A constituição da História Como Ciência


A polêmica com os “românticos”: o caso de Balzac



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
A polêmica com os “românticos”: o caso de Balzac
Um  museu  cirúrgico  de  todas  as  deformidades  morais  começava  a  ser  exibido  com  Balzac.  Seu  livro  de  1832   (La  Grenadière  –  O  Romeiral,  em
português) inicia a guerra ao casamento, onde a veia inesgotável de Lélia (obra de George Sand) se lançava. Literatura de grande efeito que fundou
solidamente um dos maiores traços desse tempo, o horror que o homem tem de se casar. [...] Desde então, assentei minha tenda à parte, ou antes,
fui contra toda esta literatura. Chamei-a mórbida e não me retrato
[57]
.
A censura de Michelet aos literatos “românticos” por seu “não comprometimento com a verdade e/ou com o social” e por
sua “pintura do feio e da prostração moral” indica a medida da utilização do discurso histórico na França como legitimador de
posições e, principalmente, de ser a fundamentação de uma tradição que se iniciava: a instituição da história como um campo
específico de investigação
[58]
.
Em As três culturas Wolf Lepenies procura desvendar o processo desse confronto, que ocorre a partir de meados do século
XIX,  entre  literatos,  isto  é,  escritores  e  críticos,  de  um  lado,  e  cientistas  sociais,  incluindo  historiadores  e  sociólogos,  de
outro
[59]
. Como nota, no final do século XVIII é impossível uma separação nítida entre o modo de produção literário e o da
obra científica. Contudo, o exemplo de Buffon serviria para mostrar de que forma esse processo de diferenciação se impõe e
intensifica ao longo dos anos de 1800:
No século XVIII sua Histoire naturelle é um sucesso de vendas. Quando são publicados, em 1749, os primeiros volumes se esgotam em poucas semanas;
outras edições se seguem ainda no mesmo ano. Finalmente aparecem, na França, nada menos que 250 edições populares desta obra. Buffon era um grand
seigneur  da  ciência  e,  como  tal,  típico  do  século  XVIII;  um  empreendedor  que  sabia  habilmente  tirar  proveito  de  sua  atividade  científica;  tinha  o  dom  da
palavra, mesmo dominando apenas sua própria língua, o francês. [...] Foi como estilista que Buffon obteve reconhecimento: nem todos elogiavam o que dizia,
mas quase todos ficavam impressionados pelo modo como o fazia
[60]
.
Ao ser eleito para a Academia Francesa em 1753, prossegue o autor, Buffon faria um discurso sobre o estilo que ninguém
teria estranhado: era tido como algo comum um homem da ciência natural se conceber como escritor, “como alguém para quem


não  importa  somente o  que  diz,  mas  também como  diz”
[61]
.  Mais  para  o  fim  do  século,  porém,  o  que  antes  constituía  seu
poder de atração tornava-se nocivo para Buffon: “Ele é o último intelectual que pode basear sua reputação científica no seu
talento  para  a  exposição,  mas  também  o  primeiro  a  perder  seu  prestígio  por  ser  excessivamente  escritor  e  muito  pouco
pesquisador”:
Durante a vida de Buffon desenvolve-se uma reinterpretação decisiva do conceito de romance: se antes se liam e elogiavam seus textos justamente por seu
valor como entretenimento, agora eles são rejeitados como romans scientifiques. São agora considerados leitura para mulheres e leigos: o especialista pode,
entretanto, poupar-se o esforço de tomar conhecimento deles
[62]
.
De  acordo  com  Lepenies,  a  interrupção  da  carreira  de  Buffon  e  a  aceitação  instável  à  sua Histoire  naturelle   (História
natural) demonstram como as ciências vão pouco a pouco se distanciando da literatura e de que forma os valores tidos como
“literários”  passam  a  ser  excluídos  do  cânone  do  saber  aceito.  Todavia,  lembra  o  autor,  “esse  processo  não  é  linear  nem
irreversível. Ao  contrário,  é  a  disparidade  de  tempos  que  o  caracteriza:  não  abrange  todas  as  disciplinas,  nem  atinge  com
igual intensidade as disciplinas abrangidas”
[63]
.
No  caso  da  história,  podemos  pensar  que  a  criação  das  obras  de  Michelet  em  contraposição  aos  literatos  de  seu  tempo
insere-se num contexto maior de extensão da função “pedagógica” de formação do povo, atribuída até então à literatura (de
finais  do  século  XVIII  e  inícios  do  XIX),  para  o  âmbito  da  história.  Isso  pode  ser  visualizado  quando  escreve Le  Peuple,

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