A constituição da História Como Ciência



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Histoire de la Révolucion Française e uma série de palestras para o ano acadêmico de 1847-1848 no Collège de France com
inequívoco caráter panfletário em relação à defesa do “povo”, respondendo aos romancistas que queriam diminuir, no espírito
desse povo, a ideia da França unida e fraterna como na época da Revolução Francesa. Aos olhos de Michelet, o perigo que a
literatura  “romântica”  representava  fica  expresso  na  seguinte  passagem:  “[...]  faz-se  de  tudo  para  que  ele  (o  povo)  perca  o
senso da bela unidade que foi sua vida; sua alma lhe é retirada. E essa alma era o sentido da França, como fraternidade de
homens vivos e como sociedade com os franceses das antigas eras”
[64]
.
A  título  de  ilustração,  optamos  aqui  por  um  exame  mais  minucioso  da  obra  de  Honoré  de  Balzac,  em  detrimento  aos
trabalhos de George Sand e Eugène Sue, sendo que de suas obras privilegiamos La comédie humaine (A comédia humana),
que  retrata  a  história  da  moderna  sociedade  francesa.  Dentro  dessa  série  de  romances,  a  escolha  por Les  Paysans  se
justificaria  em  função  da  referência  do  historiador  a  este  texto  e  por  tratar  basicamente  da  questão  dos  camponeses,  tema
central das obras de Michelet
[65]
.
Não se deixando levar por quaisquer ilusões quanto à “pureza moral” ou à “natureza genuína” dos homens do campo, tal
como  veremos  em  grande  medida  nos  escritos  do  historiador,  Balzac  pretende  desmontar  um  dos  “lugares  comuns”  do
romantismo  herdado  de  Rousseau,  a  bondade natural  do  homem
[66]
:  se  os  indivíduos  são  bons  por  natureza,  os  melhores
seriam aqueles que levam a vida mais natural, ou seja, os camponeses.
No intuito de contradizer esta ideia, Balzac inicia um estudo dos costumes da vida rural, na tentativa de comprovar que o
quadro  idealista  dos  hábitos  campestres,  tão  frequente  nas  produções  da  época,  não  correspondia  à  realidade,  já  que  esta
mostrava  sobretudo  a  astúcia  dos  camponeses  em  enganar  seus  compatriotas,  os  interesses  que  predominavam  sobre  um
sentimento  do  bem  e  do  belo,  assim  como  a  constante  embriaguez  desses  indivíduos  nas  tavernas,  consideradas  como  o
parlamento do povo.
Ao retomar alguns títulos dos capítulos desta obra, dentre eles “Quem tem terra, tem guerra”, “Uma bucólica esquecida por
Virgílio”
[67]
,  “A  taverna”,  “Os  inimigos  face  a  face”,  “Uma  história  de  ladrões”,  “Da  mediocracia”,  “O Oaristis:  XXVII
écloga  de  Teócrito  pouco  apreciada  no  tribunal  do  júri”
[68]
,  “Como  a  taverna  é  o  parlamento  do  povo”  e  “O  usurário  do
campo”, podemos observar como Balzac vai retratar o povo: na sua opinião, além de interesseiros e malvados, os camponeses
eram ladrões e ingratos, pois, acreditando na ineficiência da lei, mantinham negócios escusos desrespeitando por completo os
bens e propriedades alheios.
Assim,  Balzac  inicia  seu  romance  relatando  o  que  se  passou  com  Emílio  Blondet  que,  ao  explorar  o  Vale  do  Avonne,
encontra o prazer da vadiação ao se defrontar com o tédio da vida campestre e se vir privado de todos os seus hábitos. Além
disso, demonstra que ao se deparar com um homem do campo, conhecido por todos como Fourchon, Blondet começa a admitir
a realidade do tipo camponês que se vê nas antigas tapeçarias, nos velhos quadros e nas velhas esculturas, e que até então lhe
parecera fantástico: “Que ideias, que costumes poderá ter um ente desta espécie, e em que pensará ele?”, conjeturava Blondet,
cheio de curiosidade. “Será meu semelhante? Só temos em comum a forma, e mesmo assim [...]”
[69]
.
A partir daí o romancista passa a descrever a vida no campo sob o olhar do parisiense Blondet, o que incluía o relato de
construção das casas dos camponeses, bem como as espécies de flores e animais lá existentes. Mas apesar do florido e do ar
campestre, o autor não deixa de mencionar o cheiro forte e nauseante do vinho e da comida que exalava das tavernas, além dos


maus costumes e das vicissitudes da vida social ou privada do campo.
