A bela e a Fera



Baixar 75.25 Kb.
Pdf preview
Página7/36
Encontro27.12.2020
Tamanho75.25 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   36
Como  agora,  ela  pensou  enquanto  espiava  de  trás  da  fromagerie.  Gaston
segurava flores em uma das mãos e vasculhava a multidão com os olhos como
um  animal  selvagem.  Bela  soltou  um  gemido  quando  ele  fixou  o  olhar  nela  e
começou  a  abrir  caminho  entre  os  aldeões  para  encontrá-la.  Ela  se  virou  e  se
apressou  na  direção  oposta,  torcendo  para  que  os  outros  moradores  o
distraíssem.
Sem  que  Bela  notasse,  assim  que  Gaston  estava  prestes  a  alcançá-la,  Ágata
surgiu no meio do caminho com sua caneca erguida. Gaston olhou para baixo na
direção da mulher sem-teto e contraiu os lábios. Então ele viu a caneca de metal
brilhante.


— Obrigado, bruxa — disse ele, arrancando o objeto de suas mãos e virando-
o  de  cabeça  para  baixo.  Moedas  se  espalharam  pelo  chão  enquanto  Gaston
conferia seu reflexo na base da caneca. Satisfeito com o que viu, ele a jogou de
volta para Ágata e passou reto por ela.
— Bom dia, Bela — disse ele, correndo para parar à frente dela. Ela deu um
passo para trás. — Esse livro é fantástico.
Bela ergueu uma sobrancelha.
— Você o leu?
— Eu fiz muitas coisas no exército — respondeu ele vagamente.
Bela  engoliu  uma  risada.  Levou  menos  de  um  minuto  para  ele  mencionar  o
exército. Deve ser um recorde, ela pensou.
Com um gracejo, Gaston ofereceu-lhe as flores.
—  Para  sua  mesa  de  jantar  —  explicou  ele.  —  Poderia  lhe  fazer  companhia
esta noite?
—  Desculpe  —  disse  Bela  apressadamente,  balançando  a  cabeça.  Ela  se
moveu  devagar  ao  redor  dele,  em  busca  da  rota  de  fuga  mais  rápida.  —  Esta
noite, não.
— Está ocupada? — perguntou Gaston.
— Não — respondeu Bela. Antes que Gaston pudesse retrucar ou assimilar a
rejeição,  ela  já  estava  se  desviando  para  voltar  à  rua.  Pôde  ouvir  Gaston
distorcendo  suas  palavras  para  a  plateia  de  aldeões  que  haviam  parado  para
assistir  aos  dois.  Estava  claro  que  o  caçador  havia  interpretado  seu  não  como
uma jogada para se fazer de difícil.
Ela não se importou com o que ele disse ou como tentou se sentir melhor. Ela
sabia a verdade: Gaston, apesar de seu físico imponente, não era maior do que a
minúscula  aldeia  provinciana.  E  ela  jamais  dividiria  a  mesa  de  jantar  com  ele.
Nem agora, nem nunca.
Acelerando  o  passo,  Bela  seguiu  seu  caminho  e  saiu  do  centro  da  aldeia.
Momentos  depois,  ela  estava  de  volta  ao  seu  chalé.  Era  uma  casinha
aconchegante,  com  uma  pequena  escada  que  levava  até  a  porta  de  entrada  e
grandes  janelas  panorâmicas.  Havia  também  um  belo  jardim  na  frente  e  um
espaço subterrâneo separado, onde funcionava a oficina de seu pai.
A  doce  melodia  tilintante  de  uma  caixinha  de  música  escapava  por  entre  as
portinholas. Seu pai já estava trabalhando a essa hora da manhã.
Tomando cuidado para não incomodá-lo, Bela abriu as portinholas e desceu as
escadas  na  ponta  dos  pés.  A  luz  do  sol  penetrava  por  uma  pequena  janela,
iluminando  Maurice,  que  estava  sentado  e  curvado  sobre  sua  bancada  de


