A constituição da História Como Ciência



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na época da Reforma, é, em minha opinião, sua obra-prima maior
[110]
.
Foi grande a importância de Ranke na decisão de Burckhardt de se dedicar aos estudos históricos. Porém, ao final do curso


em Berlim, a imagem de Ranke já havia se modificado no quadro das referências do jovem suíço. No semestre posterior ao
final do curso, em 1843, numa carta de Paris, ao relatar a um amigo o casual encontro com Ranke em Versalhes, Burckhardt se
refere  ao  ex-professor  como  uma  figura  do  passado:  “(Ranke)  estava  envolto  por  um  ar  um  tanto  envelhecido  da  Corte  de
Versalhes de muito tempo atrás”
[111]
.
Gustav Droysen e August Böckh desempenharam também um papel importante na formação de Burckhardt em seu período
berlinense.  De  Droysen  teria  partido  a  indicação  de  um  conjunto  de  fontes  ainda  não  trabalhadas,  sobre  o  momento  da
passagem  do  paganismo  para  o  cristianismo,  no  seio  do  poder  romano. A  partir  dessa  indicação  Burckhardt,  anos  depois,
escreveria A era de Constantino, o Grande, livro publicado originalmente em 1853. A importância de August Böckh em sua
formação ficara atestada na longa introdução a seus cursos sobre o mundo grego antigo, editados postumamente como história
da  cultura  grega.  Nessa  oportunidade,  ao  afirmar  sua  dívida  com  Böckh,  Burckhardt  revelava,  ao  mesmo  tempo,  o  caráter
amplo de sua perspectiva histórico-cultural:
Nosso curso guarda particular semelhança com aquele sobre antiguidades gregas e história grega, a respeito do qual devemos destacar primeiramente nossa
tarefa. As antiguidades, como no tempo de nossa juventude as tratava Böckh em suas famosas aulas, começavam com panoramas geográficos e históricos,
depois  descreviam  em  geral  o  caráter  do  povo,  e  passavam  então  a  tratar  os  singulares  aspectos  da  vida:  em  primeiro  lugar,  o  Estado  em  geral  em  suas
formas  principais;  depois,  um  certo  número  de  Estados  mais  importantes  tratados  em  particular,  com  suas  instituições  políticas,  administrativas  e  jurídicas;
enfim, as relações internacionais e as hegemonias, a condução da guerra por terra e por mar; em seguida, a vida privada (pesos, medidas, comércio, indústria,
agricultura, usos domésticos, incluindo a alimentação, o vestuário e as habitações, o matrimônio, as instituições familiares, a escravidão, a educação, os usos
funerários e o culto dos mortos), a religião, o culto e as festas, e entre as artes – que eram incluídas no ramo específico da história da arte –, a ginástica, a
dança e a música; por último, oferecia-se uma visão sobre as ciências cultivadas pelos gregos
[112]
.
Porém,  a  grande  referência  de  Burckhardt,  ao  final  do  curso  em  Berlim,  era  Franz  Kugler.  De  Kugler  provém  o  traço  de
maior importância na formação de Burckhardt como historiador da arte, e certamente foi também por influxo de Kugler que o
estudioso  suíço  ensaiou  suas  primeiras  concepções  a  respeito  do  Renascimento  italiano.  Franz  Kugler  tinha  iniciado  sua
carreira  histórico-artística  com  trabalhos  acadêmicos  resultantes  de  seus  estudos  e  viagens  pelos  monumentos,  coleções  e
bibliotecas alemãs. Pertencia a uma geração que exerceu importante papel no ensino da história da Prússia e, direcionando tal
empenho  para  o  campo  histórico-artístico,  colocou-se  a  tarefa  de  acumular,  documentar  e  dar  ordem  ao  conhecimento  das
artes do passado. Desse ordenamento surgiu seu esforço de conceber, em grandes blocos, a variedade de estilos e propostas
