A constituição da História Como Ciência


Jules Michelet (1798-1874)



Baixar 1.4 Mb.
Pdf preview
Página12/132
Encontro12.08.2021
Tamanho1.4 Mb.
#16817
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   132
A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
2
Jules Michelet (1798-1874)
Michelle Schreiner Lima
Sim, porque Michelet, francês no mais alto grau, francês portando nele não somente a França do presente, mas a França de vinte e cinco séculos
– analista destes vinte e cinco séculos e não, pois, oportunista de uma conjuntura – sim, porque Michelet nunca fez outra coisa senão traduzir, na
sua língua magnífica e de todo seu coração, o sentimento da França eternal
[43]
.
A escrita como forma de ação
Com  estas  palavras  Lucien  Febvre  nos  mostra  o  lugar  que  Jules  Michelet  ocupa  na  história  da  França  oitocentista.  A
dedicação de anos à monumental Histoire de France (História da França), iniciada em 1833 e concluída em 1867, com vinte e
três  volumes
[44]
,  bem  como  o  restante  de  sua  obra,  proveniente  dos  cursos  que  ministrava  e  dos  demais  escritos  de  sua
produção, composta sobretudo de textos historiográficos, ensaios críticos, trabalhos de cunho naturalista e de ordem intimista
(diários e correspondências)
[45]
, o transformariam no “grande historiador da nação francesa”. Tomando para si a tarefa de
refletir sobre a escrita da história e seu comprometimento político e moral, Michelet fundaria uma tradição na historiografia
do  período  ao  imputar  à  ciência  histórica  –  em  processo  de  consolidação  no  século  XIX  –  a  responsabilidade  de  fixar  os
valores e sentimentos nacionais que deveriam nortear os cidadãos da República:
O  que  peço  aos  homens  deste  tempo  [...]  são  obras  eficazes;  menos  palavreado,  menos  disputas.  Não  se  desgastarem  em  vãs  discussões,  concentrar  sua
energia.  [...] A  geração  que  vai  passar  foi  uma  geração  de  oradores.  Que  aquela  (dos  homens  deste  tempo)  seja  uma  de produtores  verdadeiros,  de
homens de ação, de trabalho social
[46]
.
O viés militante do autor, bem como o forte caráter pedagógico que assume seus escritos, foram salientados por Thérèse
Moreau  no  prefácio  do  livro A  mulher:  “Michelet  crê  na  virtude  da  palavra  escrita.  O  livro  continua  a  ser  para  ele  o
instrumento revolucionário por excelência”
[47]
. Quando compõe suas obras ou se dirige aos alunos é com a clara intenção de
produzir uma consciência particular nos indivíduos – um “republicanismo social”, diria ele – que deveria ser alcançada não
por meio da violência ou da força revolucionária, mas através da “ação da palavra”: “[...] (um) esforço para tirar da história
não apenas uma doutrina, mas um princípio de ação, para criar não só espíritos, mas almas e vontades”
[48]
.
Michelet  pretende  trazer  o  rigor  da  ciência,  “aliviada  da  carga  das  palavras  vazias  e  das  ficções”,  ao  estudo  dos
“movimentos  profundos  da  sociedade”,  fornecendo  ao  povo  um  novo  conjunto  de  crenças  coletivas,  sobretudo  ao  atribuir  à
história a missão de educar os homens e formar a sensibilidade e a mentalidade da nação:
Eu o declaro, essa história não é imparcial. Não guarda um sábio e prudente equilíbrio entre o bem e o mal. Pelo contrário, é parcial, franca e vigorosamente
a  favor  do  direito  e  da  verdade.  Se  nela  se  encontrar  uma  linha  em  que  o  autor  tenha  atenuado,  debilitado  os  relatos  ou  os  julgamentos  por  respeito  a  tal
opinião ou tal poder, ele quer riscar o que escreveu
[49]
.
Representativa da importância dos relatos “verdadeiros”, “úteis” – imbuídos de valores e “ensinamentos” morais – e das
“injustiças”  cometidas  pelos  romancistas  ao  se  utilizarem  de  artifícios  literários  para  descrever  a  realidade,  é  a  polêmica
travada  entre  Michelet  e  os  literatos  de  seu  tempo  a  propósito  de  seus  romances.  Para  ele,  os  escritores  “românticos”
[50]
,
principalmente  Honoré  de  Balzac,  Eugène  Sue  e  George  Sand,  caracterizam  o  “povo”  de  forma  degradante  e  impiedosa  ao
ressaltarem  seus  vícios  e  mazelas,  diferindo  de  uma  literatura  anterior,  de  finais  do  século  XVIII  e  princípios  do  XIX,  que
devia se afirmar, segundo alguns críticos, como instrumento de educação ou de “pedagogia” do cidadão
[51]
:
Os românticos acreditavam que a arte estava sobretudo no feio. Acharam que os efeitos artísticos mais infalíveis residiam no feio moral. [...] Desviaram os
olhos  para  o  fantástico,  o  violento,  o  bizarro,  o  excepcional.  Não  se  dignaram  informar  que  pintavam  a  exceção.  Os  leitores,  sobretudo  os  estrangeiros,
acreditaram que eles pintavam a regra. E disseram: “Esse povo é assim”
[52]
.
O  historiador  apoia-se  no  princípio  de  “verdade  histórica”  elaborado  por  Vico
[53]
  e  largamente  difundido  nos  anos  de
1700  para  criticar  a  organização  dessas  obras,  atacando  a  inverossimilhança  na  construção  das  personagens,  as  falhas  de
estilo  –  dentre  as  quais  podemos  citar  as  descrições  pormenorizadas,  os  discursos  rudes  e  as  conversações  grosseiras  –  e,
principalmente, o mau uso da história feito nos romances da época:
Romances  clássicos,  imortais  (Indiana  e Lélia),  revelando  as  tragédias  domésticas  das  classes  abastadas,  estabeleceram  solidamente  no  pensamento