Antes  de  mais  nada,  Balzac  procura  mostrar  que  várias  atividades  eram  desenvolvidas  nas  tavernas,  sendo  que  além  de
“distraírem-se” com as criadas, os trabalhadores iam para lá fechar seus negócios, saber as novidades colhidas pelas filhas de
Tonsard, dono do Grand-I-Vert, uma das  mais  importantes  tavernas  da  região,  por  Fourchon  e  seu  “sobrinho”  Mosquito,  ou
trazidas por Brunet, o mais célebre oficial de justiça de Soulanges; ali se fixava o preço do feno, do vinho, dos dias de serviço
e das empreitadas. O Grand-I-Vert servia de ponto de reunião para os assaltantes, do mesmo modo que Tonsard, como dono
da taverna, acabou tornando-se chefe deles pelo terror que inspirava no vale.
Ao retratar o sogro de Tonsard, Fourchon, o autor comenta que de sitiante passou a jornaleiro beberrão, preguiçoso, mau e
rabugento, capaz de tudo, tal como as pessoas do povo que de certa prosperidade voltam a cair na miséria: o genro preguiçoso
agora encontrara um sogro vadio
[70]
.
Para Carlos, criado de Blondet, no campo todos aparentam uma vida honesta, mas na realidade deve-se desconfiar de tudo,
principalmente  das  pessoas  que  lá  vivem,  tal  como  a  mulher  de  Tonsard  que  incentivava  seu  marido  nos  vícios,  tanto  que
instalou  o  botequim  do  Grand-I-Vert,  cujos  primeiros  fregueses  foram  criados  das  Aigues,  guardas  e  caçadores:  “Com  o
tempo,  trabalhadores  e  vadios  da  região  afeiçoaram-se  à  taverna  do  Grand-I-Vert,  tanto  pelos  dotes  da  mulher  de  Tonsard
como pela camaradagem existente entre aquela família e a gente miúda do vale”
[71]
.
Embora todo mundo soubesse como aquela família era pobre de princípios e de escrúpulos, ninguém dizia nada a respeito
dos costumes do Grand-I-Vert:
No começo desta cena torna-se necessário, de uma vez por todas, explicar às pessoas habituadas à moralidade das famílias burguesas que em matéria de
costumes domésticos os camponeses não têm nenhuma delicadeza; só invocam a moral a propósito de uma filha seduzida, se o sedutor é rico e medroso. Até
que  o  Estado  os  arrebate,  os  filhos  constituem  um  capital,  um  instrumento  de  conforto.  O  interesse,  sobretudo  depois  de  1789,  tornou-se  o  único  móvel  de
suas ideias; para eles nunca se trata de saber se uma ação é legal ou imoral, mas se é proveitosa
[72]
.
Descrevendo a vida social como uma realidade perversa e monstruosa, Balzac diverge de Michelet que faz um retrato das
pessoas do povo, em especial do camponês, como aqueles que seguem um instinto de bondade, autenticidade e perseverança, e
que são trabalhadores e se sacrificam por seus familiares e pela pátria, apesar de todos os obstáculos
[73]
. Nosso historiador
esperava  que  a  ficção  literária,  em  particular  o  romance,  oferecesse  exemplos  de  virtude  e  comportamento  socialmente
adequados,  servindo  como  guia  de  conduta.  Mas  como  pudemos  perceber,  em Les  Paysans,  por  exemplo,  Balzac  valoriza
temas  como  a  feiura  e  a  vida  desregrada,  pintando  um  quadro  vil  da  sociedade  francesa  de  meados  do  século  XIX,  que
Michelet se empenhará em restituir:
Não captei essa personalidade superficialmente, em seus aspectos pitorescos ou dramáticos; não a vi de fora, experimentei-a por dentro. E, graças a essa
experiência, muita coisa íntima do povo, que ele tem em si sem compreender, eu compreendi. E por quê? Porque eu podia segui-la em suas origens históricas,
vê-la sair do fundo do tempo. Quem se atém ao presente, ao atual, não compreende o atual. Quem se contenta em ver o exterior, em pintar a forma, não
poderá sequer vê-la: para vê-la com exatidão, para traduzi-la fielmente, é preciso saber o que ela encobre; não há pintura sem anatomia
[74]
.