artísticas, sem descuidar, no entanto, de assumir questões mais individualizadas de datação e autoria. E Kugler desempenha
sua tarefa compondo manuais de história da arte. Ele é autor do Handbuch der Geschichte der Malerei (Manual de história da
pintura),  do Handbuch  der  Kunstgeschichte  (Manual  de  história  da  arte)  e  do Handbuch  der  Geschichte  der  Baukunst
(Manual de história da arquitetura). Kugler concebera, na verdade, um amplo panorama histórico-universal, apresentado como
um atlas descritivo e interpretativo das imagens significativas das grandes épocas da história. Em seu empreendimento, ele se
modelava não somente no erudito ou ilustrado leitor em seu gabinete, mas também no viajante, compondo, assim, um programa
de empiria histórico-universal acompanhada de comparativismo histórico-cultural
[113]
.
O estímulo provocado pelas lições de Franz Kugler levaria Burckhardt, em seguida, a uma viagem de estudos aos Países
Baixos, que resultou em seu primeiro livro de história da arte, Die Kunstwerke der belgischen Städte (As obras de arte das
cidades belgas), publicado em 1842. O livro cumpre um plano de organização que percorre o universo artístico das cidades
belgas como um Stationenbuch, ou seja, uma apreciação que interpreta a arte belga de cidade em cidade, fundindo a história
da arte com a literatura de viagem.
E o primeiro grande trabalho de Burckhardt deu-se exatamente no campo da história da arte e por convite de Franz Kugler.
Entre  o  outono  de  1846  e  setembro  de  1847  Burckhardt  viveu  em  Berlim,  trabalhando  com  Kugler  nas  segundas  edições,
revistas  e  ampliadas,  do Handbuch  der  Geschichte  der  Malerei  e  do Handbuch  der  Kunstgeschichte.  Concentremo-nos,
ainda que de modo ligeiro, no Manual de história da arte, para tentar entender os traços da pena de Burckhardt em meio ao
arranjo e à escrita de Kugler. Não há, no interior do texto, uma divisão precisa entre as partes compostas por Kugler e aquelas
elaboradas  por  Burckhardt.  No  entanto,  pelo  minucioso  trabalho  do  biógrafo  de  Burckhardt,  Werner  Kaegi,  sabe-se  que  os
acréscimos efetuados por Burckhardt concentram-se na passagem que conduz da Idade Média ao Renascimento
[114]
.  Kugler
era  conhecedor  da  arte  medieval  e  Burckhardt,  no  que  diz  respeito  a  esse  período  da  história,  manteve  no Manual  tanto  o
arranjo  quanto  as  interpretações  do  mestre.  No  entanto,  após  apresentar  Giotto  como  o  primeiro  grande  artista  da  “escola
toscana” e a discorrer sobre seus seguidores mais próximos, é provavelmente Burckhardt quem apresenta em esboço uma tese
que o acompanhará até o final da vida. Assim inicia-se a quarta seção do Manual, dedicada à “História da Arte Moderna”:
A  arte  moderna  [...]  começa  com  o  século  XV;  [...]  é  contemporânea  ao  redespertar  do  movimento  literário  e  da  consciência  elevada  da  individualidade
pessoal, onde desde então a vida geral dos povos cristãos ocidentais faz-se mais agitada e mais viva e, pelas próprias condições, também a arte se desenvolve
[...]. O sentimento da própria individualidade se expande e se comunica com as coisas, e a ciência ensina a reencontrar nos fatos da natureza e da história as
formas  que  servem  à  representação.  Estuda-se  intimamente  a  vida,  e  dela  se  reproduzem  as  aparências  como  num  espelho;  não  descuidando  o  muito  que
disso se podia aproveitar das obras antigas
[115]
.


Temos, de fato, nessa passagem, o esboço da tese que será desenvolvida nas décadas seguintes, e que tomará forma em A


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