A constituição da História Como Ciência



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material,  economia  e  capitalismo:  séculos  XIV  a  XVIII  (publicada  em  três  volumes  entre  1975-1979),  Braudel  forneceu
subsídios para ampliar os estudos sobre a formação do capitalismo.
5) E, ao mesmo tempo, para que um projeto como esse fosse posto em prática era necessário recorrer-se ao trabalho com
equipes multidisciplinares, nas quais seus profissionais, vindos de vários locais e áreas, procurassem construir uma obra em
comum,  de  modo  a  dar  os  contornos  necessários  para  a  escrita  de  uma  “história  total”.  E  essa  foi  a  tarefa  que  Braudel  se
impôs durante o período em que esteve à frente do Movimento Annales na França.
A  partir  dos  anos  de  1960,  contudo,  foi  Jacques  Le  Goff,  entre  outros,  quem  esteve  desempenhando  parte  das  funções
administrativas  da  revista,  ao  lado  de  Fernand  Braudel,  mas  com  uma  opinião  crítica  sobre  a  forma  que  Braudel  se
encarregava  do  exercício  do  poder  no  periódico:  “Descobrimos,  no  exercício  do  poder  e  ainda  mais  no  declínio  deste,  um
Fernand Braudel no qual o homem não estava à altura do historiador. Essa experiência não se apagou de nossas memórias e
marcaria profundamente a continuidade das nossas relações com o presidente da VI seção”
[697]
. Assim, Jacques Le Goff se
tornou,  conforme  suas  próprias  palavras,  “o  Édipo  da  Hautes  Études,  que  matava  o  pai  para  atingir  a  sua  maturidade
presidencial”
[698]
. Desse modo pode-se notar uma história sobre o grupo ao redor da revista Annales bem mais complexa do
que, aparentemente, poder-se-ia observar inicialmente.
Quando Braudel decidiu pensar na aposentadoria, por estar se aproximando dos 70 anos de idade, assim Jacques Le Goff se
pronunciou:
Fernand Braudel ainda estava sob o choque de 1968, que o havia marcado profundamente. Além disso, ele previa que, dali a quatro anos, quando atingisse
setenta anos, o problema da aposentadoria seria colocado [...]. Foi por essa ocasião que ele decidiu colocar o problema da sucessão. A situação se pôs de
forma profundamente diferente daquela que aconteceu na época de Lucien Febvre: (na qual) Braudel havia recebido a totalidade do seu legado e até mesmo
o  ampliara.  Desta  vez  ele  queria  que  suas  próprias  funções  e  seus  poderes  fossem  divididos  entre  seus  sucessores  (Jacques  Le  Goff,  Emmanuel  Le  Roy
Ladurie e nos arredores André Burguière e Marc Ferro)
[699]
.
Mas,  com  o  passar  do  tempo,  Braudel  se  tornou  um  grande  crítico  dos Annales,  que  ficaram  conhecidos  como  a  terceira
geração da revista. Principalmente porque, além de remanejarem o formato do periódico, acabaram por colocar, no primeiro
plano, procedimentos de pesquisa sob os quais Braudel havia sido contrário, e não apenas porque Robert Mandrou foi um dos
pioneiros, nos anos de 1950, a abordar as mentalidades coletivas e ter sido reabilitado pelos membros do grupo, entre os anos
de  1960  e  1970,  mas,  também,  por  proporcionarem  uma  mudança  de  orientações,  a  tal  ponto  que  ficava  quase  silenciada  a
herança vinda de Braudel. Diz Le Goff ainda:
Para Fernand Braudel, os novos Annales romperam uma tradição essencial da revista, o desejo de globalidade, a vontade de reconstituir, com base nesta ou
naquela questão, o conjunto das realidades sociais que a constituíram e que só dessa forma são explicáveis [...]. Assim se colocou a questão dos números
especiais, aos quais Braudel se declarou hostil, apoiando-se na tradição de Marc Bloch e Lucien Febvre. Realmente, longe de se constituir esgotamento de
um  campo  histórico,  esses  números  foram  por  nós  concebidos  como  uma  espécie  de  desenvolvimento  das  investigações  que  Bloch  e  Febvre  haviam
apresentado nos primeiros Annales. Foram feitos para traçar caminhos, definir deficiências, orientar a pesquisa para temas que nos pareciam chaves (mas
aos olhos de Braudel não), fundamentais e conclamados a um interessante desenvolvimento num futuro próximo
[700]
.
Nesse sentido, fica aqui um exemplo claro das rupturas, em meio a outras continuidades, pelas quais passaram o comando
intelectual  e  administrativo  da  revista,  ora  refazendo  seu  formato,  ora  agrupando  um  conjunto  de  questões  que,  ou  eram
debatidas anteriormente, mas sob novo enfoque, ou produziam debates em torno dos quais se deveriam orientar a atenção do
grupo. Esses fatores tornavam, obviamente, mais explícitas as disputas geracionais no interior do grupo, ao redor da revista
Annales. E que aqui podemos sintetizar, nos pontos onde sua herança foi quase que totalmente refeita:
1)  Ao  estudar  o  clima  na  “longa  duração”,  Emmanuel  Le  Roy  Ladurie
[701]
  praticamente  converteu  a  dialética  das
temporalidades de Braudel no estudo de uma história (quase) imóvel. Se o estruturalismo foi amplamente recebido na obra de
Braudel, especialmente ao dar destaque à “longa duração”, nem por isso as relações entre os homens e a natureza deveriam
ser  vistas  como  estáticas. Ao  inverter  essa  dialética  com  o  estudo  das  relações  entre  a  natureza  e  os  contatos  dos  homens,
Ladurie,  além  de  não  dar  atenção  a  outras  temporalidades,  converteu  o  estudo  da  longa  duração  ao  de  uma  história  (quase)
imóvel.
2)  Muitos  autores  da  terceira  geração  dos Annales,  como  Le  Goff,  procuraram  indicar  que  o  modelo  construído  por


Braudel, além de se limitar ao estudo das questões econômicas e sociais, ao querer perscrutar as questões culturais, o fazia de
maneira  precária  e  demasiadamente  estrutural,  o  que  impossibilitava  a  análise  das  mudanças  (e  não  somente  das
permanências) culturais nas sociedades.
3) Progressivamente tanto a historiografia francesa quanto a italiana (que forneceu subsídios à francesa), foram dando cada
vez  maior  destaque  ao  estudo  das  microestruturas,  com  base  numa  micro-história,  o  que  não  impedia  de  se  circunstanciar
questões gerais, mas sem com isso se embasar apenas em macroanálises, ou numa “história total”.
4)  Como  destacaria  François  Dosse
[702]
,  o  próprio  desenvolvimento  dos  campos  da  pesquisa  histórica  veio  a  tornar
inviável o projeto de Braudel de construir uma “história total”, antes pelo contrário, houve a fragmentação, a especialização, o
ângulo  de  visão  fixou-se  mais  no  detalhe  do  que  na  totalidade  das  estruturas,  a  pesquisa  histórica  passou  a  inquirir  mais  a
cultura do que a economia e o social, além de alterar drasticamente suas escalas de análise.
5)  Com  os  desdobramentos  dos  acontecimentos  que  ocorreram  em  1989,  passou-se  a  dar  maior  destaque  ao  estudo  dos
eventos que gestam mutações, que plasmam certas mudanças, do que à “longa duração” que as despercebe, pois traçava mais
as características das estruturas do que como os homens reagem a elas e propõem mudanças.
Assim, sintetizadas essas questões, chegamos a alguns dos pontos em que a obra de Braudel estaria inatual, em função das
próprias mudanças históricas que fizeram com que tanto as ideias quanto o pensamento histórico fossem revistos, para poder
inquirir as sociedades que se formavam com esse novo contexto político, econômico, social e cultural, bem como perscrutar
melhor, em função de novos métodos e questionamentos, as sociedades do passado.


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