A constituição da História Como Ciência


A(s) herança(s) repartida(s) de Braudel?



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
A(s) herança(s) repartida(s) de Braudel?
Nas últimas décadas, os historiadores discutiram muito sobre os ritmos da história (tendo a obra de Fernand Braudel (1902-1985) como base); (mas) pouco
ou nada, o que é significativo, sobre os ritmos da narração histórica
[703]
.
A síntese de Carlo Ginzburg sobre as discussões da teoria e da história da historiografia no século passado é bastante eficaz
para pensarmos tanto as heranças de Braudel como o que estaria atual e inatual em suas interpretações e em seus projetos para
a escrita da história.
Na  década  de  1970  Braudel  passava  a  rever  seu  projeto,  e  ainda  que  não  se  desvinculasse  dele,  indicou  alguns  de  seus
limites.  Numa  entrevista  de  1972  concedida  a  Willian  McNeil,  para  a Revista  de  história  moderna,  e  intitulada  “Minha
formação de historiador”, Braudel percebia as redefinições de fronteiras e dos campos de pesquisa na história, de tal modo
que o próprio desenvolvimento das pesquisas, que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960, destituiu a unidade da história, tal
qual  ele  tanto  frisara. Além  disso,  o  diálogo  entre  história  e  ciências  sociais  tornou-se  ainda  mais  híbrido,  criando,  assim,
temas,  problemáticas  e  abordagens,  que  acabaram  por  condenar  aquele  projeto  dos  anos  de  1950.  Daí  o  autor  acabar  por
encerrar sua entrevista com as seguintes palavras:
Enfim, teria tido razão ao decidir, há mais de quatro anos (1968), deixar o cuidado de dirigi-los, sem mais me ocupar deles, a uma equipe jovem (J. Le Goff,
E. Le Roy Ladurie e Marc Ferro) [...]. Dá-se, às vezes, eu não estar de acordo com eles, abertamente. Mas, graças a eles, a velha casa tornou-se de novo
uma casa da juventude
[704]
.
Esse  fato  foi  notado  por  Jacques  Le  Goff  em  uma  entrevista  concedida  em  1982  a  Francesco  Maiello,  na  Itália,  em  que
dizia:
Repare,  é  verdade  que  a  sua  ideia  da  longa  duração  se  apresentou  como  fecunda,  justamente  muito  fecunda,  aos  historiadores  de  hoje.  Não  esqueçamos,
porém, que se lermos muitas obras destes historiadores em confronto com o famoso artigo de Braudel, teremos imediatamente a sensação de que a ideia foi
isolada do seu contexto. Qual é o sistema explicativo  que  Fernand  Braudel  propõe  no  seu  artigo  sobre  a  longa  duração?  É  que  existem  ritmos  diversos  na
evolução  histórica  e  que  são  as relações  e  os  desfasamentos  entre  estes  ritmos  diversos  de  evolução  que  fazem  a  história  [...]. A  história  para  Braudel
explica-se com a relação entre as durações e os ritmos; ele pessoalmente pode (poderia) preferir a longa duração, porque a mais descurada pelas razões de
que  se  falava  a  propósito  do  velho  acontecimentalismo.  O  que  me  desagrada  é  que,  por  razões  de  vocabulário  e  por  exemplificações  sucessivas,  alguns
grandes historiadores tenham podido fazer crer que essa longa duração correspondesse ao imobilismo
[705]
.
Em  todo  caso,  não  se  encontra  uma  definição  fechada  sobre  essa  e  outras  questões  na  obra  de  Braudel,  porque  ela
permaneceu  dinâmica  em  função  das  necessidades  de  definições  de  discursos  propícios  a  lugares  sociais  diversificados.
Desse modo, há uma filosofia (a compreensão da diversidade das ações humanas no tempo, por meio do questionamento do
presente sobre o passado e vice-versa), um projeto (o estudo de todas as civilizações no tempo e no espaço), uma metodologia
(quantitativista,  serialista,  estruturalista)  e  uma  política  (a  história  propiciaria  os  caminhos  para  o  estudo  integrado  das
sociedades do passado, junto com as ciências sociais), que, embora apareçam dispersas no pensamento de Fernand Braudel,
encontravam-se em processo de permanente construção e reconstrução em sua obra.


Na  década  de  1940  Braudel  elaborava  uma  perspectiva  que,  nos  anos  de  1950,  tornar-se-ia  um  projeto  de  pesquisa  com
base em equipes. Nos anos de 1970, sem estar no comando de instituições universitárias, nas quais vinha elaborando aquele
projeto, o autor passaria a avaliar os seus limites, não pela inviabilidade de estudos, mas pela própria explosão do número de
trabalhos em história social (mesmo se consideradas as diversas abordagens e temas tratados), que acabou por deixar aquele
sentido de totalidade (no estudo das sociedades do passado) e intercâmbios entre História e Ciências Sociais fora do alcance
esperado;  e  levou  a  novas  definições  do  trabalho  intelectual  ao  se  reformular  outras  escalas  de  medida  para  se  estudar  o
social. Do estudo macrossocial das estruturas para a micro-história do social
[706]
. Dentro dessa perspectiva, grande número
de pesquisas foi produzido, mas sob enfoques diversificados: na Itália (onde mais se proliferaram nos anos de 1970 e 1980),
na França, nos Estados Unidos e, em menor escala, na Inglaterra. Ocorre que de um lugar, senão marginal, bastante secundário
nos estudos históricos, a micro-história atingiu, nos anos de 1990, um auge relativo em vários países, além daqueles centros
irradiadores das principais abordagens
[707]
.
Foi nesse contexto social denso e difícil de ser apreendido que o pensamento de Fernand Braudel muito contribuiu para a
expansão  tanto  das  pesquisas  sobre  as  sociedades  do  passado  (com  a  análise  da  dialética  das  temporalidades,  que
coexistiriam  dentro  das  relações  dos  homens  com  seu  meio),  como  na  valorização  e  nas  possibilidades  de novos  temas,
espaços  e  fontes  para  a  pesquisa  histórica,  que  foram  abertas  em  meio  aos  possíveis  intercâmbios  estabelecidos  entre  a
História e as outras Ciências Sociais.
Portanto, muito embora a obra de Braudel seja hoje lida mediante certos filtros, alguns deles notando até sua total ineficácia
para  inquirir  as  sociedades  do  passado,  não  é  só  de  inatualidades  que  sua  obra  é  constituída  –  e  que,  aliás,  seus
questionamentos sobre as temporalidades ainda atualíssimos o demonstram.

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