A constituição da História Como Ciência


A magistratura da história



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A magistratura da história
(A  França)  tinha  anais,  e  não  uma  história.  Homens  eminentes  tinham-na  estudado  sobretudo  sob  o  ponto  de  vista  político.  Ninguém  penetrara  no  infinito
detalhe dos desenvolvimentos diversos da sua atividade (religiosa, econômica, artística etc.). Ninguém a tinha ainda abrangido com o olhar na unidade viva
dos elementos naturais e geográficos que a constituíram. Fui o primeiro a vê-la como uma alma e uma pessoa
[92]
.
Os  temas  mais  recorrentes  na  vasta  e  diversificada  obra  de  Jules  Michelet  são  o  “povo”,  a  “pátria”,  a  “nação”,  a
“Revolução  Francesa”,  “a  semelhança  entre  a  história  e  a  vida  pessoal”,  “a  mulher”,  “a  criança”,  o  “amor”,  o  “corpo”,  a
“morte”,  a  “natureza”,  para  citar  os  mais  proeminentes.  Dentre  os  inúmeros  estudos  existentes  acerca  de  cada  um  –  cujos
exemplos  podem  ser  vistos  nas  referências  bibliográficas  que  acompanham  este  trabalho  –,  vale  destacar  a  obra  de  Roland
Barthes, Michelet
[93]
,  que  de  forma  notável  invocou  as  temáticas  predominantes  ou,  como  chamaria,  as  “obsessões”  do
pensamento do autor.
Depois de tratar do “camponês”, um de seus temas-chave, selecionamos outro assunto de fundamental importância para o
escritor, mas que, em virtude das limitações deste estudo, será retomado de maneira rápida e resumida: a “história”. Idealista,
Michelet acreditava numa “libertação progressiva da humanidade”:
Com o mundo começou uma guerra que deve terminar com ele, e não antes; aquela do homem contra a natureza, do espírito contra a matéria, da liberdade
contra a fatalidade. A história não é outra coisa senão o relato deste interminável conflito
[94]
.
Seus trabalhos históricos são marcados por algumas concepções facilmente identificáveis, como a busca por uma “história
total” que levasse em conta também o cotidiano e aspectos culturais da vida dos povos; a ênfase na “história-ressurreição”
que estaria apta a perscrutar os traços constitutivos da nação francesa, desde a conquista romana até o início do século XIX; a
história enquanto “autorrepresentação”, no sentido de que o conhecimento de uma dada realidade remete a uma experiência
pessoal;  sua  função  “modelar”,  que  deveria  educar  o  povo  e  oferecer  exemplos  para  a  posteridade,  cujo  pressuposto  seria
utilizado para se passar de uma “literatura” à “história”; e, acima de tudo, a caracterização de uma história feita a partir do
“povo”, sujeito, agente transformador e alicerce da nação na obra micheletiana.
O contexto histórico no qual o autor estava inserido – Império, Restauração da Monarquia, Revoluções de 1830 e 1848, os
períodos  conhecidos  como  “Segunda  República”  (1848-1852),  “Segundo  Império”  (1852-1870)  e  a  criação  da  “Terceira
República”  em  1870  –  permitiu  que  o  debate  sobre  o  passado  e  os  métodos  da  produção  deste  saber  ocupassem  um  lugar
relevante na França daquele período
[95]
. Michelet, ao longo de três décadas, comporia uma história dos acontecimentos e dos


personagens históricos a partir de pesquisas em bibliotecas e documentos encontrados em arquivos, sem deixar de considerar
o  que  hoje  denominamos  “fontes  não  convencionais”,  como  a  pintura,  a  arquitetura,  as  anotações  de  viagens  e  observações
sobre os costumes e modos de vida do povo, os discursos orais etc.
Faz-se necessário lembrar também que ao longo de sua trajetória Michelet teve contato com inúmeros pensadores – seja por
meio  da  leitura  ou  de  cartas  e  conversas  pessoais  –  que,  de  uma  forma  ou  de  outra,  o  despertaram  para  determinadas
categorias teóricas e metodológicas que acentuavam, contradiziam ou apenas se harmonizavam com suas preocupações. Dessa
gama de autores, impossível de ser rastreada aqui, podemos citar o poeta romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), Johann Gottfried
von Herder (1744-1803), Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) e Giambattista Vico (1668-1744).
Como já abordamos este tema em nossa tese de doutorado e em um capítulo de livro a ser publicado brevemente
[96]
, com
especial  atenção  para  a  influência  de  Vico  no  pensamento  do  historiador,  preferimos  mencionar  como  Michelet  inspirou
vários intelectuais que vieram depois dele, tornando-se modelo, por exemplo, para os estudiosos da nouvelle histoire  (nova
história)
[97]
. Como bem observou Afonso Carlos Marques dos Santos:
A  imagem  de  Michelet  no Panteon  dessa  história  é  uma  imagem  por  vezes  positiva  e  negativa,  porém  favorecida:  pela  abertura  temática  (o  corpo,  a
natureza, a multidão, a psicologia coletiva); pela ambição de uma história “total”; pela inversão democrática dos interesses tradicionais em benefício de uma
história das coletividades anônimas; pelo sentido das evoluções de longa duração; pelo sentido etnológico do passado; pelo gosto das transgressões históricas
para uma integração da natureza; pela certeza de que a história vincula-se ao indizível; pelo seu sentido dos famosos “silêncios da história” e pela sua arte de
fazer falar ao que vem da escuridão
[98]
.
Para finalizar, gostaríamos de resgatar uma das principais ideias apresentadas em Tudo que é sólido desmancha no ar, de
Marshall Berman, na tentativa de revelar os motivos pelos quais Michelet tornou-se um dos maiores historiadores do século
XIX. Seguindo os argumentos do autor, já há algum tempo tem-se abandonado a principal característica do que ele denomina
“movimento moderno” e que consiste na “energia” que nos revigora a cada dia e que nos permite continuar a acreditar “no dia
de amanhã e no dia depois de amanhã”
[99]
, segundo ele, tão bem-compreendida por grande parte dos primeiros intelectuais
oitocentistas,  da  qual  Jules  Michelet  certamente  faz  parte. A  maneira  com  que  se  dedicou  à  escrita  da  história  encanta  pela
devoção  de  quase  sessenta  anos  (se  considerarmos  que  ele  escreve  sem  parar  durante  56  anos  de  sua  vida  adulta)  e  uma
imensa obra; pelas longas horas despendidas em seu gabinete ou nos cursos que eram acompanhados por multidões que, nos
momentos politicamente mais exaltados, chegavam a sair em passeatas após ouvirem o mestre; pelos esforços e insistência em
prosseguir,  mesmo  com  os  incômodos  causados  pelo  corpo  já  enfraquecido;  mas,  principalmente,  pela  paixão  com  que  se
entregou  ao  trabalho  e  ao  combate  incessante  de  tudo  o  que  lhe  indignava,  seja  no  campo  político,  econômico,  cultural  ou
social, que é sem dúvida sua grande lição.


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