trabalho.  Peças  e  pedaços  de  seus  projetos  espalhavam-se  pelo  local.  Pequenos
botões, parafusos minúsculos, caixas pintadas pela metade e estatuetas delicadas
repousavam  em  várias  mesas  e  prateleiras.  Algumas  coisas  eram  mais  novas,
com  suas  superfícies  lustrosas  e  brilhantes,  outras  haviam  acumulado  uma  fina
camada de pó, esperando que Maurice lhes desse atenção de novo. Mas, por ora,
ele estava focado na caixinha de música à sua frente. Enquanto Bela observava,
ele  mexia  em  uma  das  engrenagens.  O  interior  era  lindamente  pintado,
retratando  um  artista  em  um  pequeno  apartamento  parisiense.  O  artista  estava
pintando  o  retrato  de  sua  esposa.  Ela  embalava  um  bebezinho  e  segurava  um
chocalho semelhante a uma rosa-vermelha na outra mão.
Bela deu um passo adiante no cômodo. Maurice olhou distraído na direção do
som.  Sorriu  ao  ver  a  filha.  Seus  olhos,  da  mesma  cor  acolhedora  dos  de  Bela,
eram  brilhantes  e  focados.  Quando  ele  endireitou  os  ombros,  revelou-se  mais
alto e enxuto, ainda belo para sua idade avançada.
—  Oh,  que  bom,  Bela!  Você  está  de  volta  —  disse  ele,  voltando-se  para  a
caixa de música. — Aonde foi?
— Bem, primeiro fui até São Petersburgo para visitar o czar, então fui pescar
no  fundo  do  poço  —  começou  ela,  sorrindo  conforme  o  pai  assentia  distraído.
Quando ele estava trabalhando, não via nem ouvia nada. Bela compreendia. Ela
agia da mesma forma quando era seduzida por um livro.
— Hum, sim — disse Maurice. — Você pode me passar a…
Antes  que  ele  pudesse  terminar,  a  filha  estava  lhe  entregando  a  chave  de
fenda.
— E também o…
Dessa vez, ela lhe entregou um pequeno martelo.
— Não, eu não preciso… — A voz dele baixou assim que uma mola saltou da
caixinha. — Bem, acho que preciso, sim.
Quando  ele  voltou  ao  trabalho,  Bela  foi  até  uma  estante  repleta  de  caixas  de
música finalizadas. Seus longos dedos finos passaram por todas conforme ela se
movia  ao  longo  da  fileira.  Cada  uma  era  uma  obra  de  arte,  retratando
monumentos famosos ao redor do mundo. Ela sabia que seu pai as fazia para ela,
como  uma  forma  de  lhe  dar  um  vislumbre  do  mundo  lá  fora.  Maurice  nunca
disse com todas as palavras, mas Bela sabia que ele estava ciente de seu anseio
por  explorar,  por  escapar  do  pequeno  universo  no  qual  ele  a  mantinha  segura.
Ela  pensou  na  pequena  aldeia  e  nas  pessoas  fofoqueiras  que  viviam  ali.
Delicadamente, para não assustá-lo, Bela perguntou:
— Papai, você acha que sou estranha?


Notando o tom de voz da filha, Maurice desviou o olhar de seu trabalho. Ele
franziu a testa.
— Se eu acho que você é estranha? — repetiu ele. — De onde tirou uma ideia
dessas?
Bela deu de ombros.
— Oh, eu não sei… As pessoas comentam.
— Há coisas piores do que ser alvo de comentários — disse Maurice, com a
voz entristecendo. — Esta aldeia pode ser limitada, Bela, mas também é segura.
A jovem abriu a boca para protestar. Aquela era uma frase que seu pai usava o
tempo  todo.  Ela  sabia  que  as  intenções  dele  eram  boas,  mas  não  conseguia
entender por que ele queria continuar naquela pequena aldeia.
Vendo  que  sua  explicação  típica  não  funcionaria  com  Bela  hoje,  Maurice
mudou a direção da conversa:
— Lá em Paris, conheci uma garota que era tão diferente, pois era ousada e à
frente  de  seu  tempo,  que  as  pessoas  zombavam  dela.  Até  o  dia  em  que
começaram a imitá-la. Sabe o que ela costumava dizer?
Bela balançou a cabeça.
—  As  pessoas  que  falam  pelas  costas  dos  outros  estão  destinadas  a



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   36


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal