A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
na  época  de  Felipe  II.  A  quarta  fase  se  estenderia  de  1949  até  1963,  quando  escreveu  diversos  artigos  metodológicos  e
ocupou as principais posições institucionais das universidades francesas e da revista Annales. O quinto período, descrito pelo
autor,  estender-se-ia  de  1963  a  1979,  época  em  que  se  ocupou  de  sua  segunda  grande  obra,  que  foi Civilização  material,
economia e capitalismo. Por fim, estariam os anos de 1979 a 1985, com seu projeto inacabado de escrever uma história da
França e a escrita de seus últimos artigos. Os textos de Aguirre Rojas
[668]
 são uma bela contribuição para a compreensão da
trajetória intelectual de Fernand Braudel, ainda que não se dedique com mais afinco às disputas pelo poder travadas entre o
biografado e Claude Lévi-Strauss, primeiro no Brasil e depois na França, e em fins dos anos de 1950, após a morte de Lucien
Febvre, com Robert Mandrou, em função da disputa entre ambos pela direção da revista Annales. Ou mesmo os debates do
autor  com  letrados  brasileiros  nos  anos  de  1930,  como  Afonso  de  Taunay  e  Alfredo  Ellis  Jr.  (naquele  momento,  ainda
preocupados  com  o  estudo  dos  grandes  homens),  em  que  Braudel  já  apresentava  novos  caminhos  para  a  escrita  da  história,
pautando-se nas contribuições de H. Pirrene, L. Febvre e M. Bloch
[669]
. Evidentemente, a esquematização que se apresentou
é meramente didática. Ela não forma um todo estático, porque foram dinâmicas as etapas de formação e a trajetória intelectual
de Fernand Braudel, algumas vezes até se cruzando uma fase com a outra. Por outro lado, os períodos foram mais complexos
do que se apresenta à primeira vista
[670]
. Embora a trajetória intelectual de Fernand Braudel houvesse sido muito estudada,
há  ainda  poucas  pesquisas  sobre  o  período  em  que  esteve  no  Brasil  e  os  possíveis  diálogos  que  manteve
[671]
,  como
ressaltamos há pouco.
O percurso de Braudel pelo Curso de Geografia e História seria marcante para alunos (futuros professores do curso), que o
colocariam como o inaugurador de uma forma nova de ensino e pesquisa no campo dos estudos históricos no país
[672]
. Até
para Braudel aquele seria o momento em que passaria a questionar com maior propriedade a historiografia oitocentista, então
ainda  hegemônica  em  Paris,  especialmente  na  Sorbonne.  Como  indicaria  muitos  anos  depois,  no  prefácio  ao  seu  livro O
Mediterrâneo  e  o  mundo  mediterrânico  na  época  de  Felipe  II  (fruto  de  sua  tese  defendida  em  1946),  quando  iniciou  a
pesquisa que daria suporte a sua tese nos anos de 1920, esta foi “adaptando a forma, clássica e certamente mais prudente”, em
função do tipo de exigências cobradas pelas universidades francesas daqueles anos de 1920 e 1930; mas, ao longo dos anos
de  1930  e  1940,  certamente  aquela  forma  clássica  seria  totalmente  repensada,  dando  base  à  composição  de  uma  análise  na
qual os diferentes fluxos temporais formariam a estrutura de sua interpretação do Mediterrâneo na época de Felipe II; e tendo
em vista as longas permanências geográficas que perfaziam as estruturas do mundo mediterrâneo, as conjunturas econômicas e
as mudanças rápidas das decisões políticas e diplomáticas
[673]
. Para ele:
A  tentativa  de  encarar  a  história  do  Mediterrâneo  na  sua  complexa  globalidade  impunha  que  seguisse  a  senda  desses  pioneiros,  e,  aproveitando  a  sua
experiência (de M. Bloch, L. Febvre, H. Pirenne, E. Labrousse etc.), militar com eles por uma nova forma de história, repensada e elaborada por nós, mas
capaz de transpor as nossas fronteiras; uma história consciente das suas tarefas e responsabilidades, e também desejosa, porque obrigada a romper com elas,
de pôr termo às formas antigas, ainda que nem sempre com total justiça! [...] E a ocasião era boa, pois tratava-se de estudar uma personagem fora de série,
aproveitando-lhe a complexidade, dificuldade, armadilhas e vigor para tentar fazer uma história distante da que os nossos mestres ensinavam [...]
