A bela e a Fera



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CAPÍTULO II
Gaston  adorava  receber  atenção.  Ele  vivia  para  isso,  na  verdade.  Desde
garotinho, buscava maneiras de ser o centro de tudo. Ele andou antes que todos
da  sua  idade.  Ele  falou  primeiro  e,  conforme  foi  ficando  mais  velho,  tornou-se
mais  alto  e  mais  belo  que  qualquer  um.  Com  seus  cabelos  escuros,  olhos
penetrantes  e  ombros  largos,  era  realmente  bonito.  As  garotas  o  amavam;  os
garotos o veneravam. E Gaston? Ele absorvia toda a atenção e regozijava-se com
ela..
Havia  um  limite  de  atenção  que  Gaston  poderia  receber  crescendo  em  uma
pequena  aldeia.  Isso  o  aborrecia.  Então,  para  sua  satisfação,  a  França  se
envolveu  na  guerra.  Gaston  não  via  a  guerra  como  uma  oportunidade  de
defender  seu  país,  mas  como  uma  chance  de  usar  um  uniforme  elegante  e
impressionar as mulheres — o que ele fez com gosto quando se tornou um herói
de guerra condecorado doze anos antes.
Gaston ainda usava sua farda.
E ainda acreditava ser o homem mais belo e másculo de toda a aldeia.
Agora  ele  montava  seu  grande  garanhão  preto,  fitando  a  aldeia  do
promontório  que  lhe  permitia  vê-la  do  alto.  Seu  tórax  se  avolumava  sob  um
peitoral dourado deslumbrante. Os músculos em seus braços saltavam conforme
ele  puxava  as  rédeas  do  cavalo,  fazendo  o  animal  dançar  nervosamente.
Amarrados  à  sela,  estavam  seu  fiel  mosquete  e  as  recompensas  de  sua  caçada.
Como sempre, ele tivera uma tarde de sucesso na floresta.
— Você não errou um tiro, Gaston — disse o homem ao lado dele.
Se  Gaston  era  um  leão,  como  já  haviam  dito  ao  longo  dos  anos,  o  outro
homem  era  um  gato  doméstico.  LeFou  era  tudo  que  Gaston  não  era.  Enquanto
Gaston era alto e musculoso, LeFou era baixo e fraco. Enquanto Gaston era todo
elegância, movimentos treinados e falas bem ensaiadas, LeFou era só tropeços e


