A constituição da História Como Ciência


De um tempo despedaçado a outro quase imóvel?



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De um tempo despedaçado a outro quase imóvel?
De fato [Robert Mandrou] era um discípulo mais jovem, o segundo filhote depois de Braudel, e nutria por Lucien Febvre uma admiração mais incondicional
ainda  que  a  que  lhe  devotava  Braudel.  No  plano  intelectual,  Robert  Mandrou  defendia  antes  de  tudo  a  noção  de  “mentalidades”,  que  não  era  fundamental
para Lucien Febvre. Marc Bloch (foi) quem antes tinha falado de mentalidades, sem tê-las feito entrar explicitamente na sua metodologia da história
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.
Além das disputas periódicas pelo poder que Braudel foi travando ao longo dos anos de 1950, especialmente com Lévi-
Strauss, ao ir se ampliando suas ações pelo Movimento Annales, na mesma medida em que ia incorporando toda a herança e
os locais de comando deixados por Febvre, igualmente foi participando de outros certames. Esses, no entanto, ficaram mais no
âmbito privado das discussões do grupo, como a que Jacques Le Goff resumiu entre Braudel e Mandrou. De acordo com Le
Goff,
Braudel  o  lançou  para  a  secretaria  de  redação  dos Annales  e  Mandrou  fracassou  tanto  na  gestão  administrativa  como,  também,  segundo  Braudel,  na
intelectual  da  revista.  Um  chefe  como  Braudel  se  contentava  em  acompanhar  as  coisas  de  longe  e  de  dar  alguns  empurrões.  Estávamos  bem  longe  de  os
encargos  cotidianos  da  revista  serem  enfrentados  por  dois  diretores,  como  no  tempo  de  Marc  Bloch  e  Lucien  Febvre.  Ora,  Mandrou  não  deu  provas  das
qualidades necessárias no trato com o mundinho de autores e problemas da redação e da edição de uma revista
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.
Assim  foi,  para  Le  Goff,  que  Braudel  alcançaria  a  hegemonia  do  Movimento Annales.  Mas  não,  contudo,  sem  encontrar
certas reservas. Antes de chegarmos a elas, devemos aqui resumir as principais contribuições de Braudel, especialmente entre
1956  e  1968,  quando  esteve  à  frente  da  administração  do  movimento,  para  em  seguida  vermos  como  estas  foram
(re)apropriadas na historiografia francesa e internacional. Entre suas principais contribuições estavam:
1) Ao conseguir sair vitorioso dos debates tanto no espaço público, com Lévi-Strauss, quanto no privado, com Mandrou,
Braudel conseguiu definir teoricamente sua visão sobre a escrita da história, na qual demonstrava a percepção do andamento
de diferentes temporalidades que deveriam ser levadas em consideração pelo historiador, para conseguir vislumbrar as ações
e  as  decisões  humanas  ao  longo  do  tempo.  No  entanto,  igualmente  para  sagrar-se  vitorioso  do  debate  com  Lévi-Strauss,
Braudel acabou dando subsídios para que essa mesma interpretação da história pudesse ser vista apenas por meio da “longa
duração”, quando, na verdade, esta só ganharia sentido se fosse inquirida em movimento com as outras temporalidades.
2) Braudel, igualmente, conseguiu dar subsídios para que fosse pensada uma “história global”, na qual se desse atenção não
somente  à  história  europeia,  mas  com  o  mesmo  cuidado  também  à  história  dos  outros  continentes,  de  modo  a  ser
progressivamente  elaborada  uma  “história  total”  da  humanidade,  como  a  síntese  das  ações  humanas  e  das  relações  entre  os
homens e a natureza, no espaço e no tempo.


3) Ao definir as relações entre os homens e a natureza, como base para que fosse escrita uma história econômica e social
alicerçada  no  estudo  das  transformações  e  permanências  geográficas  do  meio  ambiente,  Braudel  não  somente  construiu  um
modelo interpretativo para pensar as relações econômicas e comerciais da Europa com os outros continentes, mas igualmente
forneceu subsídios para se efetuar a análise da formação das estruturas políticas, econômicas, sociais e culturais, cuja lógica
só poderia ser perscrutada em estudos de “longa duração”.
4)  Com  base  nos  diálogos  que  estabeleceu,  ao  longo  dos  anos  de  1960-1970,  em  sua  segunda  grande  obra: Civilização


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