[674]
.
Durante o período em que esteve no Brasil, portanto, pelo menos três pontos são importantes para nossa análise. Primeiro,
durante  o  final  dos  anos  de  1920  e  no  início  de  1930,  especialmente  durante  o  período  de  1929  a  1932,  em  função  das
mudanças bruscas na economia e na política vividas no país, estas instigaram muitos letrados do período a pensarem a história
do Brasil e as categorias: passado, presente e futuro. Segundo, como o próprio Braudel salientaria, foi no Brasil que ele teve a
real  dimensão  dos  diferentes  fluxos  temporais,  onde  ao  mesmo  tempo  havia  um  sudeste  vivenciando  um  tempo  rápido  e  de
acelerações  constantes  com  o  processo  de  industrialização,  especialmente  o  que  ocorria  em  São  Paulo;  ao  passo  que  no
Nordeste ainda se sentia facilmente as raízes de um passado ainda presente, no qual as mudanças se faziam de forma bem mais
lenta e inconstante
[675]
. Terceiro, durante esse período o autor iniciou amizades com muitos alunos e letrados de São Paulo e
do Rio de Janeiro, e, em alguns casos, mantendo uma correspondência regular com eles ao longo de sua vida.
A importância desse ponto está justamente em evidenciar o perfil das relações sociais que Braudel foi construindo em sua
trajetória,  especialmente  durante  os  anos  de  1950  e  1960,  quando  esteve  à  frente  do  Movimento Annales.  Mas,  antes  de
avançarmos nesse ponto, é preciso detalhar melhor seu período no Brasil. E então poderíamos acrescentar um quarto ponto
importante: foi aqui e não na França, embora de forma indireta, que começaram os debates entre Braudel e Lévi-Strauss
[676]
,
e que marcariam a historiografia francesa nos anos de 1950. Além disso, tal como indica, foi sua estadia no Brasil que lhe
“permitiu chegar a uma certa concepção de história que eu não teria se tivesse ficado sempre próximo ao Mediterrâneo”, pois
foi  no  Brasil  que  todos  “os  problemas  se  colocaram  de  outra  perspectiva:  a  elite,  a  classe  inteligente,  a  luta  de  classes
[...]”
[677]
.
Assim,  instado  pelo  contexto  e  pelas  peculiaridades  dos  debates  dos  letrados  no  Brasil,  Braudel  viria  a  escrever  cinco
textos durante sua permanência no país. O primeiro, “Cartografia do mundo atual”, publicado no jornal O Estado de S. Paulo,


em 19 de maio de 1935, Braudel sugere uma indagação interessante: “Já observaram como aqui os intercâmbios intelectuais
descrevem  grandes  círculos  e  nos  fazem  viajar  pela  Terra  inteira?”  No  segundo,  “Anatole  France  e  a  história”,  igualmente
publicado  em O  Estado  de  S.  Paulo,  entre  10  e  17  de  novembro  de  1935,  ele  indica  que  seu  “mestre  Maurice  Holleaux,
professor  de  História  Grega  na  Sorbonne,  membro  do  instituto,  e  um  dos  homens  mais  finos  e  inteligentes  que  me  foi  dado
conhecer, comprazia-se em dizer: ‘o maior historiador? Ora, Anatole France, naturalmente!’”, justamente para depois enfatizar
os méritos do Movimento Annales, já que:
Hoje menos do que nunca, sem dúvida, pois isso seria desconhecer um movimento que renova em profundidade a disciplina histórica – que France conheceu
tão  estreita  ainda  e  tão  arcaica  –  e  a  transforma  na  mais  jovem,  rica  e  vasta  das  ciências  sociais  da  atualidade. A  escola  nova  ( Annales),  que  luta  nesse
momento  pela  renovação,  já  não  estuda  apenas  os  aspectos  espirituais  e  políticos  das  sociedades  desaparecidas,  mas  ainda  seus  alicerces  materiais  ou
corporais. Para bem apreender essas bases sólidas do passado, historiadores há que não hesitaram em assimilar os métodos e pontos de vista das ciências
sociais, afins, nascidas ontem, em apoiar suas pesquisas sobre conhecimentos profundos da economia política ou, mesmo, da matemática financeira
[678]
.