balbucios  incompreensíveis.  Enquanto  Gaston  era  conhecido  e  venerado  por
todos, LeFou era uma mera nota de rodapé aos olhos dos aldeões. Ainda assim,
Gaston estimava o pequeno rapaz: mais pelo fato de ele ser seu maior fã.
— Você é o maior caçador da aldeia — LeFou continuou. Gaston lançou-lhe
um olhar fulminante e ele rapidamente corrigiu: — Quer dizer… do mundo.
Gaston estufou ainda mais seu peito já inflado e ergueu o queixo no ar como
se posasse para um artista invisível.
—  Obrigado,  LeFou  —  disse.  Ele  olhou  para  baixo  para  ver  o  que  LeFou
havia “capturado”  (um punhado  de vegetais)  e ergueu  uma sobrancelha.  Então,
acrescentou com ironia: — Você também não foi tão mal.
— Um dia desses vou aprender a atirar como você — comentou LeFou, alheio
à zombaria de Gaston. — E falar como você. E ser alto e belo como você.
Deixe disso, velho amigo — disse Gaston, fingindo não ter adorado cada
elogio. — A glória refletida é tão boa quanto a original.
LeFou  inclinou  a  cabeça,  confuso.  Ele  abriu  a  boca  para  falar,  mas  parou
quando viu Gaston se endireitar na sela. Os olhos do homem de cabelos escuros
se  estreitaram,  como  se  fossem  de  um  lobo  avistando  uma  presa.  Seguindo  o
olhar de Gaston, LeFou viu o que havia chamado a atenção de seu amigo. Logo
adiante,  Bela  abria  caminho  pela  praça  da  aldeia.  Seu  vestido  azul  vivo  reluzia
em  contraste  com  seus  fartos  cabelos  castanho-avermelhados.  Mesmo  àquela
distância, LeFou conseguia ver que as bochechas dela estavam coradas.
— Olhe para ela, LeFou — prosseguiu Gaston. — Minha futura esposa. Bela
é a garota mais bonita da aldeia. Isso faz dela a melhor.
— Mas ela é uma mulher tão culta, e você é tão… — LeFou se conteve. Ele
quase incorreu no erro que se orgulhava de nunca ter cometido: ofender Gaston.
Rapidamente,  antes  que  o  amigo  pudesse  se  perguntar  sobre  a  hesitação,  ele
terminou a frase. — Inclinado aos esportes.
Gaston assentiu.
— Eu sei — concordou ele. — Bela pode ser tão questionadora quanto bonita.
—  Exatamente!  —  disse  LeFou,  feliz  em  ver  seu  amigo  falando  de  forma
sensata. — Quem precisa dela? Você tem a nós! Le Duo!
Ele  disparou  o  apelido  quase  esperançoso.  Logo  que  voltaram  para  casa
depois  da  guerra  —  porque  é  claro  que  LeFou  havia  acompanhado  de  seu
parceiro  na  batalha  —,  o  homenzinho  vinha  tentando  em  vão  fazer  com  que  a
aldeia chamasse a dupla de Le Duo. Mas o apelido nunca pegou. Normalmente
era somente Gaston e “o outro”. Ou, quase sempre, apenas Gaston.
Absorto em si mesmo, Gaston mal notou a carência na voz do amigo.


— Desde os tempos de guerra, tenho sentido falta de algo — disse ele, ainda
olhando  para  Bela.  —  E  ela  é  a  única  garota  que  conheci  que  me  dá  essa
sensação de… — Gaston hesitou, tentando encontrar as palavras certas.
Je ne sais quoi? Algo mais? — propôs LeFou.
Gaston se virou e olhou para ele com uma expressão confusa.
— Não sei o que isso significa — ele disse. — Só sei que desde o momento
em que a vi, soube que me casaria com ela. E não quero mais ficar aqui parado,
perdendo tempo. — Guiando seu cavalo a galope, ele seguiu para a aldeia como
um herói retornando do campo de batalha. Atrás dele, LeFou incitou seu pônei.
O  animal  peludo  abaixou  as  orelhas  e  disparou  imediatamente  em  um…  trote
lento.
Bela  ouviu  o  ruído  dos  cascos  momentos  antes  de  os  cavalos  atravessarem  os
portões  da  aldeia.  Na  verdade,  apenas  um  deles  irrompeu  pela  entrada,  o  outro
meio que serpenteou. Imediatamente, Bela reconheceu o enorme garanhão preto
e  o  homem  montado  nele.  Era  Gaston.  Atrás  dele,  seu  aliado  sempre  presente,
LeFou,  estava  lutando  para  controlar  o  pônei  desgrenhado.  Ela  abafou  um
gemido e se esgueirou depressa para trás do vendedor de queijos, na esperança
de que Gaston não a notasse.
Ela já tivera discussões demais com o herói de guerra. Toda vez era a mesma
coisa.  Gaston  se  exibia  como  um  pavão  enquanto  se  vangloriava  de  sua  última
caçada  ou  lhe  contava  uma  história  sobre  seus  dias  de  glória  na  guerra.  Bela
tentava  não  revirar  os  olhos.  Os  aldeões  —  especialmente  as  mulheres  —
perdiam  o  fôlego  e  cochichavam  sobre  quão  sortuda  era  Bela,  e,  por  fim,  a
jovem ia embora sentindo que precisava de um banho. Ela sabia que Gaston era
considerado  o  melhor  partido  por  muitas  —  bem,  por  todas,  para  dizer  a
verdade. Mas ela não suportava aquele homem. Havia algo bestial nele.



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