europeu que não há mais família na França. Outros, de grande talento, de uma fantasmagoria terrível, pintaram a vida comum de nossas cidades como um
local  onde  a  polícia  concentra  os  reincidentes  da  justiça  e  os  condenados  libertados  (Les  Mystères  de  Paris).  Um  pintor  de  gênero,  admirável  pela
genialidade  do  detalhe,  diverte-se  em  pintar  um  horrendo  cabaré  do  campo,  uma  taberna  de  criadagem  e  gatunos,  e,  abaixo  desse  esboço  hediondo,  ele
escreve atrevidamente uma palavra que vem a ser o nome da maioria dos habitantes da França (Les Paysans). A Europa lê avidamente, admira, reconhece
este ou aquele pequeno detalhe. De um acidente mínimo, cuja verdade percebe, ela conclui facilmente a verdade do todo
[54]
.
Para Michelet, mais importante do que as razões expostas acima e o problema da “perda de tempo com coisas inúteis” –
outro argumento comumente utilizado por aqueles que se opunham aos romances –, é que a história seria prejudicada por essas
narrativas,  uma  vez  que  a  falta  de  preocupação  com  a  “verdade”  criava,  no  seu  entender,  “falsos  relatos”  sobre  o  passado,
sobre a origem dos povos, sobre o comportamento, os costumes e as relações sociais:
A necessidade urgente da França é a de se encontrar de novo, de dizer a si mesma quem ela é, o que ela foi e o que ela fez. A legenda, não danificada pelo
romanesco e pelo fantástico, mas reencontrada conforme o coração e a verdade, responderá sozinha a esta necessidade
[55]
.
Ao  mesmo  tempo  em  que  sublinhava  o  compromisso  histórico,  Michelet  apontava  a  superioridade  moral  da  história  em
contraposição ao valor edificante quase nulo do romance em voga no período. Essa noção de utilidade na obra do autor estaria
relacionada  à  potencialidade  da  história  em  reter  a  atenção  do  leitor  universal,  despertando-o  e  incitando-o  a  adotar  os
valores  morais  necessários  à  formação  de  indivíduos  livres  e  esclarecidos,  tais  como  a  revolta  contra  a  injustiça  e  a
corrupção,  o  amor  pela  pátria,  o  sacrifício  pelo  interesse  comum  e  o  apreço  aos  deveres,  à  dignidade  e  às  virtudes
republicanas.
Trata-se,  portanto,  como  procuramos  demonstrar  em  nossa  pesquisa  de  doutorado  e  posteriormente  no  artigo  “Jules
Michelet e a história em sua expressão pedagógica de formação do ‘povo’”, ambos já mencionados, de ver a história, e não
mais a literatura, como uma fonte de exemplaridade, o que faz o autor postergar a redação de sua história coletiva (Histoire de
France)  para  compor  trabalhos  como Le  Peuple  (O  povo,  1846)  e Histoire  de  la  Révolucion  Française  (História  da
Revolução Francesa, 1847-1853) em oposição a certa imagem de “povo” construída por essa literatura contemporânea:
Basta que as nações saibam que esse povo não é de forma alguma o que aparece em seus pretensos retratos. Não que nossos grandes pintores tenham sido
sempre  infiéis;  mas  em  geral  pintaram  detalhes  excepcionais,  acidentes,  quando  muito,  em  cada  gênero,  a  menor  parte,  o  lado  secundário  das  coisas. As
grandes fisionomias lhes pareciam muito conhecidas, triviais, vulgares. Precisavam de efeitos e foram procurá-los frequentemente naquilo que se afastava da
vida normal. [...] E eu, que saí dele, eu que vivi com ele, que trabalhei e sofri com ele, que mais do que ninguém adquiri o direito de dizer que o conheço,
venho opor a todos a personalidade do povo
[56]
.
Nas  páginas  de  Michelet,  como  também  em  seus  discursos,  fixou-se  certo  modelo  de  produção  historiográfica,
eminentemente  política,  porquanto  silenciava  opositores,  construía  uma  visão  que  se  pretendia  “legítima”  e  “verdadeira”
sobre o passado da França, selecionava temas que conferiam autoridade ao relato histórico e, o mais importante, funcionava
como “forma de ação” para instruir e guiar os cidadãos da República.

Baixar 1.4 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   132




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal