A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
cultura do Renascimento na Itália. Para além disso, entretanto, a mão de Burckhardt no livro de Kugler revelava ainda um
interesse em aproximar a história da arte do mundo dos artistas. É quase certo que seja Burckhardt, a partir dos artistas e das
obras em direção aos cultores e amantes das artes, ou seja, aos comitentes, embora este termo não apareça no texto.
Poderosos e cultíssimos papas, como Júlio II e Leão X, senhorias, cidades e cidadãos privados mostravam com nobre empenho estarem convencidos de que
não podiam erigir melhor monumento a si mesmos senão promovendo a arte e encomendando trabalhos aos artistas
[116]
.
Ao estabelecer relações entre o trabalho dos artistas e o universo dos mecenas, ele dava o primeiro passo no sentido de
perseguir  os  meandros  do  ambiente  dos  artistas.  E  nessa  perspectiva  de  aproximação  do  discurso  histórico-artístico  ao
ambiente  em  que  é  gerada  a  obra,  a Kunstgeschichte  de  Franz  Kugler,  na  seção  em  que  se  nota  a  contundência  das
intervenções de Burckhardt, penetra ainda no intrincado meio das “escolas artísticas”. Nesse particular, o jovem historiador
suíço,  na  intenção  de  melhor  perceber  a  variada  riqueza  das  linguagens  artísticas  na  Itália  entre  os  séculos  XIV  e  XVI,
estabelece inicialmente divisões regionais, para, em seguida, com a evolução da influência de determinados artistas, perceber
o alcance da ação de alguns mestres no conjunto da arte italiana. Ele afirma, então:
Quanto às escolas, elas poderiam ser distinguidas, segundo a diversidade do país, principalmente em três: na da Itália média, na da Itália superior e naquela da
Itália  meridional. A  primeira  se  subdivide  em  duas  escolas:  na  toscana  ou  propriamente  florentina,  e  na  úmbria;  aquela  representa  a  difusa  tendência  ao
naturalismo; e esta [...] direciona-se mais à expressão afetuosa. Da mútua influência, pois, daquelas duas tendências, surgem consideráveis e características
escolas na Itália superior, e na meridional prevalece a escola napolitana, que tem modos mais delicados que aquelas
[117]
.
Aqui  estava  também  esboçado  algo  da  noção  de  Renascimento  que  se  aprofundará  na  obra  de  Burckhardt,  ou  seja,  a
concepção  das  diversidades  internas  no  que  diz  respeito  à  arte,  refletindo  a  variedade  das  culturas  locais  e  regionais  no
território  da  Península  Itálica.  Entretanto,  em  meio  ao  movimento  propiciado  pela  análise  das  escolas  artísticas  na  Itália,
constituía-se  paralelamente,  em  sua  narrativa,  a  centralidade  florentina  a  estruturar  sua  noção  de  Renascimento.  É  muito
provável que seja Burckhardt a constatar o que segue:
Na pintura toscana daquele tempo [...], salvo as exceções em que impera uma maneira arcaica, prevalece o caráter como de retrato. As figuras reproduzidas
são sempre tomadas imediatamente da realidade, não raramente são personagens verdadeiros com todo o aparato no qual diariamente se mostram. Onde não
se  trata  de  santos  particulares  de  um  altar,  mas  de  uma  ação  movimentada  e  animada,  ainda  que  se  refira  à  religião,  nada  menos  que  espectadores,  e  às
vezes  não  poucos,  a  circunda.  É  verdade  que  o  elemento  de  santidade  [...]  é,  de  tal  maneira,  rebaixado  e  reduzido  a  uma  realidade  terrena  e  da  vida
cotidiana; todavia, enquanto aquele perde a importância, eleva-se esta com livre dignidade, com franca consciência do próprio valor [...]
[118]
.
Assim,  o  traço  da  mão  do  jovem  suíço  sobre  o  empreendimento  de  seu  professor  prussiano  era  ainda  um  sinal  de  que
Burckhardt situava-se já na temática de sua obra de 1855, O Cicerone: um guia para a fruição das obras de arte na Itália. O
Cicerone conteve uma longa dedicatória a Franz Kugler, que terminava com as seguintes palavras:
Gostaria,  caríssimo  amigo,  que  pudesses,  se  teu  caminho  te  conduzir  ainda  à  Itália,  reconhecer,  pelo  menos  com  prazer,  neste  guia  ( Stationenbuch)  a  tua
escola
[119]
.
O  Cicerone  era  fruto  de  uma  viagem  que,  da  primavera  de  1853  à  primavera  de  1854,  tinha  levado  Burckhardt  uma  vez
mais  em  direção  à  Itália.  No  livro,  a  ideia  da  fusão  entre  paganismo  e  cristianismo  na  constituição  da  linguagem  artística
florentina volta a aparecer, reafirmando uma direta relação com o seu texto no Handbuch der Kunstgeschichte de Kugler. No
capítulo  sobre  a  pintura  do Quattrocento,  no Cicerone,  como  preâmbulo  à  explanação  sobre  o  afresco  na  arte  toscana,
Burckhardt afirma:
Nas primeiras décadas do século XV a pintura é invadida por um espírito novo: ainda que permaneça ligada à Igreja, ela começa a se desenvolver com base
em princípios que não têm nenhuma relação com tarefas religiosas. A obra de arte dá mais do que é pedido pela Igreja: além das relações religiosas, oferece
agora uma imagem do mundo real. O artista aprofunda o estudo e a representação da natureza e gradativamente apropria-se de todos os aspectos da figura
humana e de seu ambiente
[120]
.
Era  a  noção  de  Renascimento  que  aparecia  numa  clara  relação  de  continuidade  com  o  texto  do Manual  de  Kugler.  E
exatamente em seguida à finalização do Cicerone, Burckhardt dá início a um projeto ao qual ficará ligado até o final da vida,
qual  seja:  o  estudo  em  conjunto  da  arte  e  da  cultura  do  Renascimento  na  Itália.  Chegara,  então,  pensava  ele,  o  momento  de
colocar  em  prática  uma  ideia  que  tinha  se  formado  em  sua  mente  muito  tempo  antes,  por  ocasião  de  sua  primeira  viagem  a
Roma. Em Roma, em 1847, enquanto lia as Vite degli uomini illustri fiorentini , de autoria do livreiro florentino que viveu até
1498, Vespasiano da Bisticci, Burckhardt tivera a primeira ideia de conceber uma síntese histórico-cultural da época. Projeto,
no entanto, que tomaria forma no ano de 1858, como se revela em sua carta ao Rei Maximiliano II da Baviera:
O intento seria aquele de considerar o Renascimento como pátria e origem do homem moderno, seja no que diz respeito ao modo de pensar e sentir, seja no
que tange ao mundo das formas. Parece-me possível tratar essas duas grandes temáticas de modo oportunamente paralelo, fundindo a história da cultura com
a história da arte
[121]
.
A primeira forma assumida pelo projeto é apresentada num ciclo de conferências proferidas no Museu de Basileia, entre o
outono de 1858 e o inverno de 1859. A esse ciclo de palestras, Burckhardt deu o título de “A era de Rafael”
[122]
. O título


provinha  do  universo  das  artes  e  servia  para  dar  um  sentido  unitário  a  sua  síntese  histórica.  Porém,  quando,  em  1860,  o
historiador transformou o projeto em livro, o título era outro e a ideia tinha perdido seu caráter integral. Com a edição de A

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