A constituição da História Como Ciência



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A Constituicao da Historia como Ciencia de Ranke a Braudel - Julio Bentivoglio
Challenge and Response
É  importante  observar  que  esse  princípio-motor  possui  uma  vitalidade  indefinida,  muito  embora  circunscrita  a  uma  lei
geral, segundo o autor, empiricamente observável na trajetória de todas as civilizações. A essa lei o autor do  Study dá o nome
de desafio e resposta (Challenge and Response). De modo esquemático, a lei do desafio e resposta sustenta que o ritmo de
desenvolvimento de uma civilização está associado ao tipo de desafio que lhe é colocado, que a estimulou a dar sempre um
passo  além:  “do  triunfo  a  uma  nova  luta;  da  solução  de  um  problema  à  apresentação  de  outro;  de  Ying  a  Yang,  outra
vez”
[573]
. Essa lei poderia ser encontrada, por conseguinte, na história de todas as civilizações. Foi, por exemplo, do desafio
imposto  pelo  deserto,  na  África  e  no  Oriente  Médio,  que  surgiu  a  civilização  egípcia  e  suméria;  do  desafio  imposto  pelos
pântanos  e  florestas,  próximas  ao  Rio Amarelo,  que  germinou  a  civilização  sínica;  do  desafio  imposto  pela  selva  tropical
americana  que  surgiu  a  civilização  maia  e  do  desafio  imposto  pelo  mar  que  surgiu  a  civilização  minoica. Além  disso,  as
energias de cada civilização estariam voltadas para o desenvolvimento de suas características dominantes e únicas: estética
(helênica), religiosa (hindu), científica (cristã ocidental).
Também o estágio de declínio de uma civilização está associado à lei de desafio e resposta. O declínio ocorre quando a
sociedade  enfrenta  um  desafio  particularmente  importante,  mas  revela-se  incapaz  de  responder  adequadamente  a  ele.  Isso
ocorre porque, embriagadas por suas vitórias, as minorias criativas começam a dormir sobre os seus louros, a idolatrar seus
valores  relativos  como  se  fossem  absolutos  e,  consequentemente,  a  perder  a  atração  carismática  que  originalmente  lhes  fez
serem seguidas e imitadas pelo restante da população. Assim,
quando na história de uma civilização uma minoria criadora degenera em uma minoria dominante que se esforça para reter por meio da violência uma posição
que deixou de merecer, esta mudança fatal no caráter dos elementos governantes provoca, por outro lado, a separação de um proletariado (a maioria), que
não  menos  espontaneamente  admira  e  imita  livremente  os  elementos  governantes,  e  o  qual  se  revolta  contra  sua  redução  ao  estado  de  submissão
involuntária
[574]
.
Daí  a  possibilidade  de  afirmar  categoricamente  que  nenhuma  civilização  perece  por  assassinato,  mas  por  suicídio.  Isso
porque a falha na resposta a um desafio provoca um desequilíbrio, que se manifesta não na apresentação de um novo desafio,
de caráter diferente (que seria próprio de uma resposta que superasse o desafio proposto), mas na reapresentação do mesmo
desafio, repetidas vezes.
Isso  não  quer  dizer  necessariamente  que  o  processo  de  desintegração  extinga  a  faísca  criadora  da  civilização.  As
personalidades criadoras continuam surgindo e realizando sua antiga atribuição, mas com uma diferença crucial: enquanto nas


civilizações  em  crescimento  seu  papel  é  o  de  conquistar  –  respondendo  a  um  desafio  com  uma  resposta  vitoriosa  –,  nas
civilizações  em  desintegração  a  personalidade  criadora  é  chamada  a  desempenhar  o  papel  de  salvador  –,  socorrendo  a
sociedade  ante  um  desafio  insuperável.  O  indício  mais  evidente  do  estágio  de  declínio  de  uma  civilização  pode  ser
encontrado,  segundo  Toynbee,  na  formação  dos  Estados  universais.  A  pax  romana  estabelecida  por  Otávio  Augusto  é  um
exemplo  exitoso  do  estabelecimento  de  um  Estado  universal  porque  resultou  na  consolidação  de  uma  comunidade  política
claramente  delineada.  Ao  mesmo  tempo,  as  tentativas  de  consolidação  de  um  Estado  universal,  almejadas
contemporaneamente pelos alemães, por duas vezes ao longo do século XX, e pela França napoleônica, no século XIX, seriam
exemplos de fracassos
[575]
. Outro indício do processo de declínio de uma civilização está no surgimento de religiões que se
apropriam da estrutura política dos Estados universais – e por isso chamadas de Igrejas universais – e se propagam em meio
ao estado de angústia que se segue ao colapso da civilização.
Por  último,  é  importante  notar  que  essa  lei  de  desenvolvimento  e  desintegração  de  civilizações  sucessivas  incorpora
também  uma  noção  de  continuidade  entre  as  civilizações,  no  espaço  e  no  tempo
[576]
.  Ou  seja,  Toynbee  estabelece  um
mecanismo  de  transição  de  uma  civilização  antiga  para  uma  nova,  por  meio  do  que  denomina  “relação  de  paternidade-
filiação”, que é temporal, mas também espacial, posto que revela, nessa passagem, um deslocamento do local de origem na
sucessão das civilizações. Essa relação de paternidade-filiação é marcada, em primeiro lugar, pela existência de um Estado
universal da sociedade antiga, de uma igreja, desenvolvida na sociedade antiga e se desenvolvendo na nova; e, por último, do
nascimento de uma idade heroica bárbara e caótica. A civilização ocidental, por exemplo, tem sua matriz no cristianismo, uma
instituição “sobrevivente da sociedade moribunda (helênica)” 
[577]
, que se tornou a matriz da nova civilização.

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