o presente discurso; este foi o Dante, que em nossos séculos foi concedido de especial graça por Deus; este foi o Dante,
ao qual por primeiro coube abrir o caminho de retorno às musas, expulsas da Itália. Através dele a riqueza do idioma florentino é demonstrada; através dele
toda a beleza da língua vulgar, sob determinados números, é regulada; através dele a poesia, morta, merecidamente pode-se dizer ressuscitada [...]
[129]
.
Entretanto,  como  vimos,  a  síntese  histórica  que  Burckhardt  apresentou  no  livro  de  1860  tinha,  na  observação  do  próprio
autor, o defeito de negligenciar um estudo sobre a arte do período. A lacuna, que ele entendia apresentar o livro, deveria ser
preenchida  com  uma  obra  consagrada  à  arte  italiana  do  Renascimento.  É  assim  que  nos  anos  subsequentes  o  historiador
concentra seus esforços no estudo histórico-artístico do período. O primeiro fruto desse trabalho, e único editado em vida, é a
obra sobre a arquitetura italiana do Renascimento, publicada em 1867, como parte da Geschichte der Baukunst (História da
Arquitetura), de Franz Kugler, que havia morrido em 1858. O texto de Burckhardt é reeditado de modo autônomo em 1878,
com um novo título: Geschichte der Renaissance in Italien (História do Renascimento na Itália). A partir de então, ainda que
tenha  realizado  trabalhos  de  outra  natureza,  seu  projeto  de  terminar  a  obra  sobre  o  Renascimento  italiano  com  escritos
dedicados à arte do período permanecia como um compromisso íntimo.
O estudo sistemático da história da arte tinha se aprofundado para ele a partir de 1874, quando cria e assume a cátedra de
História da Arte na Universidade de Basileia, cátedra que, após 1893, com a aposentadoria, será ocupada por seu ex-aluno
Heinrich Wölfflin. Concomitantemente, Burckhardt continuava a percorrer a Itália em longas estadias até a década de 1880, e
a reunir um vasto material a respeito da pintura no Renascimento. Era preciso terminar a redação do projeto iniciado com o
livro  de  1860,  porém  um  problema  o  afligia:  Como  integrar  a  arte  ao  mais  amplo  universo  da  cultura  renascentista?  Como
compreender a pintura italiana do Renascimento na chave de seu estudo histórico-cultural do período?


A  primeira  versão  desse  esforço  metodológico  aparece  no  manuscrito  intitulado Die  Malerei  nach  Inhalt  und

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