A constituição da História Como Ciência


O duplo viés comparativo: lei e escatologia



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O duplo viés comparativo: lei e escatologia
Mesmo  aceitando  o  argumento  de  que  os  eventos  históricos  são  únicos  e  irrepetíveis,  Toynbee  argumenta  que  um  fato
histórico  pode  também  ser  considerado  no  interior  de  uma  tipologia  que  permite  que  o  mesmo  seja  comparado  com  outros
fatos históricos de sua classe enquanto estiver compreendido nesta classificação
[584]
. Essa aproximação foi confirmada pelo
próprio autor nas entrevistas realizadas com George Urban para a Radio Free Europe, entre 1972 e 1973: “Quando se tem uma
maneira  nomotética  para  se  tratar  dos  assuntos  humanísticos,  deve-se  acreditar  que  existe  algo  permanente  e  regular  na


história, da mesma forma que o físico ou o químico acredita que há algo regular na natureza material”
[585]
. Como pudemos
perceber, a aproximação com uma concepção calcada nas ciências da natureza é que sustenta sua metodologia comparativa.
“Igualmente admitimos o estudo comparado das sociedades primitivas sob o título de antropologia. O que pretendemos é uma
tentativa de fazer com as espécies ‘civilizadas’ de sociedades aquilo que a antropologia faz com as espécies primitivas”
[586]
.
Posição diferente é encontrada nos últimos volumes. Neles Toynbee associa o seu método com a teologia, justificando tal
atitude  com  o  argumento  de  que  “é  este  o  método  de  enfocar  a  história  empregada  na  coleção  de  livros  que  chamamos  de
Bíblia”
[587]
.  É  também  nos  últimos  volumes  do Study  que  Toynbee  concebe  a  missão  do  historiador  como  um  trabalho  de
transformação dos fatos históricos em uma espécie de
admiração pela epifania de Deus na história, a inspiração do historiador o está preparando para uma experiência que foi descrita como “a visão beatífica” por
espíritos aos quais ela foi concedida. Nessa experiência Deus é visto face a face, e não mais através de um vidro, obscuramente; e isto significa que a visão
transporta  a  alma  além  dos  limites  da  história  ou  de  qualquer  outro  caminho  que  leve  a  Deus  através  de  sua  revelação  de  sua  natureza  em  suas
palavras
[588]
.
É também por meio do caminho da religião que identificamos outro traço marcante da concepção de história de Toynbee: a
eleição do mito como referência explicativa para sua reflexão sobre o devir humano. Essa eleição é possível em virtude de o
autor  situar  o  mito  no  campo  dos  recursos  retóricos  dos  historiadores.  Recorrendo  a Aristóteles,  Toynbee  afirmava  que  “A
história, como o drama e a novela, surge da mitologia, uma forma primitiva de apreensão e expressão em que [...] se apropria
sem traçar a linha que separa a história da ficção”. E completa:
Todas  as  histórias  se  parecem  com  a Ilíada  na  medida  em  que  não  podem  prescindir  completamente  do  elemento  fictício. A  mera  seleção,  disposição  e
apresentação  dos  fatos  constitui  uma  técnica  que  pertence  ao  campo  da  ficção,  e  a  opinião  popular  está  correta  na  insistência  de  que  nenhum  historiador
pode ser “grande” se não é também um grande artista
[589]
.
Esses modelos narrativos emprestados da ficção é que constroem as personificações conceituais com as quais o historiador
trabalha,  como,  por  exemplo,  “Brasil”,  “opinião  pública”  ou  “Idade  Média”.  Nesse  sentido,  a  aproximação  entre  o  campo
historiográfico  e  o  campo  mitológico,  via  literatura,  funciona  como  chave  epistemológica  para  fundamentar  o  potencial