Para Michelet nunca é suficiente o conhecimento estatístico formal, econômico; o dado social só pode ser apreendido em
toda a sua complexidade se nos indagarmos também sobre “os sentimentos mais profundos do povo”. Assim, ao dedicar-se à
caracterização  das  formas  de  vida  dos  “simples”,  seus  costumes,  sofrimentos  e  triunfos,  Michelet,  além  de  se  dispor  a
“colher” informações junto ao povo para averiguar se esses livros franceses representavam realmente a França ou se dela só
mostravam certas faces excepcionais, escreve Le Peuple para erigir o próprio “povo” à qualidade de agente transformador da
história. Nessa obra o autor examina as classes sociais uma a uma ao longo de oito capítulos, dando mostras de que todas elas
faziam  parte  da  rede  socioeconômica  que  as  tornavam  “servas”,  não  deixando  de  enfatizar,  no  entanto,  suas  conquistas  e
superações.
Como  atenta  Stephen  Kippur
[75]
,  ao  contrário  de  muitos  escritores  que  se  preocuparam  quase  exclusivamente  com  a
pobreza urbana e com a classe trabalhadora que surge com o advento da industrialização, Michelet começou sua análise pelo
camponês. Para ele, o campesinato era a camada social mais importante da França – “A terra da França pertence a quinze ou
vinte milhões de camponeses que a cultivam [...]”
[76]
 –, pois que teria tratado e desenvolvido a terra, fornecendo o alimento
aos demais grupos. O historiador reconheceria e valorizaria esse “dom” atribuindo ao homem do campo certas virtudes, como
o “trabalho duro e persistente”, a “sobriedade”, o “jejum” e a “austeridade moral”: “Parece que Deus deu como patrimônio a
essa raça indestrutível o dom de trabalhar, de combater se for preciso, sem comer, o dom de viver de esperanças, o dom da
alegria corajosa”
[77]
.
Mas o camponês contemporâneo não estava feliz com suas condições de vida miseráveis: “Vede sua comida e comparai-a à
do  operário;  este  come  melhor  todos  os  dias  que  o  camponês  no  domingo”
[78]
.  Entretanto  ele  resistia,  conforme  Michelet,
para quem era necessário dar a conhecer o amor deste homem pelo campo, seu apreço pela terra, sua “amante”:


Se quisermos conhecer o pensamento íntimo, a paixão do camponês da França, nada mais fácil. Basta passearmos no domingo pelo campo, sigamo-lo. Ei-lo
que vai à nossa frente. São duas horas; sua mulher está na reza; ele está endomingado; garanto que vai ver a amante. Que amante? Sua terra. Não digo que
vai diretamente para lá. Não, está livre nesse dia, pode ir ou deixar de ir. Já não basta ir todos os dias da semana? [...] Por isso se desvia, caminha por outros
lados,  tem  o  que  fazer  em  outra  parte  [...].  No  entanto,  acaba  indo.  [...]  Depois  de  alguns  passos  para,  volta-se,  faz  meia-volta  e  lança  sobre  a  terra  um
derradeiro olhar, olhar profundo e sombrio; mas, para quem sabe observar, é um olhar todo paixão, todo de dentro do coração, repleto de devoção. Se aquilo
não  é  amor,  por  que  sinal  reconhecê-lo  neste  mundo?  É  ele,  não  riais  [...]. A  terra  assim  o  quer,  para  produzir;  caso  contrário,  não  dará  nada,  essa  pobre
terra da França, quase sem gado e sem adubo. Ela produz porque é amada
[79]
.
Ao  abordar  o  “casamento”  do  homem  com  a  terra  –  a  terra  da  França  produzia  “porque  era  amada  pelo  camponês”,  por
meio do seu trabalho devoto e de sacrifícios “feitos com suor e amor” – Michelet se posicionava contra a Inglaterra que, na
sua opinião, só se interessava pelo lucro do país:
Como os ingleses não têm as mesmas raízes no solo, emigram para onde existe lucro. Dizem o país; nós dizemos a pátria. Entre nós, homem e terra estão
juntos  e  não  se  deixarão;  existe  entre  eles  um  casamento  legítimo,  para  a  vida  e  para  a  morte.  O  francês  desposou  a  França. A  França  é  uma  terra  de
equidade.  Em  casos  duvidosos,  geralmente  adjudica  a  propriedade  a  quem  nela  trabalha. A  Inglaterra,  ao  contrário,  pronunciou-se  pelo  dono,  expulsou  o
camponês; só é cultivada por operários. Grave diferença moral!