Apesar  de  Marc  Bloch  e  Lucien  Febvre  estarem  aqui  como  os  propiciadores  do  ar  renovador,  eles  não  são  indicados
nominalmente por Braudel nesse texto. No terceiro, “Henri Pirenne”, publicado também em O Estado de S. Paulo, em 24 de
novembro  de  1935,  onde  faz  uma  justa  homenagem  a  este  historiador,  Braudel  o  colocaria  como  o  inspirador  desse  grande
movimento renovador dos estudos históricos nas primeiras décadas do século passado. No quarto, “Conceito de país novo”,
publicado no periódico Filosofia, Ciências e Letras da FFCL/USP, em 1936, ele retoma seus apontamentos sobre o Brasil e a
América  Latina.  Mas  será  em  seu  quinto  texto, O  ensino  de  história  e  suas  diretrizes,  relatório  da  cadeira  de  História  das
Civilizações do Curso de Geografia e História da FFCL/USP, escrito no final de 1935, que ele irá se posicionar de maneira
contundente sobre a escrita da história, tendo como ponto de partida justamente a obra de Pirenne. Apesar de extenso, o texto
abaixo citado descreve de que maneira Braudel estava pensando a questão em meados dos anos de 1930, pois:
O historiador não sente todos os dias necessidade de definir a sua disciplina, a sua exata posição no campo geral da vida intelectual: outros se encarregam
disso, não o fazendo sempre de bôa fé, ou, o que é a mesma cousa, com competência [...]. Só as ciências sociais, nascidas ontem ou que vão nascer amanhã,
é que se procuram definir [...]. No caso delas trata-se da justificação espiritual do seu nascimento; querem viver e é preciso que excluam as outras das suas
novas possessões [...]. Não receberam essas ciências, como a História, esta herança secular, êste império, estas colônias, tôdas essas riquezas que tendem
menos à ação que à tranqüilidade das velhas potências [...]. Entretanto, simples seria definir qual a finalidade da história, tal como ela se afirma neste acervo
de  centenas  de  obras  essenciais,  aparecidas  principalmente  no  curso  dos  últimos  trinta  anos,  nas  obras  de  um  Henri  Pirenne,  por  exemplo,  para  não  citar
senão um grande mestre e dos que já não vivem. A história é a mais antiga das ciências sociais, não a única, como bem se póde pensar. É a impotência do
nosso espírito e não a dificuldade do objeto – que todavia tem a sua importância – que nos obriga a fragmentar a realidade. A cada ciência social pertence
sòmente um fragmento de um espêlho partido em mil pedaços. Existe, mas muito além das nossas possibilidades, êsse êspelho intacto em que a sociedade
reflete  a  sua  imagem  móvel  e  total.  Esta  sociedade,  objeto  das  nossas  pesquisas,  a  economia  política  a  estuda  nas  suas  condições  de  vida  material,  a
estatística sob o signo do número, a geografia no espaço, o direito sob o prisma das obrigações contratuais, a sociologia no seu mecanismo, a etnografia e a
etnologia  nas  suas  formas  ainda  balbuciantes  [...].  A  História,  na  sua  realidade  de  ontem  [...].  O  historiador  acrescenta  assim  à  sua  tarefa  mais  uma
dificuldade. Os outros trabalham sôbre o que é vivo, o que se vê, o que se mede; o historiador sôbre o que já não existe [...] e aí, embora lhe faltem dados, é a
totalidade da vida social que êle procura e recompõe, sem ter à sua disposição, nem o objeto nem o êspelho, um que já não existe, outro que não pertence a
êste mundo [...]. Mas é para nós mesmos que trabalhamos, para atingir o nosso fim: a reconstrução das imagens do passado, a ressurreição das sociedades
de outrora
[679]
.