verossimilhante  das  fontes  arroladas  no Study.  História  e  literatura  difeririam  apenas  por  sua  “sua  capacidade  de  tratar  os
dados”
[590]
.
Além  de  fonte  de  inspiração,  a  estrutura  mitológica  é  utilizada  como  prova,  fornecendo  o  modelo  interpretativo  que  lhe
permite  sistematizar  o  mecanismo  de  desenvolvimento  das  civilizações.  No Agamenon,  de  Ésquilo,  mas  principalmente  no
Fausto, de Goethe, Toynbee encontra a chave explicativa para a lei de desafio e resposta: o desafio proposto ao Criador por
Mefistófeles (testar a possibilidade de arruinar a obra mais preciosa da criação) é entendido como “uma oportunidade para
ampliar, ainda mais, sua criação”
[591]
.
Outra  importante  característica  da  visão  de  história  de  Toynbee  e  que  também  apresenta  variações,  se  comparados  os
volumes,  diz  respeito  à  sua  concepção  cíclica.  É  consenso  entre  os  críticos  do  autor  inglês  que  o Study  propõe  uma
perspectiva não linear sobre o tempo histórico. Apesar das críticas sofridas, Toynbee continuou ao longo de toda a sua vida
afirmando  que  “os  padrões  e  regularidades  que  podem  ser  encontrados  em  minha  obra Study  surgiram  empiricamente”  das
comparações  realizadas  entre  as  civilizações.  Eis  aqui  um  ponto  crucial  da  filosofia  da  história  de  Toynbee,  a  explicação
sobre a forma como estes padrões e regularidades surgiram:
Eu  era  professor  de  História  Grega  e  Romana  quando  eclodiu  a  Primeira  Guerra  Mundial  e  subitamente  me  ocorreu,  ao  ensinar  sobre  Tucídides,  que
Túcidides já havia antecipado nossas experiências, ou seja, a eclosão de uma grande guerra, a qual ele viu imediatamente como um ponto decisivo na história
da civilização. [...] Ele já havia experimentado aquilo que eu estava apenas alcançando e isto me fez ver que poder-se-ia colocar a história grega e romana
lado a lado com a história moderna ocidental e compará-las fora da estrutura cronológica
[592]
.
E s s e insight,  descrito  inúmeras  vezes  em  diversas  obras,  produziu,  então,  o  modelo  inicial  que  possibilitou  o
desenvolvimento  de  sua  proposta  comparativa  entre  as  civilizações. Ao  dispô-las  em  linhas  e  quadros  sincrônicos,  o  autor
sintetiza  seus  desenvolvimentos,  estabelece  relações  funcionais  entre  eventos  e  sua  “característica  essencial”,  além  de
destacar os vínculos internos entre o ritmo de desenvolvimento da sociedade e os desafios propostos à mesma ao longo da sua
existência,  bem  como  os  motivos  de  seus  colapsos.  Os  títulos  dos  volumes  de  seu Study  não  deixam  dúvidas  sobre  a
importância assumida pelo princípio comparativo entre as civilizações, em detrimento do estudo de casos nacionais
[593]
. Há
que  se  notar  também  a  utilização  do  plural  em  seus  títulos:  apesar  de  a  lei  e  os  princípios  de  desenvolvimento  servirem  à
aplicação em todas as civilizações estudadas, a historicidade de cada experiência deveria ser considerada.
Se  traçarmos  as  fases  principais  das  histórias  das  civilizações  –  seus  nascimentos,  crescimentos,  colapsos  e  declínios  –  poderemos  comparar  suas
experiências, fase por fase. Com esse método de estudo talvez estejamos em condições de separar suas experiências comuns, que são específicas, de suas
experiências únicas, que são individuais. Desse modo, poderemos, talvez, elaborar uma morfologia da espécie de sociedade chamada civilização
[594]
.
Ao mesmo tempo, a proposta comparativa de Toynbee possui fortes vínculos com sua visão nomológica. Diz ele:


Essa  visão,  nova  para  mim,  da  contemporaneidade  filosófica  de  todas  as  civilizações,  robusteceu-se  ao  se  destacar  sobre  o  fundo  constituído  por  algumas
descobertas  da  nossa  moderna  física  ocidental.  Na  escala  de  tempo,  agora  desdobrada  pela  geologia  e  pela  cosmogonia,  os  cinco  ou  seis  mil  anos  que
transcorreram  desde  o  primeiro  aparecimento  de  representantes  dos  tipos  de  sociedade  humana,  que  rotulamos  de  “civilizações”,  foram  um  intervalo  de
tempo infinitesimal, comparado com a idade que tem hoje a raça humana, a vida neste planeta e a do próprio planeta. [...] Comparando-as com essas ordens
de grandeza, as civilizações que surgiram no II milênio a.C. (como a greco-romana), no IV milênio a.C. (como a do Antigo Egito) e no I milênio da Era Cristã
(como a nossa) eram, verdadeiramente, contemporâneas umas das outras
[595]
.
O  procedimento  comparativo  aqui  executado  é,  portanto,  oposto  àquele  empreendido,  seja  pelos  trabalhos  sob  influência
neokantiana,  cuja  comparação  é  um  procedimento  metodológico  capaz  de  auxiliar  na  compreensão  das  singularidades  dos
fenômenos estudados, seja pelos trabalhos de Marc Bloch, analisado em outro capítulo deste livro.
Esse  tipo  de  história  cíclica,  implícito  no  movimento  de  nascimento  e  extinção  das  sociedades  elencadas,  não  implica
necessariamente uma doutrina determinista da história. Isso porque, muito embora ao longo de toda a história da humanidade a
sequência  de  gênese,  desenvolvimento  e  desintegração  das  21  civilizações  possa  ser  tomada  como  uma  constante,
especificamente na civilização ocidental, “a centelha divina do poder criador ainda está viva”
[596]
. Ao mesmo tempo, essa
visão  cíclica-nomológica,  característica  dos  primeiros  volumes,  apresenta  uma  importante  variação  ao  longo  dos  últimos
volumes:  a  inserção  de  uma  perspectiva  escatológica  que  sobrejaz  ao  ciclo.  Essa  união  entre  linearidade  e  recorrência  é
explicada pelo fortalecimento da visão religiosa de Toynbee. Nesse caso, as leis da natureza, que mostram a “regularidade de
um  movimento  reiterado,  como  o  de  uma  roda  que  gira  ao  redor  do  eixo”
[597]
  acabam  por  ser  subjugadas  à  linearidade
própria da criação.
O perpétuo girar de um disco não é uma vã repetição se impulsiona um veículo cada vez mais próximo de seu fim; e se “palingenesia” significa nascimento
de algo novo [...] então a roda da existência não é precisamente um artefato diabólico para infligir um tormento eterno a um Ixión predestinado. A música
que o ritmo do Yin e Yang produz é o canto da criação [...]; a criação não seria criadora se não absorvesse em si mesma todas as coisas cíclicas da terra,
inclusive sua própria antítese
[598]
.
Essa harmonia é melhor descrita pela analogia a seguir:
Admite-se que o movimento de uma roda se repete em relação ao seu próprio eixo, mas a roda foi feita e se adequa ao seu eixo com a finalidade de garantir
o movimento de um veículo do qual a roda é tão somente uma parte, e o fato de que o veículo, que é a raison d’être da roda, só possa se mover em virtude
do movimento circular da roda ao redor de seu eixo, não obriga o veículo a se mover, como um carrossel, de modo circular
[599]
.
Dessa  forma,  sua  teoria  cíclica  acaba  por  submeter-se  às  determinações  de  um  movimento  linear,  devedor  das  visões
escatológicas  da  história.  É  próprio  desse eschaton  não  somente  delimitar  o  processo  histórico  por  meio  de  um  fim,  mas
também  articulá-lo  e  preenchê-lo  com  um  objetivo  definido,  como  lembra  Lowith
[600]
.  E  esse  objetivo  é  explícito:  o
desenvolvimento das igrejas universais e, em especial, do cristianismo. Essa subordinação da concepção clássica à cristã é
traço  marcante  da  consciência  histórica  de  Toynbee,  tanto  mais  nos  aproximamos  dos  últimos  volumes  do Study  e  de  suas
obras posteriores: “Para mim o estudo da história não teria sentido se não tivesse um significado e objetivo religiosos”
[601]
,
sentencia. Nesse sentido, podemos acompanhar a ponderação de Sorokin de que, na visão de Toynbee, toda história humana se
converte  numa  espécie  de  teodiceia  criadora.  É  por  meio  da  história  das  civilizações  e  de  seu  ritmo  uniforme  que  essa
teodiceia conduz o homem e a civilização “ao super-homem e à transfigurada supercivilização espiritual do Reino de Deus”.


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