[80]
Michelet defendia a posse da terra pelo camponês e comparava-o ao soldado que protegia sua propriedade como se fosse
um front, pois mais que uma terra era a sua honra que estava em jogo:
A propriedade, grande ou pequena, exalta o coração. Quem não se faz respeitar por si mesmo respeita-se e estima-se por sua propriedade. Tal sentimento
acrescenta-se ao justo orgulho que esse povo tem de sua incomparável tradição militar. Tomai ao acaso, nessa multidão, um pequeno diarista que possui um
vigésimo de arpent; não encontrareis nele os sentimentos do diarista, do mercenário; trata-se de um proprietário, de um soldado (já o foi e sê-lo-ia amanhã);
seu pai integrou o grande exército
[81]
.
Havia no historiador a ideia da propriedade associada à afetividade e ao trabalho. Nesse sentido, considerava que o direito
do camponês sobre a terra era o primeiro de todos, isto é, o de tê-la feito, o que pode ser visualizado nas imagens que criou
para demonstrar a completa transformação que o trabalho humano havia operado em determinadas regiões:
Sim, o homem faz a terra; podemos dizer isso até das regiões menos pobres. E não o esqueçamos nunca, se quisermos compreender como ele a ama, e com
que paixão. Lembremos que, por séculos, gerações lançaram nela o suor dos vivos, os ossos dos mortos, suas economias, seu alimento [...]. Essa terra, onde
o homem por tanto tempo depositou o melhor do homem, sua seiva e sua substância, seu esforço, sua virtude, ele bem sente que é uma terra humana, e ama-
a como a uma pessoa
[82]
.
Em sua descrição do homem simples, Michelet afirma que este depositava sobre a terra seu suor, seu vigor e todos os seus
desejos e expectativas para torná-la viva e produtiva, não se importando com o que tinha de aceitar para adquiri-la; emigrava
e afastava-se quando necessário, sempre amparado por esse pensamento, por essa esperança.
Malgrado  todas  as  dificuldades,  o  camponês  micheletiano  estava  continuamente  disposto  a  enfrentar  as  mais  duras
privações  para  expandir  suas  terras;  sua  aquisição  era,  para  ele,  “um  combate  do  qual  nunca  recua”
[83]
.  Neste  ponto,  o
historiador lembra que se em outros tempos esse mesmo camponês combateu quando só o que havia a ganhar eram balas, o que
não faria agora em nome de sua terra? Tudo, responde, menos comportar-se como um fraco:
Vede essas rochas crestadas, esses áridos picos do Midi; lá, pergunto-vos, onde estaria a terra sem o homem? Lá, a propriedade está toda no proprietário.
Está  nos  braços  infatigáveis  que  quebram  a  pedra  diariamente  e  que  misturam  esse  pó  a  um  pouco  de  húmus.  Está  na  forte  coluna  do  vinhateiro  que,  da
costa, sobe refazendo sempre seu campo, que desmorona sempre. Está na docilidade, no ardor paciente da mulher e da criança que empurram o arado com o
burro  [...].  Cena  penosa  de  se  ver  [...]. A  própria  natureza  se  compadece.  Entre  rocha  e  rocha  se  agarra  a  pequena  vinha.  O  castanheiro,  sem  terra,
mantém-se envolvendo a pura pedra com suas raízes, sóbrio e corajoso vegetal; parece viver do ar, e, como seu senhor, produzir em jejum
[84]
.
Se  a  imagem  do  homem  do  campo  como  um  ser  tacanho,  avaro,  que  não  confia  em  ninguém  é  recorrente  em  nossas
lembranças, Michelet a confronta ao desconhecimento de suas privações, seus infortúnios, que de algum modo justificariam tal
postura.  Sua  imaginação  estava  voltada  às  liberdades  que  a  terra  lhe  proporcionaria,  mesmo  que  a  isso  se  somasse  as
obrigações da escravidão diária, a faina cotidiana que fazia do camponês azafamado alguém pouco sociável:
É de espantar que esse francês de nossos dias, outrora tão risonho, tão dado às canções, já não ria mais? É de espantar que, encontrando-o sobre essa terra
que o devora, ele vos pareça tão sombrio...? Vós passais, vós o saudais cordialmente; ele não vos quer ver, enterra o chapéu na cabeça. Não lhe pergunteis o
caminho;  se  ele  responde,  é  bem  capaz  que  vos  indique  a  direção  contrária.  Assim  o  camponês  se  isola,  se  amargura  mais  e  mais.  Tem  o  coração
excessivamente fechado para abri-lo a um sentimento qualquer de boa vontade. Ele odeia o rico, odeia o vizinho, odeia o mundo. Sozinho, nesta propriedade
miserável,  como  em  uma  ilha  deserta,  ele  se  torna  um  selvagem.  Sua  insociabilidade,  nascida  do  sentimento  da  própria  miséria,  torna-a  irremediável;  ela  o
impede de aproximar-se daqueles que deveriam ser seus auxiliares e amigos naturais, os outros camponeses [...]