Foi  com  esses  preceitos  que  Braudel  instruiria  as  primeiras  turmas  de  alunos  do  Curso  de  Geografia  e  História  da
FFCL/USP, e que veriam nele o inaugurador da moderna pesquisa histórica na universidade brasileira. Fato marcante, que não
se  explicaria  apenas  porque  Braudel  tenha  se  tornado  o  grande  historiador  do  século  passado,  mas  também  por  ter  feito  na
universidade, durante o período em que esteve à frente da cadeira de História das Civilizações, laços de amizade duradouros,
com  alunos  e  professores,  a  exemplo  de  Eurípides  Simões  de  Paula, Alice  Piffer  Canabrava,  Eduardo  d’Oliveira  França  e
Branca da Cunha Caldeira, com os quais manteve uma considerável correspondência ao longo de sua vida profissional. Não
há aqui a possibilidade de detalhar toda a correspondência mantida entre eles. No entanto, vale destacar duas dessas cartas.
Uma de Fernand Braudel enviada a Eurípides Simões de Paula, em fevereiro de 1938, na qual recomendava o Professor Jean
Gajé  para  assumir  o  seu  lugar  na  universidade,  e  solicitava  de  Eurípides  o  envio  de  notícias  sobre  a  universidade  e  sobre
Eduardo França, e dando notícias de Branca Caldeira, que se encontrava na França
[680]
. A outra de Eurípides a sua primeira
esposa Isabel, em 25 de fevereiro de 1945, na qual dava notícias sobre a guerra, e recomendava que pendurasse o seu retrato
ao lado do de Braudel e do de Gajé, que se encontravam em seu escritório
[681]
.
Braudel também teve a preocupação de conhecer o país e quem estava refletindo sobre ele no período. Daí justificar seu
empenho em ir da obra dos modernistas de São Paulo à de Gilberto Freyre, de Caio Prado Jr. a Sérgio Buarque de Holanda. E
com esse último manteria até certa correspondência. Depois de preparar a segunda edição de seu livro Raízes do Brasil, que
seria  lançado  em  1948,  Sérgio  Buarque  despachou  alguns  exemplares  para  amigos  do  Brasil  e  do  exterior,  entre  os  quais
estaria Braudel. Alguns meses depois de receber a missiva, Braudel respondeu em 25 de julho de 1948, de Paris, a seu caro
amigo:
Recebi, antes de minha saída de Paris, suas Raízes do Brasil em triunfante segunda edição e venho agradecer-lhe em verdade um pouco atrasado, pois o fim
de nosso ano letivo foi terrivelmente sobrecarregado. Aliás, há muito tempo que eu tinha vontade de lhe escrever, pelo menos desde a simpática visita de seu
cunhado,  para  dizer  que  boa  lembrança  minha  mulher  e  eu  guardamos  de  sua  acolhida  e  das  horas  encantadoras  passadas  em  sua  companhia  e  de  Mme.


Buarque de Holanda e de suas preocupações de historiador tão próximas às nossas. Seguindo suas indicações, procurei e encontrei os arquivos dos Schetz,
mas não ainda os papéis referentes ao engenho dos Erasmos, os quais, se não estiverem em certas malas de documentos ainda não inventariados, correm o
risco de ficar perdidos para a história. Em todo caso, eu lhe darei notícias do prosseguimento de minhas pesquisas
[682]
.
Portanto,  não  é  de  surpreender  que  Fernanda  Massi  venha  a  concluir  que  “a  etapa  brasileira,  ao  lado  da  experiência
africana, corresponderam ao período de formação do historiador, de idealização e amadurecimento de um projeto – escrito
durante  um  outro  ‘exílio’  e  publicado  bem  depois  –  que  foi  a  tese  sobre  o  Mediterrâneo”
[683]
.  Mas,  no  momento  em  que
esteve no Brasil, atente-se, como destacamos sinteticamente, Braudel não tinha ainda a percepção teórica de como definir o
andamento de diferentes temporalidades para explicar as ações humanas e as relações entre os homens e a natureza
[684]
. Na
verdade, embora o Brasil tivesse lhe servido como um verdadeiro laboratório para perscrutar as mudanças e as permanências
nas  atitudes  humanas,  nos  movimentos  da  economia  e  da  política,  da  cultura  e  da  sociedade,  Braudel  só  viria  a  começar  a
teorizar essas questões ao longo dos anos de 1940, quando passou a sistematizar o texto de sua tese. Contudo, foi somente nos
anos de 1950, em meio a outros debates, que ele deixaria evidenciada essa abordagem, especialmente em seu artigo de 1958:
“História e ciências sociais: a longa duração”.

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