[85]
.
Essa  animosidade  do  homem  da  terra  se  justificaria  pelas  condições  precárias  a  que  estava  submetido  na  moderna
sociedade  industrial,  o  que  levaria  Michelet  a  escrever Le  Peuple,  segundo  ele,  com  o  intuito  de  advertir  o  governo  das
influências que lutavam para paralisar a obra capital da França: “a aquisição da terra pelo trabalhador”
[86]
.
A Revolução de 1789 “teria suprimido uma nobreza, mas criado outra de camponeses” que, no entanto, ao se transformarem
em devedores dos usurários da roça, não só se tornariam pobres, mas perderiam sua liberdade e coragem:
Uma família que de mercenária se torna proprietária passa a respeitar-se, eleva-se em sua estima própria, muda: colhe de sua terra uma safra de virtudes. A
sobriedade do pai, a economia da mãe, o trabalho corajoso do filho, a castidade da filha, todos esses frutos da liberdade serão, pergunto eu, bens materiais,


tesouros que se podem adquirir por algum preço? [...] Diz-se que a Revolução suprimiu a nobreza; mas é precisamente o contrário, ela criou trinta e quatro
milhões de nobres. [...] Esse povo é nobre depois de todas essas grandes coisas; a Europa continuou plebeia. Mas é preciso que defendamos seriamente essa
nobreza, pois ela corre perigo
[87]
.
O historiador alerta que este homem esforçado, ativo e valente indubitavelmente se converteria num devedor temeroso, num
soldado  fraco  diante  de  uma  batalha  prestes  a  ser  perdida,  e  tantos  seriam  os  seus  sofrimentos  e  angústias  que  ele  próprio
passava  a  duvidar  do  futuro  dessa  classe  se  sujeitada  ao  constrangimento,  à  penhora,  à  expropriação,  enfim,  ao  terror  dos
judeus
[88]
. Aqui eclode, aos olhos de Michelet, a necessidade de eximir os camponeses da responsabilidade de seus defeitos.
O homem do campo, visto por Balzac, é áspero, desconfiado? É que o regime da propriedade lhe é desfavorável. O infeliz,
carregado de dívidas, vive com medo do agiota:
O camponês, tornando-se escravo do usurário, não será apenas miserável, ele perderá a coragem. Um devedor triste, inquieto, trêmulo, receoso de enfrentar
seu credor, um devedor que se esconde poderá conservar alguma coragem? Que sucederá a uma raça assim criada, sob o terror dos judeus, e cujas emoções
seriam as do constrangimento, da penhora, da expropriação?
As leis têm de mudar; o direito deve curvar-se a esse alto imperativo político e ético
[89]
.
Ao final de sua apreciação da vida no campo, Michelet nota que a indústria, “irmã mais nova da agricultura”, fez obliterar a
primogênita que, embora fornecesse mais da metade da receita do país e se constituísse de homens que não só representavam a
parcela mais numerosa da nação, mas também “a mais forte e sadia” do ponto de vista físico e moral, não teria recebido um
tratamento adequado do governo, dominado por capitalistas e industriais. E convocaria os homens de estudo e reflexão a fazer
o  justo  retrato  do  homem  da  terra  como  aquele  “ocupado  em  fundar,  por  meio  do  trabalho,  da  economia,  dos  meios  mais
respeitáveis, a obra imensa que faz a força deste país, a participação de todos na propriedade”
[90]
:
Homem da terra e vivendo na terra, parece feito à sua imagem. Como a terra, ele é ávido; a terra nunca diz: basta. É obstinado, tal como a terra é firme e
persistente; é paciente como a terra, e, a seu exemplo, não menos indestrutível que ela; tudo passa e ele permanece [...]. E chamais a isso defeitos? Ora, se
ele  não  os  tivesse,  há  muito  tempo  já  não  teríeis  a  França!  [...] A  França  inteira,  se  tivesse  o  verdadeiro  sentimento  de  sua  missão,  auxiliaria  os  que  dão
prosseguimento a essa obra. Que fatalidade faz com que, hoje, ela se paralise entre suas mãos! [...] Se a situação presente continuar, o camponês, em lugar
de adquirir, venderá, como fez em meados do século XII, e voltará a ser mercenário. Duzentos anos jogados fora! [...] E então não seria a queda de uma
classe de homens, mas a queda da pátria
[91]
:


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